sexta-feira, fevereiro 24, 2012

os estendais estão em vias de extinção .


os estendais prédio fora. quilos de roupa ali lutando para secar. aquilo que para nós é um acto normal para uma peça de roupa pode ser bem traumático. há quem argumente que é como se a roupa estivesse a tomar banho. a roupa responde 'experimentem tomar banho num programa que vos roda e torce durante cinquenta e tal minutos e depois falamos'. um feitiozinho, a roupa, às vezes, pffff.

feitios de peça de roupa à parte (tenho de passar a beber leite ao pequeno-almoço em vez de absinto), a verdade é que, no passado, a compensação por passar todo esse tempo dentro de um cilindro de alta rotação era de seguida serem alegremente penduradas num estendal, sustentadas por duas ou mais molas, e ali ficar, de largo sorriso na... gola, vá, a apreciar o sol, a ver quem passa ou a espiar a vida dos vizinhos do prédio em frente. para quem vinha de fora era toda uma imagem de marca de um país - 'roupa pendurada em janelas'. nunca pensei muito sobre isso, dada a naturalidade que isso constituía no quotidiano de um português, até ser chamado à atenção por quem vinha de fora e se encantava com este acto tão nosso de 'embelezar' fachadas e traseiras com roupa para enxugar. (tão nosso é extensível ao sul da europa, já que nápoles ou outras também são rainhas na arte do estendal)

depois tudo mudou. apareceram as máquinas de secar e o avanço civilizacional ditou que os estendais fossem desaparecendo. e até que as leis estabelecessem que era proibido pendurar roupa na fachada dos prédios, por motivos estéticos. foram-se os pingos de água que nos acertavam teimosamente na cabeça quando caminhávamos debaixo de janelas. as molas recolheram à base e acabaram a ser usadas para fechar pacotes de queijo ralado, açúcar ou farinha.

imagino que algures, perdido entre dimensões que ninguém sabe sequer muito bem dimensionar, exista uma espécie de jardim zoológico das coisas que se foram perdendo. de certeza que têm lá uma jaula para os estendais, com uma tabuleta a dizer "em vias de extinção". acreditem que sim, fica ali como quem vai para o pavilhão dos telefones de discar e vira à direita junto ao zx-spectrum.

terça-feira, fevereiro 21, 2012

aprende-se muito a olhar para uma aranha enquanto desenha a sua teia .



o tempo é uma coisa com que adoramos brincar e da qual adoramos falar. desta vez não estou a falar daquele da meteorologia, que esse hoje está demasiado chuvoso, amuei com ele e foi para a caixa dos tabus até se pôr na ordem.

falo do outro, aquele que passa, ou que fica, que move ponteiros de relógio sempre numa direcção, desde que a pilha ou a corda ajudem. a dimensão que damos ao tempo, quase sempre para dizer que o temos em pouca quantidade, fez-me pensar que o tempo depende muito do uso que se lhe dá. se o lamarck tem perdido (ou será ganho?) tempo a pensar nisto, podia ter dado um belo filósofo em vez de passar só por biólogo estudioso da evolução das espécies.

o ser humano é capaz de gastar horas a olhar para um quadrado junto à parede, que emite fotões, reconhecidos sob a forma de várias cores, e sons, sob a forma de várias notas, onde nada do que lá se passa acrescenta um pinchavelho ao mundo. nem ao de quem olha, nem ao de quem no mundo vive. pura distracção, defendem alguns. puro descanso, defendem outros.

da última vez que me lembro de ter pensado sobre isso, descanso ou distracção não rimavam com estupidificação. bom, distracção até rimava, mas fazem para aí tantos acordos ortográficos que com boa vontade consegue dar-se um jeitinho a isso.

e o tempo é mesmo aquilo que fazemos dele. como decidimos aproveitá-lo. aprende-se tanto a olhar para uma aranha enquanto desenha a sua teia. mas provavelmente quase toda a gente acha isso estúpido. o que a aranha se deve rir de tal sobranceria.

no fundo, acho que brincamos com o tempo como se tivessemos de origem, para lhe aplicar, a máquina do senhor do 'querida ampliei os míudos', mas acabando por cair na tentação de polvilhar muito mais o tempo com a do filme original dessa série em que o trapalhão cientista os encolhia.

domingo, fevereiro 19, 2012

uma questão de arquitectura .




num dos meus episódios favoritos do seinfeld o jerry é confrontado pelo pai do míudo-bolha, um jovem com um problema imunitário que tem de viver dentro de uma bolha, longe de qualquer tipo possível de micróbio. no dia seguinte era o aniversário deste jovem e o seu principal ídolo era o jerry, por isso o pai pede encarecidamente que o artista lhe faça uma visita, para o fazer feliz. a custo ele acaba por aceitar, conduzindo atrás do carro do george costanza para ir até casa do bubble-boy. nisto perde-se do george e não dá com a casa. já o george consegue lá chegar e para fazer tempo, enquanto jerry não chega, acaba por jogar trivial pursuit com o bubble-boy (que revelou uma personalidade bem diferente do que seria de esperar) e um erro de impressão num dos cartões gera acesa discussão entre os dois (eu ponho o link da cena em baixo, para vos fazer felizes).

toda esta longa introdução para dizer que na vida, como nos cartões de trivial pursuit, pequenos erros podem gerar grandes discussões ou mal-entendidos. quando a convicção choca com a evidência os danos colaterais são quase uma inevitabilidade. no caso do trivial é completamente diferente se o erro de impressão vem no princípio do jogo ou na pergunta que dá o sexto queijinho. no caso da vida também.

quando esquadrinhamos o que somos, organizamos a nossa vida como uma cidade. as avenidas principais, embelezadas, decoradas, arboreadas e espampanantes, vivem em regime de comensalismo (quase sempre) com as vielas e travessas escondidas, onde os segredos e os desejos propositada ou não-propositadamente abafados se revelam, se desenrolam, se escondem e aparecem.

os erros de cálculo no desenho da nossa cidade causam caos de diferentes magnitudes conforme sejam feitos sobre a avenida de seis faixas ou sobre as vielas escuras e sinistras (uma ou outra destra). qual deles o mais importante? digam-me vocês, porque cada um decide onde mora o seu sexto queijinho.

Link para o vídeo da cena: http://youtu.be/_SULQSL4Cd0?hd=1

não é mania de ser do contra, eu gosto é de sardinhas .

a minha opinião sobre o dia de são valentim é mundialmente conhecida. bem, mundialmente talvez não, mas há milhões de pessoas que a sabem de cor. o quê? não posso dizer milhões? pronto, a verdade é que além de mim sabe a minha opinião um vizinho da prima de uma amiga minha, que uma vez ficou trancado comigo no elevador e me ouviu a falar disso.

não me chateiam as manifestações do amor. eu sou muito favorável ao amor, à expressão do amor e até à impressão do amor. o amor é para ser vivido, dado e recebido. o que me deixa a pulga atrás da orelha (de tal modo que já vou para aí na terceira bisnaga de fenistil) é que a convenção tome conta da espontaneidade, e toda a maralha embarque no dia-dos-namorados-porque-sim. vamos lá ver uma coisa, o que é que 14 de fevereiro tem de tão especial que justifique um menu de restaurante diferente, um chorrilho de peluches, um debaste de flores e uma quasi-crise diabética mundial de tanto chocolate? pois. nada. é um dia como outro qualquer. como diz alguém que me é muito querido, onde se vê a beleza disto tudo é nos outros trezentos e sessenta cinco (ou seis) dias do ano.

não pensem que este meu vudu vertiginoso é só contra o pobre do cupido nesta data. tenho é a mania de enveredar pelo caminho do mal e recusar-me a bater palmas ou gritar o nome do meu clube só porque o speaker do estádio acha que é boa ideia tratar sessenta e cinco mil pessoas como se fossem focas a fazer habilidades. e no fim de tudo isso... nem sequer ganham uma sardinha.

quarta-feira, fevereiro 08, 2012

partir o azar dá sete mil anos de espelhos



o velho lugar-comum de que quem tem sorte ao jogo tem azar ao amor (acredito que a recíproca também se aplique) terá sido inventada quase de certeza por um campeão de poker solitário ou por um don juan que nem em dois números do euromilhões (da altura, eu sei que não havia euromilhões na idade média ou lá quando isto foi inventado) acertava.

a superstição é mais uma dessas bengalas que a humanidade tanto gosta de inventar para passar o tempo. os medos, as ansiedades, os receios e as incertezas, são todos muito mais assustadores a nu. vestidos com a farda do disfarce passam por tradições, por mensagens que passaram de boca-em-boca, por ideias comuns que foram ficando. umas mais fantasiosas que outras, as superstições estão por todo o lado. os maias não deviam encontrar sinal de fatalidade do destino num chapéu de chuva deixado em cima de uma mesa, tal como um habitante de uma cidade moderna não sua e treme ao ver a lua eclipsar-se. talvez o pobre do gato preto sempre tenha tido essa sina, mas isso é conversa que fica para outro dia.

claro que as tais bengalas são tão permanentes que essa mesma humanidade nunca tenta atirá-las para o lado e perguntar-se se consegue caminhar sem ajudas. acredito (e a minha convicção pessoal deve valer mesmo muito menos do que tanta convicção colectiva junta) que o tempo gasto a temer o destino era bem melhor utilizado a sorrir para o arco-íris, a nadar dentro de água até ao pôr-do-sol ou até a passar de boca-em-boca outras coisas que não mensagens de desgraça.

um dia, vamos todos acordar e perceber que o que aconteceu não foi obra da sorte ou do azar, mas sim da eterna desordem, que se continua a rir de quem a tenta fechar explicativamente numa redoma quando nem uma redoma de jeito sabe criar.

quarta-feira, fevereiro 01, 2012

multas a mais em sítios a menos

só multam o que não deve ser multado. só taxam o que não deve ser taxado. não estimulam sequer o que deve ser estimulado.

é um mundo cheio de conceitos trocados. quem terá sido a primeira alma iluminada que achou que a forma de o mundo ser um sítio melhor era rebocar o carro a alguém porque não pôs uma ou duas moedas dentro de uma máquina sem vida? ou de onde terá saído a proposta peregrina para cobrar um extra sobre o preço real das coisas? se o leite custa tanto e levá-lo ao sítio X custa outro tanto, porque é que alguém que não produz leite, não transporta o leite e não entrega o leite ganha direito a viver à custa de todo esse circuito?

depois, claro está, não há gente nem recursos suficientes para controlar o que realmente importa. não vejo quem despedaça corações ser multado como se em cima de uma passadeira tivesse estacionado. não registo funcionários da emel do sentimento com ar carrancudo a rebocar oportunidades a quem não se sabe comportar. e não se paga imposto sobre o desinteresse, sobre personalidades amorfas ou sobre rios poluídos. muito menos dá vinte anos de cadeia ter mau gosto musical.

o mundo dos sonhos deve ter sido inventado com esse propósito. lá cada um define as suas taxas, define quem infringe, define quem é castigado. somos réus, juízes e advogados do nosso próprio circo de feras. quem o criou teve esse bom gosto. podia ter adicionado o bom gosto de o fazer durar mais tempo que o mundo real. pelo menos em certos dias.