quinta-feira, outubro 30, 2014

fénix

cleveland devia ser um case study por vários motivos. era uma cidade que concentrava grande parte da riqueza do midwest americano. "desconhecidos" como o j.d. rockfeller eram daqui e começaram a construir os seus impérios a partir daqui. a cidade foi quase ferida de morte com o encerramento de grande parte da indústria e viu os postos de trabalho fugirem para outros lados. mas nunca morreu e vários visionários viram na crise uma oportunidade. hoje em dia é um dos mais importantes polos medico-científicos do mundo. tem um dos mais importantes portos dos estados unidos, sendo o único porto da região dos grandes lagos com transporte directo transatlântico. no desporto tem dos maiores períodos sem qualquer vitória nas principais competições, mas no meio disso tem dos adeptos mais leais do país. por isso é que sentiram a partida do le bron para miami como se de uma traição conjugal se tratasse. por isso é que o odiaram de morte. como o ódio e o amor estão em extremos que se tocam, ele próprio entendeu (porque cresceu aqui) o que significaria voltar para cleveland. por tudo isso, cleveland não é só isto, mas cleveland é muito isto.



segunda-feira, outubro 20, 2014

sobre os lugares

perguntou-me sobre o taj mahal e eu falei da história de amor por trás da sua construção. perguntou-me se era imponente visto de longe. eu respondi que sim e falei dos guias turísticos de ocasião, que ganham a vida todos os dias esperando do lado de fora do complexo por turistas, em busca de um valor fixo para trocar por histórias e por uma capacidade pouco mais do que tosca para tirar fotografias de grupo.

perguntou-me pela grande muralha da china, a única obra do homem que se avista da lua. confessei que essa história era mito, mas que em compensação podia garantir que se via lindamente a lua da grande muralha da china. quis saber mais da grandiosidade das torres e das muralhas. falei-lhe do tipo que encontrei numa dessas torres, no ponto menos turístico da muralha que se possa imaginar, a três ou quatro horas de caminho da aldeia mais próxima, que para ali vai todos os dias à espera da meia dúzia de aventureiros que ali passam. a ideia é vender-lhes postais mas acaba por lhes entregar de borla uma lição de vida.

pergunta-se tanto "qual foi o lugar mais bonito onde já estiveste?" e tão pouco "qual foi a melhor experiência que já tiveste?". os lugares contam, mas estão sobrevalorizados. garanto-vos que podem ser muito infelizes na polinésia francesa e muito felizes em kabul.

quinta-feira, outubro 16, 2014

pedido

uma vez o vencedor de um prémio nobel pediu-me que lhe escrevesse o discurso de vitória do prémio.

na verdade quem me pediu que lhe escrevesse o discurso foi um candidato a primeiro-ministro.
confesso que não foi bem assim, o que me pediram foi que escrevesse uma carta para sensibilizar as populações para a importância da vacinação.
minto, pediram-me foi se podia enviar uma carta registada para a companhia da electricidade para cancelar o contrato.

agora que penso bem nisso, o que se passou foi que me pediram que escrevesse o meu número de telefone num pedaço de papel, e o meu sorriso foi tão grande como se estivesse a escrever o discurso de um prémio nobel.

quarta-feira, outubro 15, 2014

vai correr tudo bem

ela deu-me a mão e disse:
- vai correr tudo bem.
peguei na mão dela, segurei-a alto e perguntei:
- mas não vais precisar da mão para mais logo? 
- não, ainda tenho a outra, podes ficar tu com essa.
- mas vê lá bem se não precisas mesmo. é uma mão tão bonita. tem as unhas pintadas e tudo. até me sinto mal de a aceitar.
- a sério. faço questão. fico com a esquerda porque sou canhota e tenho de a usar no volante, mas o meu carro é de mudanças automáticas, por isso podes ficar descansado e levar a mão direita contigo.

parti sossegado com a mão direita no bolso, meio escondida com medo de ser apanhado ao passar na segurança. dito e feito. assim que cheguei ao primeiro guarda, ele franze o sobrolho e pergunta:
- o que é que traz aí no seu bolso?
- ah, senhor guarda, isto é uma mão que me emprestaram.
- e a mão tem líquidos?
- já não, senhor guarda, tinha um bocadito de sangue, mas foi caindo pelo caminho.
- e para que é que o senhor quer essa mão?
- ainda estou a pensar nisso. comecei a escrever este texto com a ideia de usar a frase "ela deu-me a mão" e ser literal mas agora não sei bem o que fazer com ela, está a perceber, senhor guarda?
- bom, pode usá-la para muita coisa, mas talvez o melhor seja vendê-la no mercado negro.
- acha, senhor guarda? quanto é que será que me dão por ela?
- não faço ideia a quanto está o quilo de mão, de facto...
- creio que a vou trocar por meio cérebro. faz-me mais falta, tenho andado baralhado das ideias.
- porque não troca por um coração? ter dois corações pode ter muitas vantagens.
- mas assim arrisco-me a que me possam partir dois corações.
- então troque por um escudo de metal para o coração. há uns óptimos agora na loja do lince preto.
- e depois com o escudo de metal não vou ter problema a passar aqui na segurança?
- não. desde que não tenha líquidos e que descalce os sapatos, pode proteger o coração como quiser.
- muito obrigado pela ajuda, então.
- de nada, parece-me ser um plano com pernas para andar.


terça-feira, outubro 14, 2014

há vírus piores

o sobressalto, o amontoado de membros da imprensa à porta de unidades hospitalares, os artigos dos especialistas, os alarmes da população, as lágrimas prematuras, as insónias precipitadas. todos temem um vírus de que ouviram falar, todos se debruçam sobre os relatos míticos daquilo que o vírus faz a um corpo, de como o destrói de dentro para fora, de como é incurável, de como não há nada a fazer.

no meio disto tudo, o sítio de onde o vírus veio tem vários problemas bem mais graves de que ninguém fala.

os que estão do lado do medo de que ele chegue consomem os seus dias com a preocupação. esquecem-se de que vivem no meio de vírus bem piores, que consomem corações que nem canibais esfomeados, mais tóxicos do que material radioactivo e mais instáveis do que uma falha sísmica. esses comportam-se como areias movediças da alma, como cavalos de tróia da paixão, dão conta do visível e do invisível e ainda se vangloriam no final, como se a auto-proclamada vitória não fosse inerente à sua génese, da qual não podem jamais fugir. 

mas os vírus não vivem por si. os vírus precisam de células onde viver. ainda que no fim, quase sempre, acabem por induzir imunidade. o corpo onde vivem despega-se deles e obedece à máxima do nietzsche de que 'o que não nos mata torna-nos mais fortes'.

abusando das citações (uma vez que a multa de hipercitações está paga), já dizia, e bem, o wilde, que 'experiência é simplesmente o nome que damos aos nossos erros'.

segunda-feira, outubro 13, 2014

time warp

acordou com o som da chuva a bater no tecto do prédio. correu ensonado para o duche, seguido das estrelitas com leite. pôs a mochila, com três vezes o seu peso, às costas e calçou as galochas. saiu porta fora e sorriu ao avistar a primeira poça. atravessou-a feito navio de cruzeiro e sentiu o poder da borracha impermeável e colorida. saltou dentro da poça seguinte enquanto se imaginava um astronauta a brincar na lua. pensando bem sabia ter lido que a lua não tinha água. começava também a duvidar que os astronautas pudessem brincar, a vida dos adultos parecia dada a coisas demasiado sérias durante demasiado tempo. nada disso importava, contudo, porque aquela poça era aquele momento e os adultos eram os adultos, mais liberdade ficava para as crianças.

acordou com o som da chuva a bater no tecto do prédio. tropeçou do quarto até à sala onde acendeu um cigarro e bebeu de um trago o resto do whiskey que sobrava no copo da noite anterior, enquanto atirou a garrafa vazia na direcção do lixo. comeu uma fatia de pizza aquecida no micro-ondas. arrastou-se até ao duche e depois vestiu qualquer coisa que estava ali à mão e calçou as botas de inverno. amuou quando chegou à porta do prédio e viu o que chovia. voltou para cima, trouxe o chapéu e moveu-se até à paragem do autocarro. um carro passou rápido demais e encharcou-o de cima a baixo. sentiu vontade de gritar de raiva, mas ainda mais vontade de ter um fato de astronauta para andar na rua em dias de chuva.

quinta-feira, outubro 09, 2014

there she goes

o sol ainda vai alto mas a lua já quer dizer olá. o volume é quase tão alto como ficará mais tarde, mas ainda se mistura com o nevoeiro das leveduras e com a entrada de gente que parece pouco mais do que formigas num carreiro. 

ela salta do nada, sorri e corre na direcção do abraço que marca mais do que mil volumes de romances russos. com menos tragédia, sangue e lágrimas. enrola-se no abraço, rebola pelo resto da noite, perde-se em rimas de língua estrangeira, poesia disfarçada de tempos modernos e de batimentos que entornam ritmos em cima da mesa que é a vida.

um casal aparece e acena a dizer que sim. o sol já se escondeu a oeste, mas a lua sorri. são dois num. são sorrisos transformados em hiper-sorrisos e sangue que corre pelas veias como se fosse o coelho da alice. a paixão traz sempre a pressa que a vida não tem. o sangue apressa-se a querer ser mais do que acha que consegue alcançar. os dias passam, os vasos abrem, os glóbulos passam. os vermelhos, os brancos, os cor de arco-íris. todos se juntam e sorriem, também eles, veias fora. 

param.

param no coração para apreciar as paredes. olham as aurículas como quem vê a mona lisa pela primeira vez, pequena mas impressionante. saltam mitral fora, chocam com as paredes do ventrículo, sorriem de novo e são ejectados corpo fora como um homem-bala. por essa rede de vasos que parece uma árvore. por esses corpos múltiplos, que parecem uma floresta. não repousam porque nunca param. o sangue nunca pára. o coração nunca pára. quando pára deixa de sorrir e a lua pede mais do que isso, porque reflecte o sol, enquanto bebe uma garrafa de vinho tinto chileno e olha para o quarto e para o quinto planetas a contar do sol.