terça-feira, janeiro 31, 2012

sobre aquele sítio onde levam as pessoas a ver os aviões

o centro do mundo é bem capaz de estar geograficamente lá naquela zona meio esquisita cheia de níquel e coisas que tal. nunca ninguém lá foi, tirando o júlio verne em imaginação, mas a minha ideia é que o centro do mundo deve ser qualquer coisa assemelhada de uma pilha. é melhor nunca o deixarem destapado ao sol, porque eu já fiz isso com pilhas das outras e garanto-vos que é coisa que baba.

fora do geográfico, tenho a certeza que o centro do mundo está nos aeroportos. nos vários. é um centro descentrado que se descentra tão harmoniosamente que chega a parecer estar centrado.

nenhum outro lugar brinda de forma tão fugaz o cruzamento de gente que chega com gente que parte. nenhum outro lugar tem gente a chorar de alegria no andar de baixo enquanto outros choram de tristeza no lugar de cima. nenhum outro lugar representa tão bem este formigueiro arraçado de colmeia, onde os seres humanos brincam ao toca e foge, às verdades, às consequências, aos beijos de ocasião e à ocasião do beijo.

a vida de um aeroporto é como a vida de uma sopa cósmica. destrói-se e reconstrói-se a cada momento. explode e implode ao som de tons doces misturados com razrrrs de motores potentes que teimam em invadir o céu idos da terra e re-invadir a terra regressados do céu.

o caos organizado do aeroporto é tudo isso. e tão bom de observar como uma chuva de estrelas numa noite limpa de verão. ambos são espectáculos de migração. só as personagens é que diferem e o encenador acaba por ser/não ser (riscar o que não interessa) o mesmo.

segunda-feira, janeiro 30, 2012

colchões de água

os colchões de água são tipos perigosos. não só porque correm o risco de inundar o chão de um quarto se alguma coisa correr mal, como porque funcionam à laia de sensação desconhecida. pelo menos da primeira vez. sentar ou deitar num colchão de água é igual ao momento em que as nossas pernas entram numas escadas rolantes desligadas e sentem a insegurança de algo que não está no sítio certo. o corpo questiona-se, os sensores da rotina tremem de medo e a estranheza paira durante os curtos segundos que antecedem a habituação. quem tem o hábito de saltar para cima (dos colchões, não das escadas rolantes, mas que raio de tara é essa?) deles pode sentir ainda mais na pele o choque da pele com o bailado da água que vive dentro do colchão. depois habitua-se. depois é bom. depois é diferente.

a vida, como não podia deixar de ser, adora imitar colchões. de água e dos outros. os corpos estão por demais habituados a fazer os mesmos caminhos, a conhecer as mesmas pessoas, a dormir no conforto dos cobertores conhecidos e a viver na floresta de cujas plantas se conhece tão bem o cheiro. sair do caminho principal não é fácil, não é prático e não é tranquilo. somos como elefantes em lojas de porcelana. outras vezes como elefantes saltando suavemente de nenúfar em nenúfar. tudo isso envolve a mesma insegurança, o mesmo salto no abismo, o mesmo jogo de brincar com outros sentidos que não aqueles que nos são vendidos de origem na loja dos nascimentos.

mas o risco, por vezes, muitas vezes, paga o medo. porque os colchões podem ser de água. mas raramente rompem. e se rompem, que seja por bem.

domingo, janeiro 29, 2012

o encanto perdido dos sítios eles próprios esquecidos

os sítios aparentemente perdidos guardam segredos que não polvilham sob a forma de tinta qualquer mapa de tesouro.

os sítios achados têm muitas vezes algo de fantástico para visitar. algo de extremamente belo. algo que faz milhões, biliões, triliões de almas deslocar-se no passo rápido do viajante de ocasião para planar sobre essa beleza contada. e assim se chega, se vê e se parte. a visita a esses lugares tem a tónica daqueles vôos de treino, em que o avião faz a aproximação à pista, toca ao de leve no asfalto, sentindo o cheiro da terra como se de uma borrifadela de perfume se tratasse, e logo deriva o ângulo para subir na direcção de outras luas. esse toca-e-foge permanente marca o nosso dia-a-dia, o nosso noite-a-noite, e até muita da nossa fuga ao dia-a-dia, quando visitamos alguns desses lugares.

os sítios perdidos não têm essa ambição de corresponder a qualquer expectativa. os sítios perdidos, vendidos como fora de mão, entrecruzados em rotas de decadência, deixam-se ficar. são a terra com perfume que não augura ser borrifado sobre nada. o seu encanto emana da sua própria natureza perdida. engraçado como alguns desses lugares são usados por vezes em anedotas ou situações anedoctais como exemplo de fora-de-mão, de desinteresse, de fim-do-mundo. não será o fim do mundo um bom lugar para encontrar para esse próprio mundo um fim?

entre uma praia totalmente deserta, namorando árvores despidas pela rigidez de um inverno que se quer tão rigoroso como um triângulo ditatorialmente equilátero, um lago semi-gelado insinua-se com pequenos rios que brincam ao jogo da aproximação. pequenas trutas viajam saltando ali ao fundo, imunes à pressão que nunca pediram. talvez discordem do rumo a tomar, porque vejo que nadam em direcções diferentes. o sol sorri de braços calorosamente abertos para as margens e cria aquele maravilhoso espelho grátis que só ele sabe criar na natureza pura.

do outro lado do rio três veados olham curiosos para mim, perguntando-se, a meu ver, o que estou eu ali a fazer, neste fim do mundo, onde apenas os veados brincam com as raízes e as trutas nadam livremente na água gelada. porque não estarei eu onde todos os outros estão neste momento, no princípio do mundo, a aguardar quarenta e oito minutos numa fila de mais pessoas do que ovas têm as trutas, para fazer o meu papel nessa roda dentada de que o mundo depende?

sorrio do fundo do coração para o outro lado do rio, na esperança de os fazer compreender que hoje sinto ali, perdido no meio do nada, aquilo que raramente, se alguma vez, se encontra no meio do tudo.

muitas florestas para poucas árvores

querer ser demasiado abrangente num tema é perigoso e indelicado.

sempre achei que essa é das falhas mais frequentes em hollywood. todos sentados numa reunião de brainstorming (sempre me perguntei se brainstorming envolverá pedras de gelo a cair e raios no céu, mas talvez tenha pouca importância aqui para o texto, oh well...) de um qualquer grande estúdio. ideias. precisam de ideias para um novo filme. alguma alma pseudo-brilhante sugere fazer um filme sobre mulheres. todos pegam naquela folha padrão, polvilhada de fill-in-the-blankets (na verdade é "fill-in-the-blanks" mas eu sou mais a favor de entrar para dentro de cobertores que de espaços em branco. chamem-me maniento), e decidem fazer mais uma repetição da mesma história envolvendo mulheres, relações, mulheres, ralações, sexo, pseudo-sexo, sexo implícito, glamour, choro e riso.

com isto tentam abranger a complexidade que envolve "a" mulher, achando que isso se pode minimalizar a noventa singelos minutos. erradíssimo. há quem escreva sobre elas a vida toda e nem assim o consiga. e muitos acabam mais depressa nos braços da fada do absinto do que abraçados ao absinto sentimental dos braços de uma mulher.

a minha sugestão para quem argumenta é que passem a dar mais atenção ao detalhe. que saiam do fácil e mergulhem no difícil. que façam um filme de noventa minutos só sobre a pequena cova que repousa no pescoço. mesmo isso já é pedir tanto. já é ser tão ambicioso. conhecer uma mulher é uma tarefa para várias vidas. conhecer os seus detalhes pode ser tarefa para uma tarde de chá quente, lareira e vontade de reflexão in vivo.

porque as florestas são lindas vistas de longe. e de cima. mas só junto de uma árvore, deitado no chão, a ver o sol entrar tímido pelo meio das folhas, consigo namorar com o que me dizem as raizes, com a história que me conta o tronco, com os pequenos cogumelos que teimam em funguisticamente querer viver em regime de cumplicidade com um outro ser. e o detalhe é tão vasto. e tem tanto para contar.

sábado, janeiro 28, 2012

a vida e os buracos de várias cores

a minha paixão por astronomia desde tenra idade (tão tenra como uma posta mirandesa) levou-me a desde muito cedo achar apaixonante o conceito tenebroso do buraco negro, que suga toda a matéria e de onde nada pode escapar. mas mais fascinante ainda a deliciosa possiblidade dos buracos brancos, hipotéticos espelhos dos buracos negros, lugares onde nenhuma matéria pode entrar mas de onde toda a matéria pode sair. a teoria diz ainda que isto possibilita de facto que alguém entre num buraco negro e seja transportado para um buraco branco, aleatório, noutro ponto qualquer do universo instantaneamente. e estamos a falar em viajar para outro lugar e/ou tempo. os velhos do restelo, combatentes do sonho, mesmo que astrofísicos, respondem a isto com “sim, mas a desintegração das moléculas durante a viagem jamais permitiria que um ser vivo sobrevivesse a esta forma de teletransporte”.

deve ser gente muito enfadonha, esta. que não acredita em viagens no tempo e no espaço. os antepassados destes amigos de certeza que eram gente que defendia que isso de fazer pedras circulares nunca ia dar em nada. que pôr amontoados de madeira no mar com umas velas agarradas ia correr mal na certa. e que metal a descolar em direcção ao sol só se fosse para ter uma morte garantida em regime de catapulta.

felizmente os sonhadores vencem tudo isto. conseguem perceber que há espaço para um parque de campismo na superfície do sol. que o terreno de marte é extremamente jeitoso para fazer caminhadas ao fim da tarde, estando mesmo a jeito para vêr o pôr da terra através do reflexo de sol. que os anéis de saturno são para ser aproveitados como montanha russa, em qualquer dia da semana, de qualquer dia do ano. ou que as planícies de saturno estão mesmo a pedir caipirinhas e partilha de carinhos nas horas de maior calor. que lá... são todas.

sobretudo sabem que, mais tarde ou mais cedo, vamos ganhar coragem e entrar num buraco negro. vamos sair muito muito muito longe de dentro de um qualquer buraco branco, com um sorriso não-desintegrado na cara e a dizer que aquela foi uma pequena viagem para o homem mas uma vertiginosa descoberta do universo para a humanidade.

quinta-feira, janeiro 26, 2012

as três dimensões. mais a quarta que ninguém percebe muito bem.

sempre tive para mim que o micro-cosmos e o macro-cosmos não se entendem muito bem. e nós, pessoas cheias de mania que tudo sabemos e que tudo descobrimos, sempre pouco cientes de que não sabemos nada e que descobrimos muito pouco, inventámos formas de, pelo menos, conseguir destapar ligeiramente o véu a ambos.

nas costas do microscópio largámos toda a responsabilidade de olhar para o que é infinitamente pequeno. não lidamos é bem com o conceito de infinito, portanto, quando os globos oculares se aproximam das lentes, vêem o retrato, isso sim, do que é finito e pequeno.

o telescópio, por sua vez, foi inventado para olhar para as estrelas. para cima, para baixo, para os lados, mas para as estrelas. e também para os planetas, mas esses são restos de estrelas, parentes próximos. lamento desiludir todos os voyeurs que os usam para observar as vizinhas do bairro a trocar de roupa ao lusco-fusco, mas de facto foram pensados para ver para lá da atmosfera.

na sua grande maioria este pensamento tem o condão de nos satisfazer. vemos o pequeno. vemos o grande. olhem para nós que somos tão bons. aí é que está. não no sermos tão bons, mas sim no "olhem para nós". quem nos garante que, ao andarmos entretidos a achar que somos o player de tamanho médio entre micro e macro-cosmos, não somos nós apenas um adicional acidente no caminho bem maior. recorrendo à minha imaginação, mais fértil que as margens do nilo, consigo ter a imagem perfeita de seres gigantescos que olham para nós com a sua espécie de microscópio e não nos definem com mais pomposidade do que nós definimos uma bactéria. tal como consigo imaginar toda uma família a residir numa das curvas de um qualquer ADN de um qualquer ser muito muito pequeno a olhar para cima e achar que a membrana da célula é o fim do universo.

no fundo, tal como nós, o micro-cosmos e o macro-cosmos deve estar cheio de espertos. que ainda não sabem, mas no fundo... não sabem nada.

terça-feira, janeiro 24, 2012

até os pássaros brincam no meio da neve

o céu azul eléctrico.

aquele céu que não se decide entre o branco e o preto. cinzento-escuro não é para ele de certeza, também. quer anunciar. quer uma cor que chame. que avise que o que vem aí é para ser visto. o céu podia pagar um anúncio na televisão ou no jornal. mas em vez disso pinta-se de azul eléctrico.

abaixo dele, na sua azáfama, milhares de cabeças rodam, apontando os olhos para cima, deixando de apenas olhar, para passar a ver. depois, a pouco e pouco, sentem. o azul eléctrico a viajar. o pó dourado que o envolve a migrar muito lentamente, naquela marcha em que quente e frio se misturam, num abraço de lã e pele.

o céu sorri. conseguiu a atenção que queria. agora sim, estão todos atentos, o espectáculo pode começar. não, não há tempo sequer para sete pancadinhas, vamos já começar que se faz tarde. a agenda do céu é ocupada. não se pode prender a inutilidades.

abrem-se os canhões. festejam os soldados. a neve cai. desce em piruetas do etéreo ao presente. usa escorregas perdidos em telhados. repousa em camas de relva. beija as folhas caducas, gastas de toda a sua beleza do outono. mas sobretudo, vejo que cada floco põe o ar orgulhoso e inchado de um actor principal. reconhece as mãos sedentas de brincadeira das crianças, a felicidade dos gorros que hibernaram todo um verão e o profissionalismo da malha das luvas, unida em exército para proteger toda uma mão.

o espectáculo branco avança. está agora na fase de imitar a areia do deserto. o céu ri cada vez mais alto. pergunta se alguém já viu um espectáculo mais lindo do que este. questiona-se porque é que nunca o convidam para encenar aberturas de jogos olímpicos ou de jogos menos olímpicos, mas com aberturas dignas de um céu.

olha para o relógio e parte. há mais um espectáculo para começar uns quilómetros a sudeste. o espectáculo tem de continuar.

domingo, janeiro 22, 2012

dono de pedaços de céu

hoje acordei com vontade de devorar o mundo à dentada. contemplar prados durante horas, pegar em montanhas com o toque gentil de duas mãos, elevar árvores à boca tapando a cortina de sol que alumia o dia e finalmente poder deixar fluir mundo pelos cantos dos lábios e pelos cantos das línguas, num festival de amor entre papilas gustativas e concentrados de natureza.

esta vontade encaixa no universo como duas peças de puzzle. daqueles para dois aos quatro anos. tão evidentes que não há como não conseguir fazê-los. dizem dois aos quatro anos, mas hão-de experimentar pôr a caixa do puzzle dentro do útero de gestação e vão ver se quando a criança nasce o puzzle não vem logo impecável. "nasceu, é um menino lindo de três quilogramas e duzentos gramas. e traz a torre eiffel já feita. não se enganou nas peças do puzzle que fazem o céu nem nada. que apgar extraordinário."

o céu é sempre difícil nos puzzles. a tendência é dizer que as peças são todas azuis e iguais. desafio-vos a olhar para cima num dia de céu limpo, nuvens à parte (faz de conta que foram de férias para outro lugar. um resort. que as nuvens gostam muito de pulseira no braço e regime de tudo-incluído), e afirmar que o céu é todo igual. jamais. o céu é todo diferente. tem espaços próprios, tem desenhos multi-facetados, tem cercas que definem os espaços de cada um dos seus donos. há quem acredite que até cemitérios tem. eu pelo menos estou sempre a ouvir dizer que quem morre e se portou bem vai para o céu. quando era pequeno achava que isto era regime de catapulta. o que dava um funeral lindo. agora cresci e já sei que não. realmente vamos todos para o céu quando morremos. a atmosfera é feita de nós e nós somos feitos de atmosfera.

por isso somos donos de pedaços de céu. no dia em que olharem com força, concentrados, para um pedaço de céu, conseguem ver os sorrisos da gente que ali mora, os carrosséis de alegria perdidos em cabelos soltos ao vento, as bancas de algodão doce disfarçadas de nuvens, outras vezes delas próprias, os polícias sinaleiros decididos, e com bigode, claro, a pedir a asteróides que se desviem e a satélites que se comportem como máquinas crescidas.

re-penso. afinal não somos só donos de pedaços de céu. somos também dos aromas, dos cheiros e das cores. todas. até o azul que parece sempre igual esbatido numa tosca peça de puzzle, feito para crianças dos dois aos quatro anos, mas que no fundo é a metáfora em cartão daquilo que cozinhamos nós próprios durante toda uma vida.

as fábricas das coisas

lembro-me como se fosse hoje de como os meus olhos irradiavam alegria quando, sendo ainda uma amostra de gente, estava a ler um livro do petzi em que ele vai ao pólo norte e descobre que as auroras boreais são feitas rodando uma manivela. claro que é muito difícil chegar à sala onde são feitas as auroras boreais. está no topo de uma montanha, fechada ainda a mais do que sete chaves, e guardada pelo seu proprietário privado, o rei do pólo norte.

se é verdade que o tempo passou por mim, não passou contudo pelos meus olhos, que continuam a irradiar da mesma forma quando trabalham em solidariedade com a minha imaginação e se perdem de mãos dadas na construção de argumentos que expliquem o porquê das coisas.

nunca fui de engolir a teoria de que as coisas são o que são porque sim. 'porque sim' nunca me pareceu resposta para nada. se tudo fosse 'porque sim' não havia lugar à imaginação. era uma espécie de sanatório privado da mente, impartilhável de tão louco. procurar as rodas dentadas que estão por trás do mostrador (lindo) do relógio é um modo de vida. não tenho descanso enquanto não encontrar mais e mais fábricas das coisas.

quero ver o igloo gigante onde produzem todo o gelo do mundo. a casa das máquinas que está na base do vulcão, de onde todos os dias saem trabalhadores furibundos, por volta das seis da tarde, com o permanente queixume de 'está lá um calor que não se pode'. de certeza que há fábricas para isto tudo. cheias de operários. mais não seja operários da mente. a navegar em neurónios em vez de vagões. a alimentar-se de electricidade em vez de sandes de carne assada.

podia parar para pensar se a fantasia faz bem. mas, além de não conseguir parar, tenho isso como um dado mais do que adquirido. as auroras vão continuar a encher o céu da noite de cor, sorrindo para a lava que os vulcões expelem e para o gelo que brinca aos pontos de solidificação. mais dia menos dia chegamos às rodas dentadas. até lá, aproveitemos para viver felizes no mostrador.

sábado, janeiro 21, 2012

vamos falar do tempo?

os dias de chuva e frio têm o condão de ir buscar o mais uterino que existe em cada um de nós.

é romântico (e nalguns casos sincero) dizer que adoramos correr à chuva, saltar de poça em poça ou amar a e na natureza. mas esse ideal cinematico-fantasioso é bonito com chuva tropical. com nuvens a rodopiar elecricidade e palmeiras em fúria. sabe o nosso corpo que umas horas depois tudo seca e o ciclo da vida vai-se repetir sem parar.

quando falamos de chuva fria, que o vento arrasta pelos colarinhos, a brincadeira já não é tão inocente. raramente se associa a prazer. gera dias incómodos, em que ou assumimos a molha ou perdemos a capacidade de resistir e acabamos por ceder a mil engenhos de combate à chuva, que mais nos fazem parecer soldados, em pleno campo de guerra contra a força sobrenatural da natureza. voltamos feridos da batalha, com varetas saídas de tecidos, casacos encharcados, calças com um degradé inesperado de ganga escura e ganga clara e calçado com ar de ter passado o dia num parque aquático.

pior ainda é o facto de essa chuva entrar directamente no cérebro, sem pedir licença, deixando toda a gente no auge da má disposição, resmunguice e falta de tolerância. gosto muito que o homem tenha ido à lua, mas tinha sido dinheiro mais bem gasto se tivesse sido investido a desenvolver fatos parecidos aos de astronauta para usarmos em dias destes. afinal o capacete dá ares de aquário, a integração no meio aquático seria total.

no final do dia contamos os despojos de guerra, fechamos as contas, e qual homem pre-histórico refugiado na sua caverna, ocultamo-nos do lado de lá de um vidro e sentimos a tranquilidade e a paz no calor de um chocolate quente, sentindo o sangue a subir também ele quente até à alma, enquanto lá fora a chuva teima em não parar...

sexta-feira, janeiro 20, 2012

o contraste não é só um botão no comando da televisão .

as estações do ano são meras brincadeiras de calendário. tal como os dias, os meses ou as horas, são meras convenções usadas com o mesmo fundamento com que se usa um cão para orientar um rebanho. o rebanho precisa de referências. não se questiona se precisa, mas dizem-lhe que precisa, ponto final. parágrafo. parágrafo o tanas, que eu não obedeço a ordens. agora sim.

mais do que a data no calendário, ou do que a coluna de mercúrio por trás do vidro, a natureza corrige essas megalomanias humanas da sistematização com a sua própria vontade. adora brincar ao extremo calor no outono ou à chuva durante dias a fio no verão. ri-se a ver o boletim meteorológico e a contrariá-lo. cai do sofá de regozijo quando vê seres vivos tirarem três semanas destinadas a areia e água salgada, por saber que lhes vai trocar as voltas, oferecendo-lhes afinal três semanas de programas manhosos na televisão e refreshes contínuos nas redes sociais, apenas feitos num apartamento mais junto ao mar do que o habitual.

a natureza sabe viver no seu contraste. diverte-se a viver no seu contraste. e o ser humano, se fosse esperto, deitava-se num leito de folhas caducas e abria bem os olhos para notar a vida que mora nas diferentes cores das folhas em mudança, no pólen solto ao vento a jogar à apanhada com as abelhas ou na difícil prova de escalada que um escaravelho leva a cabo na relva.

o contraste é tudo menos ordenado. com certeza que o adoro por ser caótico, por ser manivela do avesso, por ser o rio que corre ao contrário, mas por sua conta, ao seu ritmo, totalmente imune a riscos em calendários ou a cães que o dirijam para uma qualquer direcção.

quarta-feira, janeiro 18, 2012

por entre as gotas da água da chuva correm os fotões que iluminam o sentir .



(picture by anuar patjane)

a frustração, o pai natal e os triciclos que se transformam em bicicletas

de vez em quando dou por mim a parar para pensar sobre determinados sentimentos humanos. depois lembro-me que devo utilizar antes os minutos das horas dos dias para correr no parque, ler ou ir dar banho ao cão, esse cão que é a vida. mas o fim do dia chega. e volto à estaca zero em relação ao sentimento, que ficou à espera de ser pensado, como se fosse um amontoado de folhas no canto do mesa, debaixo de um post-it amarelo a gritar 'urgente!'. chegado à estaca zero (e é bom as estacas ainda servirem para algo mais útil do que apenas subtrair a vida a vampiros) o processo desenvolve-se do modo pouco organizado que seria de esperar.

hoje preocupou-me a frustração. porque é que sentimos frustração. em que medida a frustração é directamente proporcional à expectativa. creio que a frustração não nos acompanha desde o momento zero. não há memórias escritas de crianças com menos de três anos, mas acredito que nessa fase as respostas sejam essencialmente viscerais. emocionais. viscero-emocionais.

a frustração só começa a aparecer quando mergulhamos no racional e passamos a criar um esquema mental do que é a expectativa. a partir desse momento é aberta a porta à frustração. a promessa não cumprida gera frustração. o resultado abaixo do esperado gera frustração. a descoberta de que afinal o pai natal não existe gera frustração.

claro que, fruto de tanto cruzamento genético ao longo de tantos milhares de anos, e de tanto embebimento em sociedade, também desenvolvemos diferentes formas de combater a frustração. o caminho mais fácil é certamente trocar apenas duas ou três letras e transformar a frustração em prostração. pelo meio há uma via com mais algumas letras do que a prostração, a procrastinação, em que apenas adiamos a resposta à frustração. por último, o caminho mais difícil, assenta em ver oportunidades na crise, de maneira a chegar às expectativas iniciais, ao invés de puxar as expectativas para um nível mais baixo e ser feliz pela redução da fasquia.

no fundo a vida pode resumir-se ao momento em que largamos o triciclo para aprender a andar de bicicleta. à primeira queda, pelo meio das lágrimas e da vitimização contra o alinhamento dos corpos celestes, o piso escorregadio ou o carro que apareceu do nada, há que tomar a opção: andar de triciclo a vida toda ou cair mais umas quantas vezes, sabendo que mais tarde poderemos ser o lance armstrong lá do bairro.

terça-feira, janeiro 17, 2012

não concordo a 100% mas anda numa percentagem lá perto

acho o texto delicioso. só não subscrevo na totalidade por alguns pormenores. nomeadamente há ler e ler, ainda mais do que há mar e mar. o fim é particularmente delicioso e está tatuado no meu coração :)

" Date a girl who reads. Date a girl who spends her money on books instead of clothes. She has problems with closet space because she has too many books. Date a girl who has a list of books she wants to read, who has had a library card since she was twelve.

Find a girl who reads. You’ll know that she does because she will always have an unread book in her bag.She’s the one lovingly looking over the shelves in the bookstore, the one who quietly cries out when she finds the book she wants. You see the weird chick sniffing the pages of an old book in a second hand book shop? That’s the reader. They can never resist smelling the pages, especially when they are yellow.

She’s the girl reading while waiting in that coffee shop down the street. If you take a peek at her mug, the non-dairy creamer is floating on top because she’s kind of engrossed already. Lost in a world of the author’s making. Sit down. She might give you a glare, as most girls who read do not like to be interrupted. Ask her if she likes the book.

Buy her another cup of coffee.

Let her know what you really think of Murakami. See if she got through the first chapter of Fellowship. Understand that if she says she understood James Joyce’s Ulysses she’s just saying that to sound intelligent.

Ask her if she loves Alice or she would like to be Alice.

It’s easy to date a girl who reads. Give her books for her birthday, for Christmas and for anniversaries. Give her the gift of words, in poetry, in song. Give her Neruda, Pound, Sexton, Cummings. Let her know that you understand that words are love. Understand that she knows the difference between books and reality but by god, she’s going to try to make her life a little like her favorite book. It will never be your fault if she does.
She has to give it a shot somehow.

Lie to her. If she understands syntax, she will understand your need to lie. Behind words are other things: motivation, value, nuance, dialogue. It will not be the end of the world.

Fail her. Because a girl who reads knows that failure always leads up to the climax. Because girls who understand that all things will come to end. That you can always write a sequel. That you can begin again and again and still be the hero. That life is meant to have a villain or two.

Why be frightened of everything that you are not? Girls who read understand that people, like characters, develop. Except in the Twilightseries.

If you find a girl who reads, keep her close. When you find her up at 2 AM clutching a book to her chest and weeping, make her a cup of tea and hold her. You may lose her for a couple of hours but she will always come back to you. She’ll talk as if the characters in the book are real, because for a while, they always are.
You will propose on a hot air balloon. Or during a rock concert. Or very casually next time she’s sick. Over Skype.

You will smile so hard you will wonder why your heart hasn’t burst and bled out all over your chest yet. You will write the story of your lives, have kids with strange names and even stranger tastes. She will introduce your children to the Cat in the Hat and Aslan, maybe in the same day. You will walk the winters of your old age together and she will recite Keats under her breath while you shake the snow off your boots.

Date a girl who reads because you deserve it. You deserve a girl who can give you the most colorful life imaginable. If you can only give her monotony, and stale hours and half-baked proposals, then you’re better off alone. If you want the world and the worlds beyond it, date a girl who reads.

Or better yet, date a girl who writes. "

Rosemarie Urquico

segunda-feira, janeiro 16, 2012

stay off your windows, go to the basement.

os fenómenos da natureza e os fenómenos da criação estão tão bem ligados entre si como o queijo parmesão quando derrete no meio da massa acabada de sair do forno.

nesta esfera toscamente esculpida varia a intensidade ou o foco desse conglomerado. na minha terra de sempre entretia-me a ver um feijão dar origem a um feijoeiro numa simples bola de algodão, sedenta de água para fazer crescer o seu protegido rebento.

aqui a natureza tem um modo elegantemente violento de brincar à criação. a ferocidade do que estou a ver pela janela faz-me pensar que estou a observar o momento da origem do mundo e da vida, e nem sequer tenho de pagar bilhete.

por entre as sirenes contínuas, os sons do gelo a bater com violência nas janelas (até este ironicamente a ver a sua queda fora de época) e o vento que ameaça árvores resistentes a tantos anos de tantas outras coisas, fico no meu canto a pensar como isto é belo e essencial.

o riso e o choro parecem combinar-se num só, sob a forma de tempestade. se o leonardo aqui estivesse sentado concordaria que o enigma da gioconda não é mais do que a tradução em pintura de toda esta turbulência de incertezas que nos penteia a imaginação e nos deixa a sede de tudo descobrir, assumundo issso como sentido da vida.

imagino como deve ser difícil domar todas estas reacções químicas. bem mais difícil ainda domar o significado do que vem dentro, abaixo e acima delas. os azotos andam doidos a chocar com hidrogénios. não porque estejam em combustão para fazer andar carros, barcos ou aviões. estão a chocar porque é assim que eles sabem funcionar. é assim que eles sabem criar.

chamam-lhe tornado e avisam que a luz vai faltar em breves minutos.

irónico. olho lá para fora e juro que nunca vi tanta luz na vida.

(texto escrito em 25 de agosto de 2011)

domingo, janeiro 15, 2012

agá dois oooooh

adorava assistir à consulta de psicanálise de uma gota de água.

ninguém dá muito valor aos blocos dessa coisa sem cor ou cheiro que faz tanto parte da nossa vida que até faz parte de nós. e está em maioria. daquelas que dá para mudar a constituição e tudo. sim, a água tem a capacidade de mudar a nossa constituição, sem sequer precisar de assinatura do presidente da república.

claro que a falta de cor e de cheiro são rapidamente contornados pela nossa inexorável capacidade de destruir tudo aquilo que criamos, mas sobretudo aquilo que já cá estava antes de nós próprios estarmos criados.

a nossa luta com a água é milenar. agora estamos particularmente aptos a dar-lhe sabores e cores. do ponto de vista comercial nunca percebi muito bem uma água com sabor. sabe sempre a garrafa de sumo lavada à pressa com água. nem é sumo nem é água. mas quem sou eu para me perder nos caminhos do marketing?

prendo-me, isso sim, com a curiosidade de imaginar o id, ego e super-ego de uma gota de água. estava ontem a vê-las cair do céu, e a pensar quão díspares são as suas personalidades. umas vinham aos salpicos, outras a cair com a força de pedras, e por último caíram algumas mesmo sob a forma de pedras. não deve ser fácil a estabilidade para um ser químico que tão depressa é líquido, como sólido ou gasoso. eu cá não gostava nada de ter essa facilidade. se é verdade que me dava jeito evaporar na altura de pagar os impostos, seria bastante desagradável solidifcar quando estivesse a correr para fugir de um rinoceronte. a menos que pudesse escolher por mim quando havia mudança de estado e para qual. assim 'tá bem.

lá re-caímos nós no mesmo (além de abusarmos das redundâncias como de costume). por mais voltas que dê nunca deixaremos de ter a mania que queremos e podemos controlar tudo. o universo vai-se rindo de nós, fazendo razias irónicas de asteróides, como quem goza com o seu primo inocente que nunca viu as luzes da cidade. um dia ainda vamos perceber quão escravas as nossas moléculas são de poderosas super-novas e re-fazer a escala de valores no mesmo tempo em que se faz uma prova dos nove.

até prova em contrário vou continuar a reflectir sobre a gota de água deitada no divã, a divagar depressa sobre os seus problemas de labilidade de estado. e isso chega para me fazer feliz.

o fabuloso mundo da parte de trás

aposta-se tudo na fachada.

nas casas, como na vida, quem tenha de se decidir a decorar com pompa e circunstância uma das faces do cubo (ou cubo alargado), pensa sempre no sítio por onde as pessoas vão entrar, ou para onde vão olhar de relance quando por ali andarem. usam colunas, batentes dourados, tintas caras, nalguns lados até seres humanos com ar de capitão reformado da marinha ali pontificam para embelezar o cenário.

adoro a mística da parte de trás de um prédio ou vivenda. é onde se desiste da decoração mas mora a honestidade do ser. entre relvas mal cortadas e plantas exoticamente deixadas ao acaso vivem-se os momentos da infância e ouve-se o grito de que é hora de ir jantar ou tomar banho. ali, escondido do mundo, escondido de tudo, é possível sonhar, entre um joelho que fica preto da terra ou aquela comichão da comunhão com a natureza, em que uma formiga insiste em trepar pela pele acima.

também nos blocos de betão isto mantém validade. por exemplo com o parque de estacionamento transformado em campo da bola, com carros a fazer de balizas e vidros de carros a fazer de cartão vermelho. ou, mais por estas bandas, com as escadas de emergência, que conseguem transformar um poço urbano hipoteticamente vazio em algo próximo de uns bastidores de palco, mostrando com ferro desnudado a verticalidade de uma espécie de roupa interior da habitação.

de certeza que a porta da imaginação mora mais facilmente no lado das traseiras. não imagino a alice a sair pela porta da frente, e ainda menos o coelho apressado a usar elevadores, ao invés do esqueleto orgânico que mora no sítio das coisas esquecidas.

sábado, janeiro 14, 2012

falavam na rádio

ouvia-os ao longe.

os mercados estavam numa espécie de pânico. tinha caído um por cento de qualquer coisa que não percebi bem o quê. magotes de gente enchia ruas e queimava lojas e carros. almas perdiam-se em sobressalto e os meus olhos não ouviam bem a explicação.

fechei-os e deixei-me voar. seguir aquela linha branca que o avião deixa no céu e mergulhar na natureza de blocos de nuvens em explosão feroz. lembro-me que nadei com os raios e me esfoliei com blocos de gelo enquanto via os unicórnios em modo selvagem a correr à minha volta. assentei o tapete onde repousava e sorri para a lua, que se mostrava lá para cima dos choques de neutrões com beijos de lábios fechados.

por fim saltei para o abismo do cheiro a canela que a terra tem quando chove, e corri pelo meio da tempestade até perder a noção do molhado. quando os pensamentos estão quentes como uma baguete acabada de sair do forno não há chuva ou gelo que os consiga infectar de mal-estar. dei mais uma ou duas voltas pelas redondezas, com dois linces por uma trela e um leopardo à solta, resmungando com a falta de bifes do lombo na sua dieta actual.

lá ao fundo caía mais um por cento. mas eu continuava deliciado com as manchas do leopardo e os seus sons de amuo.

no fundo recuso-me a aceitar os limites que me vendem de que há uma linha entre o sonho e a realidade. essa linha? cada um que a trace.

sexta-feira, janeiro 13, 2012

rodelas de gengibre com um toque de pó de estrelas

na fronteira do infinito não serve de nada ter visto ou passaporte. os guardas são outros. em vez de fardas vestem vestidos pretos, perigosamente decotados, e trocam botas engraxadas por saltos altos de cores garridas, que não são mais do que portais da extremidade da perfeita arquitectura que se segue.

por mais que esperem por carimbos eles não chegam sob a forma de tinta. imprimem-se através da pele, tatuando partes específicas do coração ou entranham-se em sabores frutados de línguas que brincam ao jogo da serpente manhosa. à volta há édens. daqueles que, em vez de macieiras e casais puros nus, têm serpentes já com anos e anos de maçãs comidas, preocupando-se com a dose de carvão que enche os fornos que adornam as paredes do éden, e não com a conversão dos inconversíveis.

vê-se uma luz que ninguém percebe bem se é clara ou escura, porque os olhos estão maioritariamente fechados. quem sabe ver sem ter de separar as pestanas, delicia-se a contemplar com as mãos, a decifrar com a face, a tirar texturas com joelhos. o sétimo sentido está sempre ao rubro junto à fronteira do infinito.

o barulho das luzes torna-se cada vez mais fugaz, entre o cheiro das especiarias que decora a pele molhada por uma calda que parece vir de uma lata qualquer comprada num canto de uma loja gourmet refundida atrás de um portão de ferro. guardada por gárgulas, também elas despidas, e com ar de quem ri como uma hiena. a hiena não sabe porque ri, dizem. provavelmente dizem mas não sabem.

quinta-feira, janeiro 12, 2012

que manchete gostava de ver amanhã nos jornais ?

o doce tango entre o hemisfério esquerdo e o direito

anos e anos de evolução do ser humano no planeta terra (boa, começo por cometer o triplo erro de cair na nossa típica fraqueza de necessitar da dimensão tempo, espaço e massa para não sentir a vertigem do desconhecido) levaram-nos a desenvolver aquilo que é geralmente considerado como o sistema nervoso mais diferenciado da escala animal. basicamente sabemos que temos uma linha de raciocínio (bom, talvez com excepção do futre nos finais de tarde de alguns dias) e achamos que a capacidade de pensar de modo complexo nos coloca no trono do reino animal. o leão bem pode achar que é o rei da selva, que o do planeta está há muito definido.

não sei há quanto tempo nos separámos realmente do macaco, e deixámos a nobre arte de grafitar paredes de cavernas de borla e por misticismo para a trocar pelo uso de pincéis, telas e casas de leilões que vivem da continuidade do que foram bois desenhados em grutas. se pego neste ponto sensível é porque o recurso à pretensa pre-história (pretensa porque já consegui viajar no tempo até à Idade Média, mas para trás disso ninguém vai porque como se sabe a portagem é para cima de cara) nos faz ver que o cérebro direito sempre esteve em evidência desde o início. ainda antes de pensar o suficiente para talhar pedras numa forma cilíndrica, e arraçar objectos de roda, já o homem exprimia a sua chico-espertice a desenhar, a criar armas para a caça ou a desenvolver esquemas de sobrevivência. se é verdade que já há algum cérebro esquerdo ao barulho (vulgo inteligência racional no seu sentido clássico) o comportamento tinha também muito de artista.

todos estes anos passados, mudados os pincéis ou os campos de caça, a epifania continua para mim a ser alcançada no momento em que conseguimos pôr os hemisférios esquerdo e direito a dançar uma espécie de tango perfeito, em que se seduzem mutuamente e em que aplicam, com a intensidade máxima que conseguem atingir, a sua capacidade de comportamento solidário. quando esse tango atinge o auge, conseguimos finalmente ver. nem precisamos bem dos sentidos todos. ou até temos mais do que aqueles que nos vendem que existem. o reflexo de um raio de sol num qualquer cristal de quartzo pode então parecer explicar-nos ao mesmo tempo a teoria da relatividade e o im blau. porque quem só se esforça por dominar uma das forças cai irremediavelmente no erro de não as deixar guiar a dança. e toda a gente sabe quão mal visto fica um mau dançarino.

quarta-feira, janeiro 11, 2012

ode à loucura e ao desvio

adoro as convenções. a bem ver odeio-as. mas como adoro a ironia apeteceu-me começar o meu texto com uma ironia. gosto tanto da ironia. mas sobretudo de quando alguém não a entende e eu repito a minha piada parva (poderei eu chamar a isso uma piarva?) de que "irony" não é só um relógio da swatch. acabo de fazer publicidade e agradeço que a famosa marca suíça me transfira o respectivo valor para a conta. obrigado.

pondo alguma ordem (ou será desordem?) no que quero escrever, é magnífico como noventa e nove vírgula nove nove nove nove por cento da mole que habita este planeta encarrila em organizar em gavetas perfeitinhas o caos próprio do pensamento e da personalidade, na mesma mania mecanística e maquinística das carruagens de ferro que encarrilam no sítio devido quando atravessam países e países. por definição de normalidade entende-se aquilo que a maior parte da multidão é.

os loucos são obviamente diferentes. mas o curioso é que os diferentes também contam como loucos. o desvio é sempre visto como uma agressão. o querer sentir ou experimentar de outra maneira é sempre visto como um crime, como estupidez, como insensatez, ou como qualquer outra coisa, acabada em 'ez' ou não acabada em 'ez', que permita que o bolo do círculo forme um conjunto que olha com ar reprovador para o indelicado ostentador de uma realidade fora do círculo.

se há coisa que ainda não conseguiram condicionar, excepto nos livros de ficção científica, é o livre arbítrio. lamento, mas não conseguiram. não me falem de exemplos, porque eles não existem. os escravos? horrível e lamentável situação, mas podem a qualquer momento pegar numa pedra e esfolar o escravador até ao último grito. os fiéis devotos? não lhes tiraram o livre arbítrio, quando muito abdicaram dele.

sendo o livre arbítrio omnipresente (em qualquer universo, em qualquer casa de botão ou do tabuleiro do monopoly) era interessante que, a pouco e pouco, o círculo desse conjunto se fosse fechando, e cada vez mais indivíduos conseguissem perceber que bem mais importante do que os anos que alguém leva da vida é a vida que leva desses anos (a frase não é minha, é do lincoln, não o carro, mas sim o tipo de barbicha que aparece nas notas de cinco dólares).

ah, e já agora, todo o tempo que se perde a condenar aquilo que supostamente é a loucura ou o desvio, acreditem que era tão mais bem utilizado a aproveitar para olhar para as coisas com olhos de ver, a ver a luz que emana de um livro numa estante ou as vinte cores, e não sete, que o arco-íris tem.

no dia em que morrerem, muito mais importante do que levarem ou não a etiqueta de louco, é terem a certeza de que morrem felizes, parte do conjunto ainda mais infinitamente minesimal dos montes de moléculas que atravessam a terra e a água desta rocha mais-ou-menos esférica, que é a terceira a contar do sol (contagem para quem vem de lá, já agora).

parabéns a 'nocês'

o oranginalidade tem o prazer de comemorar hoje precisamente oito anos. oito anos em que tanto se passou que é engraçado perceber como este blog cresceu comigo.

como forma de comemoração, em jeito de expansão, os posts passarão a ser publicados paralelamente numa página de facebook.

com altos e baixos de intensidade de publicação, mantenho-me fiel à prerrogativa que me levou a começar a escrevê-lo a 11 de janeiro de 2004, trazer-vos, o mais possível, laivos de cor e originalidade ao mundo cinzento e padronizado para onde tantas vezes nos parecemos encaminhar.

a todos!

terça-feira, janeiro 10, 2012

a toupeira-com-asas

um dia sentei-me num precipício cujo fundo era o centro da terra ou ainda mais longe do que isso.

apenas para contemplar o tipo de criaturas que conseguem ir e vir entre as várias camadas da terra, sem ter de comprar bilhete em nenhum comboio ou arranjar asa-delta de aluguer. percebi que o ser mais sortudo de todos era a toupeira-com-asas.

a toupeira-com-asas tem múltiplas qualidades. consegue voar, o que lhe permite correr vales e montes e mais vales e descer por precipícios e voltar com algum prémio guardado entre os dentes. ao mesmo tempo a toupeira-com-asas pode a qualquer momento mergulhar na terra e ir furando caminhos até onde bem lhe apetecer. deve usar isto muito mais para fugir ao trânsito do que para roubar cenouras a agricultores, não sei de onde lhe vem a má fama.

embora a toupeira-com-asas não seja bela, não há bela sem senão. pus-me a pensar quão estranho seria uma toupeira com asas chamada toupeira-com-asas ter a mania de que é tão superior só porque pode a qualquer altura voar ou tornar o meio do planeta uma espécie de queijo suíço. é que eu não consigo fazer nenhuma das duas, pelo menos sem a ajuda de um para-quedas ou de uma picareta, portanto fiquei mesmo no limite de amuar, até já com um dos pés para lá do limite.

depois lembrei-me que a toupeira-com-asas não consegue ver. de que lhe serve voar sobre os mais altos montes ou chegar ao fundo do manto vulcânico se lhe falta a leica mental para guardar essas imagens e pintá-las na memória com guaches de muitas cores? porque a vida é como uma boa peça de fruta... por melhor que seja a aparência da primeira vista, o que importa é o sabor e a textura do que lá vem dentro.

a dança da sedução

a natureza tem caminhos próprios para mostrar ao mundo que sedução não é mais do que a definição universal de algo que chama.

penso em corpos que dançam com a sensualidade das formas cruzadas com luzes de muitos pontos do arco-íris, folgados em suor de movimento e ritmados com a força dos graves, que desperta o mais circadiano que há em cada molécula de um ser vivo. anos e anos de sedução espontânea, visceralmente inventada a partir da tentativa/erro, em tácticas de quem convence uma presa a ser caçada, desconcentrando-se por se concentrar num ponto único e baixando todas as guardas, enroscando-se em vulnerabilidade.

os cantos das sereias. os encantos das serpentes. as vontades. os repentes. tudo isto tem marcas em genes. vai passando de modo silencioso, umas vez apura-se, outras depura-se, mas o importante é que há genes em que ninguém toca e a sedução tem a perserverança do carbono quatorze.

depois paro junto ao jardim do lusco-fusco para perder o olhar em dois esquilos que brincam, e os tons laranja já perdidos em noites sem fim, fazem-me perceber que há sedução em volta. mais do que os dois esquilos vejo centenas de pirilampos, jogando o seu jogo da fluorescência. penso 'é só o fósforo a querer mostrar que é um elemento espectacular e não apenas um pauzinho, fechado numa caixa, para acender fogões ou lareiras'.

mas não, decido que é muito mais do que isso. a natureza mostra-me que a sedução sempre lá esteve. esta luz chama-me e faz-me parar, com o mesmo poder de duas mãos que me envolvam e me façam sentir que estou periclitantemente a tropeçar para outra dimensão. parece tão diferente, mas é tão igual. por isso sei que as supernovas às vezes também se tocam, e sorriem entre si, como quem rouba um beijo atrás de uma coluna de um sábado à noite.

segunda-feira, janeiro 02, 2012

deuses que te tiram da cama

mesmo um niilista sabe que é bem verdade que há deuses com capacidades poderosas. eu conheço alguns e tenho provas bem mais fortes disso do que se tivesse imagens divinas a aparecer-me numa torrada do pequeno-almoço.

adoro sobretudo algumas espécies particulares de deuses. daqueles que, em vez de andarem a brincar às tempestades, sentados em nuvens de algodão solto, preferem aninhar-se em ombros e braços, e braços e ombros, e por aí fora. esses são deuses muito mais determinados. escalpelizam a pele onde nem tem escalpe, porque querem resguardar-se no prazer de um cheiro próprio, de uma cor torrada, em zonas de fronteira da dor com o prazer.

falando com estes deuses, eles respondem-me quase sempre com um sorriso. aquele sorriso da inocência forjada de um querubim, da malícia benevolente de quem sabe que se o prazer é pecado, então o pecado é sinónimo de luz, porque treva não é de certeza.

vou continuar a visitar os deuses. são deuses com muita força. uma força que até me tira da cama. e saio de lá a poder caminhar sobre a água. ou nadar de costas sobre o vento. perdido em deuses em deusas, e dias trocados em noites como quem troca lábios e lábios de melancólica doçura.