quinta-feira, dezembro 22, 2011

há sempre estrelas no céu a dourar o meu caminho

há muitas teorias sobre quem está no céu. mas as estrelas, pontificam lá de certeza.

podem lançar a hipótese de que quando as moléculas se desintegram a "alma", vamos lá, gira em espiral e se vai acomodar no céu. contem de geração em geração que um senhor de barbas lá mora e tudo comanda. imaginem deuses com oito braços, atentos e vigilantes noites fora, sobre o comum dos mortais. façam isso tudo sem se chatearem uns com os outros, de preferência.

eu cá não tenho grandes certezas sobre o que está no parágrafo acima. humildemente falta-me essa capacidade aparentemente tão universal de ter certezas sobre tanta coisa. tenho outra certeza, que me satisfaz plenamente (como era bonito ver isto escrito nos testes da primária... é quase poesia classificar um exame escrito com um advérbio de modo). a de que o céu estrelado me acalma, me preenche, me dá a paz que tantos procuram noutros amuletos ou imagens.

sentir que com a ponta dos meus dedos consigo dar piparotes em buracos negros, fingir que engulo uma supernova ou tão só regozijar-me com pedaços de matéria de ex-futura-vida a entrar atmosfera fora, enquanto nos dão a ideia de que isso dá direito a um desejo. eu peço um desejo a essa estrela cadente. que não deixe morrer as outras. que continuem a brincar às formas. o homem tem de se divertir a imaginar leões, w's, ursas, ursos e coisas que tais no céu da noite.

como eu adoro estrelas. nascidas do caos, nascidas do tudo e nascidas do nada. uma brinca durante o dia e depois repousa durante a noite. tirou o bilhete errado, o sol. anda sempre ao contrário. tem raça de guarda-nocturno. quando desce o pano da sua cena, ele sai. levanta-se o pano de novo e entra toda a sua família. quando esta se cansa de tanto teatro invertem os papéis. e assim continuam, a fingir que são um ciclo ordenado e infalível, rindo-se de quem acredita que isso é verdade.

o caos. ah, o caos!

quarta-feira, dezembro 21, 2011

when you're smiling

já dizia o fantástico louis armstrong que " when you're smiling the whole world smiles with you ".

os meus domingos de manhã ultimamente têm esta melodia a correr-me nas veias. mudei-me para cleveland há quase dois meses. apesar do meu frequente contacto rural e nomadismo, sempre fui um menino da grande cidade, um morador em capitais, um perfeito urbano, viciado nos vícios do urbanismo e feito de sopros que se confundem ao mesmo tempo com rios, castelos, betão, azulejos ou ferro. sempre habituado ao fervor de uma cidade com programação interminável, perguntava-me como iria ser adaptar-me a um mundo totalmente novo e diferente. sobretudo num país que nós, europeus, vemos com tanta desconfiança, por motivos históricos recentes e pela nossa competitividade natural.

cleveland é uma cidade, no geral, vítima de decadência. as únicas excepções são o galopante polo científico e universitário, de qualidade mundial e em crescimento, motivo pelo qual aqui vim parar. praticamente tudo o resto foi vítima de queda. a cidade tinha há quinze anos atrás um milhão e duzentos mil habitantes, tendo hoje em dia pouco mais de quatrocentos mil. foi-se o dinheiro. caiu a indústria. caiu o ferro, o aço, até o le bron james se foi embora e abandonou a equipa dos cavaliers. porque provavelmente há quem não saiba, uma grande parte dos magnatas americanos saiu desta cidade. exemplo crasso j.d.rockfeller, que construiu todo o seu gigantesco império do zero, nascendo e vivendo em cleveland, antes de rumar em força para nova iorque.

a breve explicação da decadência leva-me ao título deste texto. os meus domingos de manhã são passados a andar de bicicleta pelos subúrbios desta minha nova cidade. e a cada dia me maravilho de novo com o arco-íris que cada uma destas pessoas coloca nas nuvens que possam existir. a população nos suburbios é quase a cem por cento de raça negra, o que faz de mim, um claro outsider neste cenário. passo por famílias inteiras, vestidas de modo aprumado, os homens de fatos de cor garrida e as senhoras com vestidos sulistas, todos impecavelmente encaminhando-se para a missa semanal. credos aparte, estas pessoas vão numa perfeita harmonia, alheios à crise, alheios ao desemprego, alheios à desistência da luta. o mais espectacular de tudo é que não há um que dispense acenar-me, dizer-me 'bom dia', mas sobretudo sorrir-me.

re-encontrei nesta terra o valor do sorriso. achava que o natural era vivermos as nossas vidas como sempre a vivi. ir avenida abaixo a pensar em quantos milhares de euros vou gastar em coisas que não me fazem rigorosamente falta nenhuma. se olhar para alguém e sorrir na baixa de lisboa, passo por maluco ou por atrevido. aqui todos se consideram família. as pessoas são genuinamente simpáticas, e o meu filtro, que como tudo na vida pode falhar, faz-me acreditar que são genuinamente boas.

maravilho-me com este paradoxo, na terra onde supostamente imaginamos gente arrogante e sem apreço pelo mundo ou pela vida alheia. a minha nova paixão é essa: trocar sorrisos ao domingo de manhã, como se fosse a coisa mais natural do mundo.



(texto escrito em Junho de 2011)

terça-feira, dezembro 20, 2011

novelos de filosofia

tenho o terrível defeito de nunca deixar as palavras entrar por um ouvido e sair pelo outro, sem as prender para instantâneo ou posterior processamento. defeito, sobretudo, porque o meu armazém mental deve parecer-se com aquelas cidades de construção de electrónica dos chineses, em que noventa e cinco por cento do espaço é ocupado por lixo tóxico, e apenas nuns cinco por cento desta pilha há fábricas de onde saem bonitos aparelhos, que dão novos mundos ao mundo e novos dígitos às contas de silicon valley, shangai e por aí fora.

guardo particular cuidado para processar as palavras mais inesperadas. ninguém nos precisa de dizer "olha, tu lê com atenção esse livro do proust porque é muito interessante" ou "deves tentar interpretar bem o que o garcía marquez queria dizer com isso". para esses estamos preparados. com mais ou menos expectativa, sabemos ao que vamos. partimos vestidos de indiana jones em busca de templos perdidos no meio de infindáveis páginas. ligamos o modo alerta, e qualquer barulho no meio das linhas nos faz olhar de repente e fixar.

já no quotidiano, facilmente desligamos os detectores de informação, para nos deixarmos levar em horas a fio de comportamento zombie, em que rodamos volantes, vestimos casacos, despimos casacos, pegamos em sacos, passamos cartões, ai jesus qual é o código, ai sim o do cartão de crédito é diferente do do de débito, mas meu deus terei ainda eu saldo na conta...

facilmente perdemos pérolas onde elas realmente existem. o conhecimento popular é algo de brutal em termos de filosofia prática. posso perder anos a ler diferentes correntes de pensamento, a discutir de gregos a iluministas, que nenhum deles vai fazer nenhum comentário interessante sobre o orvalho da manhã, sobre como apanhar bem morangos, sobre o toque certo na casca de um abacate para decidir se está bom para apanhar ou não. daí eu não desligar as antenas. muitas vezes durante a minha infância tive a plena convicção de que se pusesse uma toga nos meus avós e nos sentássemos horas à volta deles a ouvir falar do ciclo da terra, das estações, dos conselhos do borda d'água, das melhores e piores colheitas... seríamos um perfeito reflexo das praças de atenas umas centenas de anos antes.

os filósofos, quanto a mim, são aquilo que a etimologia defende, amigos da sabedoria. e não me lembro de ver definido algures que havia um número mínimo de publicações escritas. por isso gosto muito do kant e da luta que teve para tentar casar emoção e razão, mas tenho cá para mim que era menino para chegar à praça e levar para casa ameixas já fora de prazo...

segunda-feira, dezembro 19, 2011

circo de pulgas

sentado num banco, fisicamente parado, mas com a cabeça em turbilhão, observo o mundo a girar à minha volta, perdendo-me nos milhões de histórias possíveis para os milhões de pessoas que vão passando. são muitas as combinações possíveis. tantas, tantas, que até são mais arranjos que combinações (sim, tinha esta pérola de matemática do décimo segundo ano guardada para usar num qualquer texto de futuro).

aquele senhor todo bem posto, engravatado, dá ar de empresário de razoável sucesso, encaminhando-se para mais uma reunião, onde se vai conversar muito e decidir pouco. estabelecer muitas colaborações. criar muitas pontes. desenvolver muitas ideias. homogeneizar pontos de vista. quando sair de lá, perceberá que ficou tudo na mesma. como em noventa e nove vírgula nove por cento das reuniões. por trás da imagem de empresário de pseudo-sucesso imagino os vícios e desvios de personalidade deste alguém...

perante a sociedade cada um mostra a face que consegue construir. sendo mais habilidoso, talvez consiga até mostrar a face que realmente quer mostrar. mas o conflito na parte considerável do iceberg é bem mais vasto do que isso. a repressão das emoções primárias não significa que elas não estejam lá. assim, o fulano engravatado, que vai para a reunião, pode perfeitamente ter o desejo secreto de atropelar pessoas, avenida fora, a um sábado de manhã. ou de se encher de maquilhagem às sextas à noite e ficar em casa sozinho a cantar maria callas.

e sinceramente, a história dos pensamentos viciados e das emoções reprimidas... é tão, mas tão tão tão mais interessante quando comparada com a história do quotidiano chato, repetitivo e desinteressante da maior parte dos bocados de carne com quatro membros e cabeça agarrados. no mínimo curioso, porque o conhecimento dos armários desta gente podia revelar-nos um interesse que de outra forma será totalmente inexistente.

o tipo foi-se embora. em passo acelerado. a reunião vai começar. dou-me ainda ao luxo de imaginar que tropeça à entrada da sala de reunião. que sua que nem um suíno (deve ser por isso que as palavras parecem etimologicamente primas uma da outra, verbo e substantivo) com a ansiedade e molha de cloreto de sódio as mãos dos outros participantes. enquanto lhe vão falando de outsourcing, benchmarking e downsizing, ele vai imaginando no fundo do seu ser que podia pendurar todos aqueles indivíduos por um gancho, de pernas para o ar, e desenhar hieroglifos nas suas peles, com uma faca de cortar presunto. fininho.

sei que a minha imaginação é tendencialmente demasiado fértil. mas no meu circo de pulgas, sou eu que mando na história. e só vai ao espectáculo quem quiser. o bilhete até é de borla.

sexta-feira, dezembro 16, 2011

esfero, vi-te

são pedaços brancos e esféricos de poliestireno. isolados, individualmente, não têm grande uso. quando unidos e compactados perdemos a conta à quantidade de utilizações a que se prestam no dia-a-dia, ou até na noite-a-noite (bolas, nunca ninguém dá o devido valor a esta última).


por esse mesmo motivo, acho o esferovite uma óptima metáfora da sociedade. o pior é que ninguém respeita muito o esferovite. é usado e deitado fora. é quebrado por dá cá aquela palha, quando a palha não serve nem para metade do que o esferovite serve. é destruído em pedaços por crianças cegas por descobrir que presente afinal vem dentro da caixa. sodomizado por donas de casa, que apenas querem ver a brilhante misturadora sair da caixa de cartão.


claro que há esferovites mais felizes. os dos barcos, por exemplo. são uma espécie de banksy dos materiais sintéticos. toda a gente admira o seu trabalho, mas ninguém sabe quem ele é. o esferovite tem um papel fundamental em impedir que os barcos se afundem. sei que provavelmente achavam que isso era responsabilidade de pequenos anões (as redundâncias são sempre mais baratas ao domingo, perdoem-me) que esbracejavam no fundo bem fundo do casco enquanto o barco se movia. lamento desiludir-vos, mas são as tais esferas brancas. no fundo não deixam de ser pequenas. no fundo não deixam de ser anões.


só não sei se esbracejam. tenho de mergulhar um dia e ver. ou perguntar aos peixes, que são gente muito entendida nestas matérias do fundo do mar. quem ouve um peixe falar sobre a extensão da plataforma continental portuguesa pergunta-se se não deviam ter um espaço de antena ao domingo à noite num qualquer canal de televisão.


mas essas coisas não interessam. o mundo, também ele esférico, há-de continuar a seguir o seu rumo, cada vez mais cego à beleza que pode encontrar nas mais pequenas coisas. até num pedaço dessa maravilhosa invenção chamada esferovite.

quinta-feira, dezembro 15, 2011

eclipses

num filme que vi recentemente, gente simples discutia o porquê de se querer ver um eclipse:
" então ontem não veio para a rua ver o eclipse? "
" qual? o da lua? "
" sim, o da lua! foi às 2h30, de madrugada! "
" não, esse não gosto, só o do sol! "
" só o do sol? então porquê? "
" porque o da lua não tem piada nenhuma. há tantas noites em que a lua desaparece. não percebo porquê o fascínio de ver a lua a desaparecer... "


o fascínio com os eclipses deve ser tão antigo como a existência da vida na terra. se é verdade que os da lua são, para além de relativamente frequentes, muito sensaborões, os do sol já têm todo outro sabor especial. basta vermos o desatino caótico em que fica a vida durante um eclipe do sol. os animais, durante um eclipse total, largam os pastos e desatam a correr desenfreadamente na direcção dos seus abrigos, em pânico sem perceber bem como é que o dia acabou tão depressa e sem avisar, como habitualmente faz. até o organismo humano, pelo menos a parte dele que é alheia a essas brincadeiras do racional e do pensamento, reage a um eclipse solar alterando a produção de hormonas, caso estejamos ao ar livre, interpretando o dia como chegando ao fim.


adoro este conceito de micro-jetlag que dura cinco minutos. imagino os planetas em conferência, a decidir como vão girar nos próximos milénios, e algum de repente tem a ideia de que engraçado engraçado era trocar as voltas ao dia, torná-lo noite por uns instantes, e registar com uma máquina fotográfica do tamanho de um marte toda a confusão gerada por esse pequeno micro-desvio ao padrão normal.


decerto podemos arrastar os eclipses para lugares mais profundos do que apenas o céu. imagino como seria um eclipse da água, revoltando-se por nunca ter direito a eclipsar-se. porque é que a água não há de ter direito a desaparecer durante cinco minutos, para se esconder de tudo e de todos? menos fantasioso que o da água, é o eclipse particular dos sentimentos.


a esse assistimos diariamente. olhem à vossa volta, e vão com certeza ver amor tapado por ambição. bondade tapada por avareza. prazer tapado por convenção social. o que mais há são eclipses. e para ver estes nem sequer é preciso comprar daqueles óculos especiais na farmácia...

quarta-feira, dezembro 14, 2011

he and the devil

escrever sobre a morte é consideravelmente mais difícil do que escrever sobre a vida. não que tenha pejo em fazê-lo. já o fiz algumas vezes e continuarei a desafiar a ausência de vida com os mesmos pincéis com que devoro a presença explosiva da mesma.


creio que o ponto mais sensível em relação à morte é tentar perceber o limbo final. entre os crentes, os não-crentes, os anti-crentes e os pseudo-crentes, ninguém se decide se afinal há um túnel, com ou sem luz lá no fim. não há consenso em relação a elevadores com dupla direcção nuvens-centro da terra. não há memória fotográfica de prados verdes com gente vestida de branco (por acaso, não sei porque é que a imagem de céu das pessoas é uma espécie de sensation white gigante... será que o tiesto e o armin van buuren têm lugar garantido no céu à custa dessa brincadeira?). nem tão pouco de grutas profundas, com rios de fogo e seres vestidos de vermelho e preto, com corninhos, caudas pontiagudas e tridentes. se bem que neste último estou mais a imaginar o tom waits e os prodigy em mash-up e a ideia é mais agradável do que milhares com ar celestial a dançar por montes verdes fora e a ouvir o "in and out" mas tocado numa harpa...


gil scott heron era um poço de talento. talvez não reconhecido por todos (gostos não se discutem), mas um daqueles artistas que não precisam de qualquer adereço ou ajuste de equalizador no photoshop das melodias. scott heron era em primeiro lugar um poeta. um excelente poeta. a música era "apenas" o veículo dessa sua forma de expressão. deixo-vos, em palavras do próprio, a perfeita lucidez com que ele imaginava o momento da morte. que chegou para ele, como chega para todos. mas nalguns casos chega mesmo cedo demais...


" Standing in the ruins of another black man's life

Or flying through the valley separating day and night

"I am death!" cried the vulture for the people of the light

Karon brought his raft from the sea that sails on souls

And saw the scavenger departing, taking warm hearts to the cold

He knew the ghetto was a haven for the meanest preacher ever known

In the wilderness of heartbreak and a desert of despair

Evil's clarion of justice shrieks a cry of naked terror

Taking babies from their mamas, leaving grief beyond compare

So if you see the vulture coming, flying circles in your mind

Remember there is no escaping for he will follow close behind

Only promise me a battle, battle for your soul and mine

And mine "


poema retirado do videoclip de "Me and the Devil"

http://youtu.be/OET8SVAGELA?hd=1

terça-feira, dezembro 13, 2011

porque é que as nuvens são feitas de algodão doce?

tentei descobrir porque é que as nuvens são feitas de algodão doce.


mesmo aquelas muito escuras, de certeza que só o são assim porque a senhora da feira deixou o fuso que enrola o açúcar aquecer demais e ficou tudo queimado. apesar de tudo há algum engenho nesta arte, porque máquinas grandes o suficiente para fazer toda esta enormidade não são nada fáceis de esconder. chego a acreditar que há prédios mascarados de prédios só para manter secreta a produção em larga escala de nuvens, doces como os céus em que pontificam.


todas as outras voltas que as nuvens dão, são brinquedos de criança. nada assusta verdadeiramente. o que são flocos de branco, cinza ou azul eléctrico ao pé de tantas outras coisas muito mais impressionantes?


um tornado é um menino, ao pé da força que tem o mar, quando invade a areia sem permissão e lhe impõe a sua força e o seu sal. ou a água que cai deste algodão e é capaz de escavar rochas e fazer de alguns canyons grandes, só porque é essa a sua vontade de escorrer.


para não falar das outras forças, aquelas que nos prendem horas a fio entre lábios brilhantes e olhos propositadamente sombreados. entre sardas perdidas e caracóis soltos. perante essas o céu até desaba, mas no fundo como se lhe desse aquela fraqueza nas pernas de quem tem de falar para uma plateia de milhares de pessoas e não controla a ansiedade.


na verdade é isso. o céu vive alguns dias com um enorme nó, bem apertado, na garganta. as nuvens são gravatas ou laços, que adocicam o seu infinito e disfarçam as revoluções que se passam mais abaixo, nas forças que realmente centrifugam. e centrípetam. alternadamente. sem parar.

domingo, dezembro 11, 2011

saltar ao eixo

quando de vez em quando apanho uma nuvem para andar a brincar aos holofotes por cima de serras, lagos, casas e eslapilos, fico sempre com vontade de dar um pontapé no eixo da terra, só por mera diversão.


sei que posso perfeitamente parar a rotação da terra. ou até bem mais engraçado, pôr a galáxia à volta a rodar à mesma velocidade que a terra gira, e rir-me do desespero alheio ao ver que o dia nunca teria fim para uns e nunca teria princípio para outros. brincar com os astros é quase tão bom como uma sangria de champagne e frutos silvestres, servida num jarro que vem a transpirar de gula, numa qualquer noite de um qualquer dia de verão.


perco-me a imaginar seitas sem fim a anunciar que o mundo agora ia mesmo acabar, que estava escrito nas estrelas. tretas. como é que podem achar que sabem ler os textos das estrelas, quando a tinta que é usada para esses livros já está muitas vezes apagada há centenas de anos? claro que como as palavras são quase tão persistentes como a raiz de um salgueiro, prestam-se a voar através de universos e dias e noites para se mostrarem a quem olha para elas. através de telescópios complexos, no topo de montanhas. ou então apenas de mão dada, deitado na relva, pelo meio de uma tarefa muito mais interessante, que é descobrir no celeste da noite estrelas cadentes e imaginar principezinhos montados nelas.


os profidicuos dos seres humanos, acham que conseguem reduzir tudo a equações. inventar formas de explicar tudo de um modo matemático, organizado, com muitas raízes quadradas, exponenciais e um ou outro integral, mas não daqueles que são fibra nos cereais. pobres coitados, enquanto escrevinham mais um menos na folha quadriculada, um pirilampo voa do lado de fora da janela e ri-se de quem algum dia acreditou que é possível pôr ordem no caos. é que isso sim... seria o fim do mundo...

sexta-feira, dezembro 09, 2011

mercado dos sentimentos

no mercado dos sentimentos, nunca há duas manhãs iguais. não podia ser de outra forma. afinal é um mercado sem compradores ou vendedores, apenas trocadores. desde que foi inventado (na minha cabeça, já só falta registar a patente) tem sido a melhor experiência-piloto de sempre. embora não goste de dar à minha experiência nomes de cães que roubam bouquets de casamento, para que fique claro.

dentro deste mercado ouve-se perguntar:
“ não quer levar um bocadinho de saudade? hoje está aqui que é uma maravilha! saudade tenra como já não se faz ”
“ não, obrigadinho, deixe lá. já levo aqui trezentos e cinquenta de nostalgia. depois são sentimentos a mais para o fim de semana ”
“ então e euforia? se leva nostalgia, porque é que não a salteia e acompanha aqui com esta euforiazinha que está mais fresca do que a manhã?”
“ hmm, e quanto custa?”
“ olhe, só porque é para si faço-lhe a cinco beijos o quilo!”
“ oh, muito obrigado. ponha lá meio quilo então, que dias não são dias”.

e andamos nisto. durante as vinte e seis horas e oitenta três minutos que o dia tem. num passo vamos da banca da raiva em pó ao gratinado de ódio. descendo as escadas (cuidado para não escorregarem, porque alguém desajeitado entornou uma caixa de avareza há coisa de cinco minutos), chegamos à zona favorita de todos, onde o cheiro do amor se envolve com a textura do prazer e a imaculada da bondade joga à apanhada com a fugitiva luxúria.

bolas, esqueci-me da carteira! alguém tem um beijo ou abraço que me empreste?

terça-feira, dezembro 06, 2011

ensaio sobre o mutismo

um clube para o silêncio. a ideia tinha de sair da cabeça do mestre david, não o beckham nem o rei de outras eras, apenas aquele que pega num rolo de película e dá novos mundos ao mundo, desertando do convencional e do terreno palpável e seguro.

dizia ele que o truque do silêncio numa música é não haver banda. tragam a voz, e podemos nós próprios sentir o som de qualquer instrumento. ouvi-lo em surdina, cheirá-lo em tons elevados, devorá-lo em compassos incertos.

será o mesmo com as palavras não cantadas?

como seria um mundo em que ninguém conseguisse falar? não preciso de perguntar o mesmo em relação a um onde ninguém conseguisse ouvir, porque essa é um pouco a história da nossa actualidade. mas, e um mundo do silêncio puro da emissão?

sem esdrúxulas, graves ou agudas. sem ditongos. zero onomatopeias. ausência de ditados. sons deitados para sempre. mutismo completo. seria a escrita suficiente? seria um papel à nossa frente a forma ideal de deitar cá para fora as vontades, ansiedades, liberdades e todas as outras ades?

por mais valor que dê à escrita, a visão não chega. o tacto ajuda, mas o som é uma espécie de reino do butão no mundo das sensações. as palavras podem ser maravilhosas, mas a forma como são ditas tem uma grande quota parte no pormaior que leva ao desarme. é o que faz cair da cadeira. é o que se enrola nos cabelos e os prende para o pescoço na direcção de um beijo que é quase magneticamente garantido na confiança das palavras.

não haver banda pode servir para um excerto do lynch. mas na minha cabeça o som funciona como uma espécie de ave de rapina. paira horas a fio no seu vôo. raramente pára. quando pára é para descer vertiginosamente. por segundos. que parecem por vezes horas. mas são cúmplices com a explosão de palavras ao invés de casados com o mutismo.

segunda-feira, dezembro 05, 2011

a máquina de lavar memórias é da ariston ou da aeg?

pergunto-me não raras vezes se algum dia será inventada uma máquina de lavar onde se possam pôr as memórias.

tenho a certeza que sim. o homem inventa tudo. mas o homem que tem h grande, não levem a mal. só não me apetece usar maiúsculas, porque pagam um imposto muitíssimo mais caro. se até se conseguiu que andássemos no céu sentados numa cadeira a voar, ou arranjar aspiradores que andam sozinhos pela casa a aspirar (embora estes últimos não vão sozinhos ao frigorífico buscar cervejas, o que é uma infelicidade)... é, deve ser apenas uma questão de semanas ou meses até arranjar tal espécime de electrodoméstico.

claro que uma máquina destas tem de ser programada com muito cuidado. porque o programa para lavar memórias boas e memórias más será tão diferente como um escaravelho o é de uma noz caramelizada. ninguém quer andar por aí a misturar memórias na máquina. já imaginaram quão trágico poderia ser debotar más memórias para uma límpida e clara recordação simpática?

por vocês não sei. mas eu cá não quero a saída em falso do ricardo na final do euro a pingar por cima da visão do mont-saint-michel ao longe. muito menos me apetecia ver uma agradável noite de verão sarapintalgada com restos de um dedo entalado numa porta por mero azar.

no entretanto vou acumulando memórias. podem ser boas ou más. mas enquanto não há máquina, vai ter de ir dando para limpar a seco. amaciam-se a elas próprias sem aditivos, e gozam daquele cheiro típico, a passado. que para mim é um cheiro igual aquele que emana das folhas quando a capa e a contra-capa resolvem brincar aos avessos e se tentam tocar pelo lado mais improvável.

domingo, dezembro 04, 2011

sopa de letras

" hear the meaning within the word. "

aprendemos a ouvir, a olhar e a andar antes de aprender a falar. passamos por aquela fase de tamanha curiosidade em que olhamos para tudo como quem se maravilha com algo que vê pela primeira vez. o que é verdade. de repente aprendemos a falar, começando por balbuciar e finalmente juntando palavras para começar a nossa busca do sentido da vida.

a meta essencial dessa fase está, quanto a mim, no dia em que aprendemos a ler. não sei como há quem não goste de ler. compreendo, respeito, mas não me entra na cabeça. a capacidade de ler as palavras dos outros (ou até de reflectir sobre o que nós próprios escrevemos) é o que nos dá a independência como ser humano único e diferente. e não ficamos nunca sequer dependentes das palavras alheias, é um erro pensar que sim. a nossa linha, a nossa filosofia, a nossa política, a nossa religião, são uma espécie de sopa, cujos ingredientes nos cabe acrescentar.

caso optemos por renegar à leitura, aí sim caímos na eterna dependência. de ter outros que pensam por nós, que decidem por nós, que pedem apenas para assinar aquela espécie de X naquela linha, e que não nos preocupemos que está tudo tratado.

a nossa sopa deve ter muito mais do que isso. devemos saber que ingredientes odiamos, e para isso temos de os provar, a maior variedade possível. não menos importante, descortinar os nossos favoritos, bem como a dose em que os queremos ver lá. sejam exóticos, eróticos, hipnóticos ou anedóticos, são os nossos ingredientes e quem melhor para os seleccionar?

e nunca jamais comam sopa só porque é hora da refeição. as coisas são para saborear. tal como já dizia o jovem da frase lá de cima, que nasceu em stratford-upon-avon, onde de certeza lhe deram muita sopa...

sábado, dezembro 03, 2011

fronteiras

há poucos momentos de maior perfeição no desprendimento corporal do que aquele momento preciso de lusco-fusco pessoal em que estamos prestes a adormecer.

naquela fronteira entre o estar cá e o estar lá, temos muito poucas certezas. sentimos que o corpo se torna mais leve, os sons mais difusos, as sensações mais indistintas. passamos tantas vezes por aquele repelão, uma espécie de queda em que acordamos de novo de repente para perceber que afinal está tudo bem. chego a acreditar que esse momento acontece por uma espécie de destino errado. acordamos para corrigir a rota e contornar as baixas pressões turbulentas, da melhor forma que conseguirmos.

depois seguimos noite fora. sonhamos a cores, a preto e branco, em tons de sépia, em português, inglês ou noutra língua qualquer. alguns de nós até se levantam ou falam alto, tal é a intensidade com que conseguem viver a sua vida paralela nesta doce dimensão do sonho.

mas o que para mim melhor caracteriza o momento em que largamos a certeza dos lençóis e enfrentamos de frente o sonho (eu e a redundância somos quase melhores amigos) é uma espécie de salto no precipício, uma entrada num abismo para o qual olhamos com o interesse de quem quer ver, mais do que olhar.

e vamos com pressa. sem paragens para beber um café ou para ir à casa de banho...

o que se percebe. estamos a fazer o check-in para entrar no mundo dos sonhos. queremos chegar rápido para ter lugar à janela.

sexta-feira, dezembro 02, 2011

o mundo tem o passo curioso de um gigante anão

o mundo tem uma capacidade de mudar igual à do céu, que acorda azul, se torna cinzento eléctrico, e depois desaba, para acabar em tons laranja frio-quente e finalmente se esconder de preto ao longe e ao perto.

depois de esborratar paredes de cavernas com sangue de animais, aquele pedaço de massa encefálica guardado por meia dúzia de ossos que assenta em cima da coluna cervical, descobriu não só formas de aquecer as patas dos animais para se refastelar, mas também a maravilhosa arte da escrita.

seja papiro, papel ou parede, pouco importa, porque essa arte permitiu abandonar a solidão mental e partilhá-la com quem quer, e com quem não quer, ouvi-la com os olhos.

nada há de mais perfeito do que a carta. a carta leva o cheiro das pessoas. a carta leva os nervos naquela perna do a, a paixão na força com que damos ar de final ao ponto, o desespero com que o 'teu' sai tremido da ponta da tinta, permanente, da china, à-prova-de-água ou à prova de tudo, pouco importa. vai num envelope tosco, sujeito à tortura de milhares de carimbos, tratada como um escravo dos tempos antigos, mas tem por patrão final o seu destinatário certo.

perderam-se as cartas, eu sei. somos mestres do disfarce. nestas teclas pretas até pode cair whiskey ou perfume, que o mundo nunca saberá. o backspace é um fugitivo do amarfanhar a folha e voltar a escrever. as palavras podem ser sempre re-feitas e podemos brincar com elas de formas diferentes. tão mais fácil usar o sinal de menor e um três do que desenhar um coração perfeito no papel. é que nem todos nascemos com os dotes de desenho do leonardo, aviso-vos já.

adoro cartas. não adoro que se tenham perdido as cartas. mas mais importante do que a forma, é o conteúdo. enquanto as minhas palavras puderem atravessar oceanos e prender-se nos lábios e nos cabelos certos, pouco me importa que quem as leve seja a fedex, o cabo que está no fundo do atlântico ou um pombo-correio.

quinta-feira, dezembro 01, 2011

mórbido é uma palavra como outra qualquer

nunca percebi porque é que as pessoas detestam cemitérios.

eu adoro cemitérios.

um cemitério tem tudo aquilo que nos permite pensar sobre a vida. tem a morte como pseudo-motivo de existência. mas para mim isso é combustão para pensar na vida. cada campa, cada gaveta, cada bloco de pedra, conta uma história. no mínimo. porque na grande maioria dos casos conta milhares delas. a homenagem que lá fica escrita raramente o traduz. paralelipipedos de mármore com 'destes que tanto te amam' cunhado com escopo não dizem muito sobre a pessoa. é. só isso é que não gosto nos cemitérios. que os que ficam vivos despersonalizem aqueles cujos (meros) ossos ali são deixados. seria tão mais lindo porem "para o antónio, que comia sempre mais um prato de caracóis do que os outros todos" ou "para a luísa, que era a última a sair da água, nos dias quentes de verão, combatendo com o sol para ver quem se conseguia esconder da água mais tarde".

além do mais são sítios bonitos. desenhados para transmitir calma. com árvores e pedras e relvados. aprende-se mais sobre uma localidade no cemitério do que em muitos dos outros lugares. pelos apelidos. pelos anos em que morreu mais gente. pela arquitectura de cada campa. quase pela forma como o saibro foi aplicado e para que lado tende mais a acumular-se. curioso, num cemitério até se aprende de que lado o vento sopra.

não tenho intenção de ir para um. mas os cemitérios são sítios lindos. se tivesse que escolher um sítio desenhado pelo homem que mais se aproxima de um livro escrito, é um cemitério sem dúvida.

vou-me retirar antes que me acusem de necrofilia. se entendem por necrofilia ter o prazer de viver tão intensamente que olhar a morte de cima e conversar com as pedras que a querem representar é algo de perfeitamente natural, então sim... sou capaz de encaixar no perfil. mas naquele aterro de almas, o fenómeno da vida dá-se a todo o instante, os átomos separam-se, as ligações quebram-se, para outras se formarem, para nova criação, quase como se de pequenos vulcões de pedra estivéssemos a falar...

quarta-feira, novembro 30, 2011

caro céu

caro céu,

percebo que por vezes fiques um pouco revoltado com esta mania do ser humano de tentar explorar os teus limites. toda essa raiva que descarregas quando sentes que algo não corre da forma que pensaste, é compreensível. no entanto, tens de saber relativizar as coisas...

tu és infinito. com tanto espaço que tens, para quê andar a embirrar apenas porque meia dúzia (para ti são menos do que micro-formigas) de conjuntos de lata te atravessam todos os dias, cheios de pessoas que vão à procura de sonhos, vão de volta à família, vão fingir que são de um planeta diferente no seu próprio planeta ou vão apenas em trabalho para levar todos estes? mesmo os satélites e foguetões, são menos incómodos para o teu todo do que aquele bocadinho de pó que entra para o olho com o vento e ali fica a irritar horas a fio.

nunca te vi ficar tão irascível com cometas ou cometas-like. e esses atravessam-te com violência e sem pedir autorização. serás tu, céu, não mais que um míudo mimado e sem coragem de enfrentar esses monstros debaixo da tua cama? e que cama é essa, céu? não consigo imaginar que transportadora se dignaria a entregar algo tão grande num sítio tão infinitamente distante. acredito que o teu código postal são vários códigos postais ao quadrado, não sei mesmo se ao cubo.

eu também me irritava se andassem por aí a dizer que um homem de barbas com um tridente vivia em mim, mas o que podemos nós fazer em relação a isso? ou pegas num raio e dás cabo desse faux pas global ou tens de aprender a viver com isso. sim, eu sei que já vives com isso desde os tempos das cavernas, mas também não precisas de ser sempre tão impaciente!

acalma-te céu. nós queremos-te é aí. sim, aí precisamente! para poder continuar aqui deitado na relva, a contemplar-te na sintonia do doce sabor do dia com os mil significados que essas nuvens que sopras podem ter, na minha cabeça e na cabeça de todos aqueles que contemplas aí do alto. e preso num beijo, mesmo de olhos fechados, sinto o calor do teu azul avermelhado, da tua transformação da noite, nesse paradoxo constante em que brincas durante trezentos e sessenta e cinco dias por ano, onde há muito mais do que trezentos e sessenta e cinco anos por dia.

teu.

terça-feira, novembro 29, 2011

porque nostalgia não é só o nome de uma rádio

quem seja honesto não pode dizer que se lembra muito bem dos cerca de nove meses que passou dentro de uma barriga, refastelado no conforto do quentinho e amortecido de todos os males do mundo, mas ao mesmo tempo alheio a todas as maravilhas que ele tem para oferecer. passado esse tempo, levamos todos uma espécie de cartão vermelho, com direito a expulsão. mas expulsão das boas, porque em vez de ir tomar banho mais cedo para o balneário, saímos para a terra dos arco-íris, pores-do-sol e florestas de sequóias gigantes.

não faz mal não nos lembrarmos desses nove meses, porque a vida se encarrega de nos fazer sentir repetidamente a mesma sensação. o que eram úteros passam a ser grupos, o que era líquido amniótico passam a ser amigos e aqueles vasos que nos traziam nutrientes passam no fundo a ser a intensidade da vida que vivemos.

ontem, hoje e amanhã, acabamos por criar um determinado grupo, com o qual nos identificamos, criamos laços fortes, temos uma rede forte, quase sem buracos à vista, e a vida logo se encarrega de nos fazer ter de mudar de rumo, mudar de sítio, e recomeçar tudo de novo. mais uma vez perdemos o conforto, o amortecimento, a tranquilidade do conhecido.

a cada novo parto, damos um salto no desconhecido, para dentro daquele poço negro cujo destino é uma incógnita. sendo português, tenho a habitual nostalgia que nos está tatuada nos genes.

passo estas últimas horas nos sítios que me viram crescer. olho para a árvore do jardim que trepei com cinco anos, para o pátio da minha escola primária, para os ferros do gradeamento da preparatória e da secundária e para a estátua do sousa martins em frente à faculdade. finto as árvores e esplanadas de picoas, as janelas em andares altos que me dão sempre lisboa a ver, a feira do livro onde já fui tão feliz parece dizer-me um adeus e a minha varanda em santa apolónia fica meio amuada com a partida.

o bom disto tudo é que, apesar de estarmos sempre a nascer de novo, não nos apagam a memória a cada novo parto. por isso ficam muito fortes as pessoas que nos unem, são o nosso suporte constante, e qualquer que seja a rede construída, são esses que funcionam como pilares inegáveis da nossa personalidade única e inclonável.

se ser português é ser nostálgico e escrever todas estas "potencialmente-interpretáveis-como" lamechices, também é ao mesmo tempo saber que os mesmos genes estão tatuados com a vontade de embarcar nestas caravelas de agora, com duas asas e uma cauda, e tentar provar por esse mundo fora que nós somos muito mais do que aquele sítio simpático onde os peixes se comem envoltos em sal e as mulheres usam muitas saias.

por isso, parto. mais um. mais uma vez. não troco dias por noites, nem europas por américas. quero tudo. ao mesmo tempo. parafraseando as palavras ditas pela voz da fergie, o que não pensei jamais vir a fazer, em relação a viver a vida do modo mais intenso possível, apenas tenho a dizer que "i'm addicted, and i just can't get enough".

até já!

(texto escrito na véspera da viagem transatlântica)

segunda-feira, novembro 28, 2011

definição do amor

CHORAR EM PÚBLICO

Miguel Esteves Cardoso – 28-11-2011

" Quando sair este jornal, a Maria João e eu estaremos a caminho do IPO de Lisboa, à porta do qual compraremos o PÚBLICO de hoje. Hoje ela será internada e hoje à noite, desde o mês de Setembro do ano passado, será a primeira vez que dormiremos sem ser jun...tos.
...
O meu plano é que, quando me expulsarem do IPO, ela se lembre de ir ler o PÚBLICO... e leia esta crónica a dizer que já estou cheio de saudades dela. É a melhor maneira que tenho de estar perto dela, quando não me deixam estar. Mesmo ficando num hotel a 30 passos dela, dói-me de muito mais longe.
...
O IPO consegue ser uma segunda casa. Nenhum outro hospital consegue ser isso. Podem ser hospitais muito bons. Mas não são como uma casa. O IPO é. Há uma alegria, um humor, uma dedicação e uma solidariedade, bem-educada e generosa, que não poderiam ser mais diferentes da nossa atitude e maneira de ser - resignada, fatalista e piegas - que são o default institucional da nacionalidade portuguesa. É graxa? Para que tratem bem a Maria João? Talvez seja. Mas é merecida. Até porque toda a gente que os três IPO de Portugal tratam é tratada como se tivesse direito a todas as regalias. Há muitos elogios que, não obstante serem feitos para nos beneficiarem, não deixam de ser absolutamente justos e justificados.

Este é um deles. Eu estou aqui ao pé de ti. Como tu estás ao pé de mim. Chorar em público é como pedir que nada de mau nos aconteça. É uma sorte. É o contrário do luto. Volta para mim. "

diamantes perdidos nos himalaias

perdido no meio de uma montanha daquelas que estão nas mais altas montanhas que o mundo conhece, encontrei um monge budista e resolvi perguntar-lhe algo que sempre me tinha suscitado curiosidade "o que é que o budismo tem a dizer sobre tatuagens".

durante tempo e tempo a fio, que com um monge budista parece sempre tempo a menos, explicou-me que duas correntes completamente opostas existem sobre a matéria. os 'contra' defendem que tatuar o corpo é criar uma marca definitiva, indo totalmente contra o princípio de desprendimento material, extensível ao próprio corpo. os 'pro' contrariam, dizendo que tatuar o corpo é a prova mais fantástica e evidente de desprendimento físico e que a prática deve ser incentivada.

como eles são budistas, falam sobre isto horas e não acabam fulos de raiva. discutem com argumentos nos olhos e nas línguas e não com duas pedras na mão.

de facto concordo mais com uma das correntes. tal como li recentemente escrito pelo josé luís peixoto, são pobres de espírito aqueles que acham que fazer uma tatuagem é mau porque fica para sempre, porque é uma coisa que não se pode mudar. podem não querer fazer uma, e isso merece o respeito de todo e qualquer fervoroso adepto do livre arbítrio, como eu sou. mas desenganem-se se acham que pigmentos de tinta na derme são mais definitivos do que o dia em que morreu o nosso pai ou a nossa mãe, do que o nascimento do filho tão desejado, do que o fim daquele curso, do que aquele emprego pelo qual lutámos a ferro e fogo e um pouco mais de ferro, ou todas as outras situações que nos formatam como seres vivos e não-vivos.

a vida são marcas. não importa de quê ou como. uma linha desenhada no ombro marca-me do mesmo modo que o cheiro do risotto de frutos do mar em portofino num final de uma tarde de verão. se trouxerem o chardonnay fresquinho, até o bebo nas duas ocasiões com idêntico prazer.

não somos mais do que um molde, e se fugirmos a todo e qualquer tipo de marca, vamos embora tão puros e tão não-trabalhados, que nunca teremos sequer descoberto se, por baixo daquela pedra tosca e romba, havia um diamante à espera de ser delapidado.

domingo, novembro 27, 2011

não são só quatro rodas e uns eixos

em virtude da minha migração próxima, soube hoje que o meu carro também vai migrar à sua maneira, com a minha partida.

deve ser muito mais bonito fazer-se um texto sobre carros quando se anda a conduzir um aston martin ou um lexus, mas cada um é para o que nasce e eu e o meu carro estamos assim um para o outro.

quem diz que os objectos não têm sentimentos não percebe nada disto. a fuga ao materialismo puro deve, com toda a certeza, afastar-nos de sobrepor os objectos às manifestações mais profundas da emocionalidade, mas há objectos que ganham um lugar tão especial no nosso eixo coração-mente-história. é impossível não associá-los ao nosso crescimento pessoal, às alegrias da vida, aos dias difíceis, ao lugar especial, ao lugar terrível, à chuva que inundou o para-brisas e ao sol que aqueceu o couro do volante e o fez ter aquele cheiro de pos-pôr-do-sol, que puxa apenas a condução lenta até ao quarto, por entre as pestanas cheias de sal, para um banho rápido e um encaminhar para a noite.

tal como aquele urso de peluche que nos viu chorar baba e ranho ao mesmo tempo que nos viu dar pulos de alegria com o raio do jogo d'a ratoeira no dia de natal, o carro atravessa uma fase fundamental da vida.

naquele volante não estão só os botões para mudar de estação ou aquele que faz barulho e tem um nome parecido com gambuzino. está o suor do dia de maior ansiedade. estão as lágrimas dos dias de fim de ciclo. está o quente do caminho para casa após aquele beijo. está a garra de querer fingir ser um jovem piloto de um qualquer campeonato de uma qualquer categoria, para acabar a fazer um pião parvo e pouco digno.

o pedal também não é decerto só ferro e borracha. foi pontapeado no meio da fúria. foi acariciado quando o caminho se queria mais lento para que nunca mais acabasse. foi pressionado até mais não quando a morte pareceu aparecer de repente numa beira-de-ravina, ao saltar uma cabra para o meio da estrada.

o meu carro não é só um carro. não só lá vivi, como lá morei e como lá está parte de mim, e do que eu sou. fui lá não-condutor, segundo condutor e por último condutor principal. ele também foi um privilegiado, porque calcorreou uma europa de uma ponta à outra, mas foi sempre um fiel soldado, nunca desistindo, mesmo quando maltratado.

sei que ele pode partir, mas tudo parte, até nós, porque nunca paramos no momento. reserve o futuro o que reservar, voltarei sempre com facilidade a um qualquer fim de tarde perdido nos pirinéus em que podia desligar o rádio, para ouvir o prazer de um carro em comunhão com a natureza...

sábado, novembro 26, 2011

a espuma das noites

tenho um dicionário próprio a partir das três da manhã.

acho que isso é a prova exacta e científica de que o mundo muda a essa hora. os brilhos têm uma tangente diferente. os copos ganham uma espécie de fluorescência própria. os corpos ganham uma tendência flirtantemente diabólica. a lua faz de conta que é o sol e o sol nem esgrime a tentativa de parecer que é a lua.

fecham-se portas no momento em que se acendem luzes. os vidros partidos são espalhados por ruas, tapetes e entradas, como ânsia de homenagem ao desequilíbrio natural da falta de luz.

as palavras do meu dicionário não são só diferentes nas letras que as unem. têm cores, que durante o dia andam muito mais fugidas. há letras amarelas, azuis, verdes, encarnadas, fuchsinzento, pratadeado ou amarelilás. as que existem, as que não existem e as que estão à espera de passar a existir. porque este dicionário é escrito a cada momento, numa espécie de acordo inteligentográfico feito entre as páginas do próprio dicionário, numa noite como outra qualquer, à beira-rio, antes de os raios de sol começarem a reflectir nos vinis de outras horas.

vou só ali escrever mais duas ou três páginas e aceito ajudas. até já.

sexta-feira, novembro 25, 2011

seguir os sonhos é no fundo terrivelmente idiossincrático

nunca acreditei em sonhos.

pelo menos não no sentido vulgar que lhes costumam dar. voltei a pensar nisto nos últimos dias, porque me lembraram do livro de interpretação que o freud escreveu sobre os sonhos, com o qual me deleitei ainda jovem (sim, na altura em que não tinha contracturas do trapézio como esta que me atormenta agora). e também voltei a pensar nisso por algumas outras coisas. que têm quase tanta importância para o assunto como o ponto de rebuçado tem para o caramelo.

o sonho não o é. acredito em convicções. acredito em vontades. os sonhos não são mais do que a coragem de realizar essas vontades, de pôr no papel da vida as ideias que fervilham, ali entre uma circunvolução e outra, repousando calmamente em pescoços acéfalos.

quando nos deitamos à noite. melhor, quando adormecemos à noite, desligamos o nosso censor, e os nossos atrevimentos ganham cor, ganham luz e são vendidos no mercado das emoções como sonhos. mas é só um nome bonito para as coisas. inventado apenas pelo homem que inventava palavras, para ter comida na mesa e roupa para os filhos.

os sonhos não são mesmo sonhos. são futuros concretos. que podemos seguir ou não. depende apenas de cada um.

creio que a melhor forma de alguém se encontrar é perdendo-se

detesto a calma.

acho que já bati nesta tecla. mas eu adoro bater em teclas. sejam de macs ou de steinways. por isso não me escandalizo por voltar a bater-lhe.

no fim de um dia de cansaço e de trabalho infindável, nada me sabe melhor do que recolher ao meu caos. perdido entre livros espalhados no sofá, mesa e chão (só nos últimos cinco minutos já pisei o borges e lixei um dedo no palahniuk), com a discolette a entrar-me nos ouvidos patrocinada por uns phones vermelhos conspirativos, olho para os sons da escuridão e o que cheiro é o tumulto da vida.

sinto que podiam estar milhares de seres vivos em plena harmonia autista neste momento. devorar sons é para mim um hobby (sim, o acordo ortográfico que se) que me permite uma espécie de sincronização de fim do dia.

no fundo, não somos todos mais do que iPhones (com um ou outro blackberry teimoso) e adoramos regressar de vez em quando à nossa dock para voltar a ficar com a barra no verde.

e que bem que sabe ficar com a barra no verde...

quinta-feira, novembro 24, 2011

o açúcar em pó, eu e aquela cena meio redonda chamada mundo

conheci um homem que largava palavras nas folhas como quem espalha açúcar em pó sobre um bolo de cenoura.

a teoria dele é que nunca se polvilha nada com formas muito direitinhas. quem quiser perfeição fica em casa a organizar as meias por cores ou as camisas por tipo de colarinho. quem espalha o açúcar como quem lança notas de cem dólares ao ar, depois de ganhar um jogo de poker em las vegas, vê a vida de uma forma impagável.

penso em todas as estradas que ainda tenho por fazer. imagino artérias cheias de sangue pulsátil, imparável, em que eu navego consumindo tudo o que têm para me dar. desertos, florestas, montanhas, lagos. nem paro para comer. janto serras. janto lagos. de que serve fingir que há funções vitais a manter quando há tanto mundo para conhecer?

a vertigem da velocidade puxa por mais velocidade. quem acelera a sério sabe bem que quanto mais rápido vamos mais confortável é o desconforto da velocidade acima. o mundo de quem o vive devagar é tão diferente de quem o vive a mil. imagino uma estrada vivida com calma, e percebo o que daí pode ser retirado, mas é de certeza um mundo diferente. para mim, só valem centopeias impregnadas de speeds que atravessem um pátio como quem corre os cem metros, obikwelizadas que estão da vida.

por mim, pego no açúcar em pó, atiro-o ao ar e deixo-o cair sobre toda a gente numa alegre metáfora da vida imperfeitamente perfeita.

quarta-feira, novembro 23, 2011

dei por mim a pensar, daquela forma que quase sai fumo pelos ouvidos

gosto muito de ler sobre a crise. de ver muitos programas sobre a crise. de ouvir muitos especialistas a falar sobre a crise. ou aqueles que não são especialistas de coisa nenhuma, mas que falam da crise como se de alguma coisa fossem especialistas. nem de outras coisas o são, muito menos da crise. mas a crise é sem dúvida um óptimo tema para abrir telejornais. dez minutos para os ratings. outros dez para o comportamento dos mercados. ainda sobram dez minutos para falar das reuniões de concertação social, que são o equivalente a juntar um benfiquista e um sportinguista numa tasca em dia de derby - já se sabe que sai de lá tudo com um olho à belenenses, para democratizar o gosto clubístico lisboeta. os últimos dez minutos podem ficar para falar do mourinho, da lesão do tendão do ronaldo e da cor de cabelo do jorge jesus.

facilmente caímos no 'ai jesus' (o da cruz, não o do benfica) da depressão profunda e contínua de quem vai para uma crise sem fim à vista e, no meio desse pânico, apenas nos vamos afundar. as crises existem desde que o homem faz trocas comerciais. não havia era imprensa, que o guttenberg devia estar ocupado a fazer macramé, mas algures no tempo os mercados devem ter dado baixos ratings à Hispania e o preço das tâmaras era incomportável por causa dos conflitos no médio oriente. nunca foi boa solução para sair de areias movediças desatar a tentar fugir à pressa e de modo não pensado.

pensava que o tipo do cabelo branco despenteado tinha dado uma lição ao mundo sobre uma coisa chamada relatividade. a análise dos problemas e a sua dimensão nunca é relativizada.


no japão passou uma onda por cima dos "mercados". e rapidamente mudaram os "fundamentals" da economia e, sobretudo, o conceito de crise...

terça-feira, novembro 22, 2011

os verdes anos do carlos paredes ressoam ecos nas paredes da memória através de polaroids de outros tempos

nostalgia.
uma palavra tão válida, que até dá para dar nomes a rádios. bem, isso talvez não seja critério, porque senão tenho de escrever um texto sobre a validade de coisas como "amadora de alenquer" ou "alma viva", também nomes de rádios.

sou meramente semi-nostálgico. adoro o passado, da mesma forma que venero o presente e endeuso o futuro. acho que tudo tem o seu lugar. o tempo traz uma nova forma de ver as coisas. sinto que há momentos do passado que pareceram tão claramente amargos, mas o tempo encarrega-se de os tornar agri-doces. ou aqueles bem azedos, que deixados a repousar em banho-maria uns quinze/vinte anos parecem abrir em todo o seu esplendor, mimetizando trufas deixadas a apurar debaixo de terra, trazendo consigo lá de longe tudo menos azedume.

dos vários 'eus' que percorremos toda a vida, a infância nunca vai perder o seu canto especial. julgo mesmo que a infância é o esplendor da exploração. achamos que não, que é no pico da capacidade física e mental que exploramos tudo, mas isso é mais aquilo de que nos convencemos, "entretidos" na nossa vida ocupada e de pseudo-gozo. claro que exploramos com mais capacidades. mas, ainda mais claro, exploramos muito menos tempo.

na infância estamos a descobrir barreiras. estamos a testar limites. se tivermos a feliz coincidência de ser amados e de ter tudo o que é preciso para ser feliz, o nosso debate é com o mundo. aprendemos que não é boa ideia pôr a mão dentro de um tijolo das obras quando somos picados por uma vespa. percebemos que descarregar a irritação birrenta numa pedra traz ainda mais birra com a dor que desperta no pé. ouvimos o raspanete de uma vida porque íamos agora mesmo beber meio frasco de xarope da tosse só porque é docinho. e em cima disso ainda nos apresentam, tentando esconder, tudo o resto que temos de descobrir daí em diante. falam-nos de "um sítio melhor" para onde vão os avós naquele dia em que estranhamente não os podemos ir visitar ao fim-de-semana, convencem-nos a acreditar que temos de nos portar bem para que "deus nosso senhor" goste de nós e que só os meninos que comem a sopa é que recebem presentes no natal.

no meio de tudo isto, a nossa infância é uma espécie de role-playing-game mais fabuloso do mundo. de um mundo encantado e que encanta. de um mundo de caos, em que a ordem com que nos querem proteger até à idade mais tardia possível é uma mera armadura para os sentimentos, e o reflexo da ilusão de algo diferente daquilo com que realmente nos vamos debater.

ainda antes de ler exaustivamente o friedrich, já acreditava que "one must still have chaos in oneself to give birth to a dancing star". mas eu não dormia muitas horas. é. é capaz de ser isso.

segunda-feira, novembro 21, 2011

esfiquinhazes pedras de toque

despe o que tens vestido e atira com as guardas dessa auto-estrada à cara daqueles que não acreditam que os girassóis um dia se podem lembrar de girar ao contrário. só porque sim. ninguém obriga ninguém a nada. a morte à definição seria a abertura da caixa de pandora da delícia. estou a imaginar tudo muito bem na sua vidinha e, de repente, vai-se a gravidade que lhes venderam como absoluta e aparece outra gravidade, a da situação. caem que nem uns perdidos no abismo profundo que não é abismo e a queda nunca acaba. no fundo ficaria meio mundo preso na angústia do poço gigante, em que a partir de certa fase é provavelmente mais angustiante achar que não há um fim para queda do que perspectivar a dor da queda.

tropeça nas raízes das folhas, e poupa o tronco. sabes tão bem como eu que dar cabeçadas em postes de electricidade é uma actividade tão digna como apanhar folhas no outono. a menos que uses aquelas pegas extensíveis, sua calona. isso não é objecto de gente. a usar isso que seja para abrir o frigorífico a partir do sofá, tirando de lá garrafas de pseudo-cerveja, que tem escrito no rótulo nomes de terras mas que se infiltra na alma como clicquot reserva.

mais que tudo, sai de casa quando te apetecer atirar pedras ao mar. eu defino o mundo entre as pessoas que atiram pedras ao mar às três da manhã só porque lhes apetece e as que não o fazem. as últimas aumentam substancialmente a sua probabilidade de ver a cabeça aberta pelas pedras que os primeiros atiram. quase como quando vem o tipo que vê o copo meio cheio e bebe de um trago a metade do que chora pelo copo meio vazio.

a vida resume-se a um pôr-do-sol, pode ser aproveitado e sentido como um fenómeno irrepetível, ou estupidamente perdido, estando virado para trás a atar os atacadores dos ténis com medo de não cair da falésia. esses não morrem da queda. mas morrem de tédio.

domingo, novembro 20, 2011

so, take the red pill or the blue pill, your choice

no outro dia parei. para pensar uma vez mais sobre o valor da decisão.
curioso como há quem seja criticado por decidir de modo demasiado racional, outros por decidirem logo com o que lhes vai na alma, e outros ainda por não se assumirem nem como carne nem como peixe.

a decisão é um ponto importante da vida. diria mesmo que é decisivo. provavelmente é o acto humano mais importante, e a história está cheia de momentos que o comprovam. se não é fácil decidir entre o bitoque e o bacalhau espiritual, imagino para o alexandre, mesmo sendo grande, qual a angústia e o conflito interno quando tinha de decidir se continuava a sua marcha vitoriosa, se parava ou até se voltava para trás.

parece mais importante quando falamos de generais. ler na military history sobre termophilas, gettysburg, waterloo ou outras, é igual a ler uma espécie de hino à decisão. mas nas guerras do dia-a-dia, somos nós própios generais das nossas próprias decisões.

quando oiço que alguém se suicidou, confesso que não me prendo tanto com o acto em si. corpos caídos e sangue a sair pela boca são coisas demasiado vistas na televisão para conseguir impressionar. o que me cria sempre grande curiosidade é imaginar o processo interno que levou a tal decisão. em que momento alguém decide pôr fim à vida? e isso é feito com base na reacção de fight-or-flight do momento? ou é uma escolha racional e pensada? ou depende do indivíduo? ou pode ser feito de um modo totalmente contrário ao racional habitual daquele indivíduo, como se, pela primeira vez na vida, resolvesse ter a audácia de fazer algo diferente, mas para um fim questionável.

a decisão envolve a influência de muitos factores. mas pergunto-me realmente qual o peso desses factores consoante o grau de importância que essa decisão possa ter. porque decidir é importante. e pelos vistos às vezes até pode ser fatal.

sábado, novembro 19, 2011

um jantar como outro qualquer

sentei-me com eles antes que tivéssemos sequer tempo de olhar bem à volta. perde-se muito quando não se conhece o terreno. eu gosto de olhar bem, como quem vê, antes de me sentar onde quer que seja. as paredes falam, a decoração susurra dicas e a disposição das pessoas explica a disposição da noite. um jarro com flores pendurado daquela parede explica mais sobre esta sala que mil comentários de críticos no jornal.

o encontro estava marcado há um tempo, mas andámos sempre os três tão ocupados que foi bem difícil arranjar uma data. enquanto o f se tentava decidir entre o robalo grelhado e o joelho de porco, o k conseguiu adormecer sobre si próprio, vítima de uma espécie de narcolepsia do génio. finalmente lá demos o murro na mesa e acordou para pedir a sua massa. integral. parece que estava de dieta.

começámos com o pé esquerdo, com o k a vir com a do costume de que todo o Homem é uma seca, e quem o queira contrariar será uma seca a fazê-lo. depois lá explicou que isto era apenas uma ideia geral, bebeu um trago de vinho branco e fizemos as pazes. não durante muito tempo. o f, ainda picado com a história de sermos todos uma seca, começou a tentar desafiar a lógica de pensamento do k dizendo-lhe que frequentemente dá grandes passeios e que quando olha para um abismo o abismo olha de volta para ele. contrariamente ao que ele esperava, tanto eu como o k concordámos com ele e por isso não se gerou a discussão. no fundo achámos que ele nunca devia ter tocado nos aperitivos, mas isso é outra história.

quando se fala bem entre amigos, nunca parece muito, nunca é demais, nunca cansa. o que cansa é a conversa da treta, de ocasião, e de falta dela. inventar o ininventável dificulta o discurso e faz tropeçar a compreensão. nada disso se passou nas três horas em que ali estivemos. entre a nuvem de fumo e a pouca nitidez do vinho, falou-se de tudo, sem preconceitos e sem cair em paradigmas fáceis.

chegou a conta por fim. o f disse para me lembrar que tenho de ter muito caos em mim mesmo para fazer nascer uma estrela que dance e o k que a nossa vida expressa o resultado dos nossos pensamentos dominantes. com isto paguei a conta, perguntei-lhes se ao menos podiam dividir a gorjeta e sorriram enquanto acenavam que sim.

sexta-feira, novembro 18, 2011

lagos sulfurosos entre substância cinzenta e substância branca

hoje passeei por um cérebro. não me consigo lembrar se estava acordado ou se estava a sonhar. essa informação ficou perdida enquanto me maravilhava com os ramos cuidadosamente podados das árvores que enchiam a terra da substância cinzenta. velhos guardiões trabalhavam os troncos e os caules como quem poda bonsais e as folhas brilhavam como uma espécie de estrela a nascer. daquelas a sério, não das cadentes, que as cadentes duram o mesmo tempo que dura o encanto humano pelas coisas pouco perenes, delirantemente passageiras.

o susto, ao ver largas bolhas explosivas nos lagos sulfurosos entre a substância cinzenta e a substância branca, deu lugar à paixão por mergulhar nesses lagos, e senti-me como um molde quando é banhado num ouro de muitos quilates, talvez demasiados quilates.

o dia dentro de um cérebro nunca termina. é uma espécie de simulação dos seis meses de verão no árctico. quando acabam as actuações do dia, começam as actuações da noite. os malabaristas do dia dão rapidamente lugar aos saltimbancos da noite. há espectáculos de magia por todo o lado, e as redes, que nunca terminam, são usadas para múltiplas exibições. atarefados seres minúsculos, com número ímpar de olhos, vão montando uma espécie de peças de lego e logo as atiram para um infinito finito, como se tudo fizesse parte de um gigante modelo de máquina de guerra do leonardo.

continuei sem saber se estava acordado ou a sonhar. mas ali dentro pouco importa, o sonho abraça a realidade e tropeça toscamente nela como quem força a queda em direcção ao prazer do caos.

domingo, setembro 11, 2011

o mundo como ele é

no dia 10 de setembro de 2001 lembro-me de um momento preciso em que pensei como o mundo era quase perfeito. tinha acabado de sair da água magicamente aquecida do oceano pacífico e estava então sentado entre duas palmeiras, a olhar o horizonte, onde peixes saltavam na água, e a constatar a felicidade que a própria pele sente nestas situações, em que as pedras de sal desenham novos mapas pelo corpo e dão outro sabor ao dia.


poucas horas depois fui visceralmente lembrado de que esse planeta quase perfeito existe, mas existia sobretudo antes da evolução humana. se, por um lado, sem evolução humana, eu não existiria e não teria os meios para chegar ao outro lado do mundo, por outro lado, os milhares e milhares de anos de acumulação de ambição desmedida, egoísmo, fanatismo e todos os ismos que vos possam ocorrer, levam o homem (devia vir com h grande, mas há dias em que não o merece) a cometer os actos diários de terrorismo que comete.


o de 11 de setembro de 2001 tocou-me particularmente. porque atacou a minha cidade do coração. porque destruiu um local no topo do qual tinha estado dois anos antes. porque, sobretudo, arrancou a vida a milhares de inocentes, perdidos na linha da vida por um mero acaso ou apenas inocentes que tentavam ajudar outros inocentes em perigo.


não nos enganemos contudo. o mediatismo deste ataque de seres humanos contra seres humanos é superior. mas os actos de terrorismo são diários. a cada dia que passa contribuímos globalmente para diminuir o número de dias que nos restam. a escalada da falta de solidariedade e da falta de respeito pelo outro tem essa consequência.


há precisamente 2 anos atrás escrevi as seguintes palavras:


" estranho. o destino faz este dia chegar nalguns dos mais belos locais do mundo. há 8 anos (dilacerante o modo como o tempo passa por nós...) estava sentado num banco junto ao fabuloso mar de oahu, e agora estou sentado num banco com gigantescas dunas de areia do deserto mongol aqui mesmo à minha frente. o que mudou em 8 anos? eu mudei muito, o mundo infelizmente mudou pouco. "


infelizmente acho que isto vai ser aplicável substituindo 8 por 80. faz-nos falta conhecer o mundo. ver que as fronteiras estão na nossa cabeça e não no terreno. que o coração humano traz sempre agarrados dois braços, uma cabeça e duas pernas, e que estamos em modo de auto-destruição acelerada se não percebermos que falta amar, respeitar e entender o outro, bebendo das suas diferenças para casar as nossas igualdades.


todos juntos caçámos animais saindo de cavernas. só nos falta fazer o mesmo para caçar um futuro melhor.


sexta-feira, setembro 02, 2011

um jantar como outro qualquer



sentei-me com eles antes que tivéssemos sequer tempo de olhar bem à volta. perde-se muito quando não se conhece o terreno. eu gosto de olhar bem, como quem vê, antes de me sentar onde quer que seja. as paredes falam, a decoração susurra dicas e a disposição das pessoas explica a disposição da noite. um jarro com flores pendurado daquela parede explica mais sobre esta sala que mil comentários de críticos no jornal.


o encontro estava marcado há um tempo, mas andámos sempre os três tão ocupados que foi bem difícil arranjar uma data. enquanto o f se tentava decidir entre o robalo grelhado e o joelho de porco, o k conseguiu adormecer sobre si próprio, vítima de uma espécie de narcolepsia do génio. finalmente lá demos o murro na mesa e acordou para pedir a sua massa. integral. parece que estava de dieta.


começámos com o pé esquerdo, com o k a vir com a do costume de que todo o Homem é uma seca, e quem o queira contrariar será uma seca a fazê-lo. depois lá explicou que isto era apenas uma ideia geral, bebeu um trago de vinho branco e fizemos as pazes. não durante muito tempo. o f, ainda picado com a história de sermos todos uma seca, começou a tentar desafiar a lógica de pensamento do k dizendo-lhe que frequentemente dá grandes passeios e que quando olha para um abismo o abismo olha de volta para ele. contrariamente ao que ele esperava, tanto eu como o k concordámos com ele e por isso não se gerou a discussão. no fundo achámos que ele nunca devia ter tocado nos aperitivos, mas isso é outra história.


quando se fala bem entre amigos, nunca parece muito, nunca é demais, nunca cansa. o que cansa é a conversa da treta, de ocasião, e de falta dela. inventar o ininventável dificulta o discurso e faz tropeçar a compreensão. nada disso se passou nas três horas em que ali estivemos. entre a nuvem de fumo e a pouca nitidez do vinho, falou-se de tudo, sem preconceitos e sem cair em paradigmas fáceis.


chegou a conta por fim. o f disse para me lembrar que tenho de ter muito caos em mim mesmo para fazer nascer uma estrela que dance e o k que a nossa vida expressa o resultado dos nossos pensamentos dominantes. com isto paguei a conta, perguntei-lhes se ao menos podiam dividir a gorjeta e sorriram enquanto acenavam que sim.



quinta-feira, setembro 01, 2011

sei que o tempo pára exactamente naquele momento em que a pestana se imobiliza



há um momento em que tenho a certeza que o tempo pára.


são micro-segundos. o tempo em que olho fixamente para dentro dos teus olhos. seria mais fácil achar que o olhar ficava preso na cor, nos milhões de cristais roubados ao arco-íris, que escondem habilmente os segredos guardados lá dentro na alma. mas não, fica preso no instante em que a pestana superior pára de subir e se imobiliza, antes de descer novamente. é o momento em que tudo cede.


quando a pestana resolve mudar de direcção, todo o mundo se suspende num maravilhoso golpe de rins. o rímel sente a vertigem de quem anda numa montanha-russa e deixa-se ir no doce contorno da descida que vai levar a uns olhos fechados.


o perfume intenso das emoções espalha-se em pequenas borrifadelas. são puffs de paixão, disfarçados com cosméticos ou artifícios, mas que denunciam o criminoso em flagrante delírio. são borboletas-no-estômago-like. são dragões chineses, daqueles a brincar, a encher as ruas de uma cidade diferente, uma cidade sem nome, em que os cidadãos não têm duas pernas ou dois braços, mas sim um corpo diferente, de estrutura complexa e não de fisicalidade simples.


é por isso que sei que o tempo pára nesse momento. quando a tua pestana desce, ouvimos o barulho dos carris debaixo dos nossos pés. o horizonte torna-se repentinamente vertical e desorizontalizado e mergulhamos no vórtex da descida, fazendo muita força para agarrar o corpo à carruagem.


quem vê de fora, acha que temos medo de cair. mas eu sei que a força é para que a viagem nunca tenha fim.


sábado, agosto 13, 2011

a cor da caixa negra

já pensaste que este mundo pode não ser nada do que nos parece que é? e se tudo isto for uma fachada para algo maior ou menor, diferente, com mais cores do que as que temos agora, com mais sons do que aqueles que permitimos que nos encantem e nos levem na melodia da noite?

os precipícios podem ser excelentes locais para pensar desta forma. não te atiras de um precipício porque aprendeste que se te atirares te vais magoar. provavelmente até de uma forma séria. envolvendo morte e coisas dessas, que são uma maçada a certas horas do dia. eu por exemplo não gosto nada de morrer a seguir ao almoço, fico indisposto. mas como podes tu saber? nunca te atiraste de um precipício. quem te diz a ti que o impacto das tuas moléculas no fundo da ravina é igual ao de outro ser qualquer? até te digo que igual não será de certeza, porque as tuas moléculas não são as de outro ser qualquer. porque algum outro morreu com o impacto, porque haverias de ter que morrer tu? tudo é extrapolável sem limite? e se tu conseguires voar? nunca vais descobrir se consegues voar porque nunca te vais atirar em nenhum precipício...

percebo o conforto de acreditar que o mundo é como nos é dito que é. entre outras coisas poupas-te a vários comprimidos de oito em oito horas, que te arrastam quimicamente do mundo como o vês e trazem de volta o mundo como os outros querem que o vejas. não percas essa porta escondida que te leva ao teu mundo. lá há unicórnios, potes de ouro, mais cores e mais sons do que os temos agora. lá provavelmente podes voar e ninguém te impede de saltar em direcção ao desconhecido.

não acredites em tudo o que te vendem. não te esqueças que até a caixa negra do avião é laranja.

sexta-feira, agosto 12, 2011

percursos

todos passam por ti como quem te despreza. vêem o teu aspecto pobre e envelhecido, essa camisa gasta e as botas de quem já teve melhores dias na vida. olham de esguelha para o teu caminhar trôpego sobre a neve. as marcas que deixas na neve, parecem de quem claudica, mas só tu sabes que são marcas de guerra. de guerras, aliás. daquelas a sério, como aparecem nos filmes, e das outras, que se seguem a essas e são ainda piores. para as primeiras ainda fizeram de conta que te preparavam. para as segundas ninguém te deu qualquer conselho, ninguém te leu os planos, não te puseram uma metralhadora às costas, muito menos te mandaram seguir pelo pântano fora. mas tu seguiste, como é óbvio. tinhas um daqueles caminhos curiosos, que não têm trás. no fundo, os caminhos nunca têm trás, só têm frente, mas as pessoas também teimam em achar que há frente, trás e lados em tudo.

quando eu paro e olho para ti, sentado nesse limbo onde o passeio finge que se torna estrada, pergunto-me se olhas os carros que passam, ou se são eles que te olham a ti. imagino que o teu refúgio na contemplação da estrada tem muito a ver com o facto de os carros irem para lá e virem para cá. no fundo um efeito doppler contínuo, como tu gostavas que a tua vida tivesse sido e nunca ninguém deixou.

não reparas que te estou a observar e levantas-te, penosa e vagarosamente. arrastas-te na direcção não sabes bem do quê. deixas-te guiar pela brisa da tarde, pelo crepúsculo do dia, pelo gélido do frio que se adensa com a noite, e lanças-te em mais um caminho que sabes tão bem que nunca terminará porque já está terminado. sentes-te estranhamente leve.

o teu corpo jaz sob uma pele pálida e a ganhar tonalidades arroxeadas. ninguém repara. o vento continua a soprar. a neve cai. a música toca ao longe e tu continuas a caminhar, afastando-te da imagem do teu corpo, com a mesma naturalidade com que todos os dias a levavas contigo no final do dia.

sexta-feira, julho 29, 2011

o paradoxo é uma espécie de combustão da vida

quando quero começar a escrever sobre nova iorque fico sempre com uma dificuldade imensa, porque as palavras misturam-se com os pensamentos, e os dedos comportam-se no teclado como um míudo trapalhão que tenta em vão fazer uma roda de jeito no ginásio.

se calhar é mesmo esse o motivo. o débito de pensamento pode impossibilitar a escrita e o meu turbilhão neste lugar é sempre tão grande, que aponto nessa solução para o problema. deve começar por ser a cidade que não dorme que me identifico tão bem com ela. mas é de certeza muito mais do que isso.

basta pôr um pé no aeroporto para me sentir de consciência em casa. basta ver ao longe a shiny pointy thing do chrysler para o meu coração ficar quente. basta aproximar-me da esquina do balthazar para a minha memória se sobressaltar em noites e noites de comunhão com esta cidade.

depois vou andando pelas ruas. falo com as pedras. falo com as pessoas. falo com as galerias, com as lojas e com os bares. falo sobretudo com carros amarelos que transportam o mundo lá dentro e falo com cortinas de fumo que saltam das profundezas e encaminham o calor que esta cidade tanto tem pelo meio do pretenso frio da época do ano.

nada nesta cidade é regular. tudo parece confuso, mas é tão imperfeitamente perfeito. tropeço em paradoxos a cada esquina, a cada sorriso, a cada gesto!

bolas, inventem uma religião para esta cidade. não sabem como eu agradecia...

domingo, julho 24, 2011

o mapa das sensações

às vezes acho que os sentimentos deviam ser como países.

abríamos à nossa frente o planisfério dos sentimentos e em cima da mesa estaria também a enciclopédia geográfica, pronta a ser consultada. em segundos conseguiríamos descobrir a capital do amor, os montes e vales da saudade, quantos rios correm na melancolia ou qual a história da ansiedade.

tenho interesse sobretudo em descobrir quem faz fronteira com quem. há dias em que tenho quase a certeza de que há conflitos à escala planetária entre alguns deles. lembro-me de um ataque feroz da ansiedade à razão algures no tempo. de um breve momento em que a paixão se armou em alemanha e trucidou a liberdade, como se esta fosse uma espécie de polónia. e ouvia-se wagner em pano de fundo.

se alguém descobrir este mapa, que me dê um toque. é que o 'jogo do risco' jogado constantemente entre os quatro lados do meu mapa era bem mais controlado se eu soubesse por onde ando a movimentar as tropas.

sexta-feira, junho 03, 2011

a prova de que uma entrevista pode ser poesia...

Se fosse a vocês tirava vinte minutos dessas vossas vidas TÃO ocupadas, porque isto é uma lição de vida como se escrevem poucas. Amen.


"Manuel Hermínio Monteiro: a entrevista ao DNA em 2001

O DNA (suplemento do Diário de Notícias) de 12-05-2001 publicou aquela que penso ter sido a última entrevista dada por Manuel Hermínio Monteiro, o editor da Assírio & Alvim, que viria a morrer em Junho desse ano. Foi uma longa entrevista, conduzida por Anabela Mota Ribeiro. Deixo-a aqui:
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MANUEL HERMÍNIO MONTEIRO
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A conversa seguinte aconteceu numa destas tardes de sol. Do sol radioso que encharca de esperança os primeiros dias da Primavera. Manuel Hermínio Monteiro, o mítico editor da Assírio & Alvim, refastelou-se no sofá para desfiar o novelo da sua vida cheia. Como ele diz, logo no começo, a ponta pode ser a que nos aprouver que há-de sempre dar no mesmo.
Decidi começar por um lugar que cruzava as palavras e as memórias, umas e outras em catadupa. Um lugar que é talvez o mais belo recanto do Douro. E por isso de Portugal. E por isso do mundo. Conheço esse sítio há muito porque me fiz, também, em terras transmontanas. O que, como perceberão, tem a sua importância. A marca da terra, espessa, fez-me assim, fê-lo assim.
Esta é a vida de um transmontano, um transmontano de boa cepa. Calha de haver uma flor maligna que lhe traga a carne. Até ver. Como ele dizia, quando pela primeira vez o vi depois de saber, «Estou bem», embrutecendo o tronco, referindo-se à força, à robusteza.
A seguir, que é para isso que servem as introduções, têm a vida deste homem. E dentro dela a vida toda.
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Começamos por onde?
- Sei lá. Como a vida anda às voltas, pode ser por qualquer lado.
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A vida anda às voltas?
- Muitas. A minha é uma vida muito cheia.
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Podemos começar por S. Leonardo de Galafura, o recanto do Douro escolhido por Torga, que, presumo, conheça.
- Conheço. Dizem-me agora que na encosta contrária ainda há outro miradouro mais bonito, S. Salvador.
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O seu lado do Douro é o do Pinhão.
- A minha terra é mais para o interior, perto de Murça. Alijó. Do meu lado vejo Favaios, Sanfins, Vilar de Maçada.
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Nasceu na aldeia, em Parada do Pinhão. Viveu lá até que idade?
- Fiz lá a Primária. Vivi no século passado, posso dizê-lo. Vi chegar a electricidade, a rádio, a televisão.
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Era um outro tempo para o país, e sobretudo para o interior.
- A escola era uma mesa muito grande numa sala; em bancos corridos estavam numa pontinha os meninos da primeira classe e na outra ponta os da quarta, alguns já com 17/18 anos.
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Passavam directamente do campo para a escola?
- Andavam ali a arrastar. Uma vez um contou que a professora lhe tinha dito: «Se fizeres os deveres, vais amanhã dormir comigo». Ele chegou ao pé da mãe e disse: «Ó mãe, dá-me umas cuecas novas que amanhã vou dormir com a professora!» Ainda levou nas orelhas.
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A professora era quem? Uma moça da aldeia?
- Comecei com uma professora que levei até ao fim. Marcou-me muito e ainda hoje a recordo com muita saudade. Vive agora em Cascais, chama-se Lúcia. A minha professora deve ter sido das primeiras do Magistério; as outras tinham a quarta classe. Logo a seguir inaugurámos uma escola nova. Excelente, a escola, com entrada em arco, azulejos à volta, e tal.
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A professora Lúcia acompanhou a sua escolaridade primária. Onde eu queria chegar era à sua primeira relação com as palavras.
- Deve-se muito a ela. Uma relação de encantamento. O que é extraordinário é que andamos sempre à procura. Do Graal, às tantas. Antes de irmos para a escola estamos num estado absolutamente delirante. Eu já sabia os reflexivos, os pronomes, as preposições…
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Como é que já sabia?
- Era uma música. Ouvia os mais velhos e decorava.
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Ouvia-os do recreio?
- A escola era mesmo no meio da aldeia, ouvia cá de fora e depois perguntava aos mais velhos. Quando vamos para a escola, imaginamos que vamos aprender coisas. Uma ansiedade. Como depois temos quando vamos para o Liceu; julgamos que ali é que vai ser a sério. Depois, a Universidade é que vai ser a sério. Para chegar à conclusão que andamos permanentemente à procura de qualquer coisa que não existe. Tal e qual como a felicidade.
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A felicidade não existe?
- Com a idade vamos percebendo que a felicidade é uma aquisição muito delicada, muito trabalhosa. Esgaravatar uma mina, mexer muita terra, muita pedra, e depois, de vez em quando, lá aparece um bocadinho de minério. A felicidade também é assim. São momentos fulgurantes, extraordinários, mas não existe em estado puro. Nada existe nesta vida em estado puro.
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O que é que se pode retirar dessa lida diária?
- Mas é isso, é o trabalho diário, é a busca. E talvez sim, talvez se consiga. A consciência disso leva-nos a valorizar cada vez mais esses momentos, esses pedaços de cintilância. Isto vem a propósito?
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Da aldeia, dos parcos recursos.
- Como é que com pouquíssimos livros… raramente víamos um livro, uma imagem.
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Não tinham livros em casa?
- Não. E não tínhamos ainda televisão, éramos muito virgens em termos de imagens. A cultura era muito interessante; desde cantares, guitarras, uma forte tradição do teatro, festa feitas conjuntamente – havia laivos de comunitarismo permanentes. Ao mesmo tempo a aldeia fechava-se, como se um medo a rodeasse, «Fulano de tal ainda não chegou à terra?». Imaginavam-se coisas completamente loucas, derivadas também das casas onde o vento soprava pelas frestas, o soalho rangia, a luz da lareira era móvel, parecia que estávamos em empurrões de barcos. Isto a juntar àquela imaginação alucinante, como ainda é lá em cima, do maravilhoso celta; ou, para não sermos tão caros, a imaginação do próprio meio que fermenta coisas – uma vez que ainda não havia esta dispersão que há hoje.
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Qual era o seu ponto de observação e participação nesta vivência comunitária?
- Tinha uma experiência muito colectivizada porque a minha avó tinha um forno onde as pessoas iam fazer o pão e o meu avô tinha um grande alambique onde se juntava o pessoal todo, com a concertina, e mais não sei quê.
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O que representava a sua família na aldeia?
- Eram camponeses. O meu pai e a minha mãe casaram cedíssimo, a minha mãe com 16, o meu pai com 18, dois miúdos filhos de volframistas.
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Naquele tempo eram comum casarem tão cedo e terem filhos logo depois.
- Nasci um ano depois. Tive sempre os meus pais muito novos e uma família muito numerosa: muitas tias, muitas primas, em idade casadoira. Lembro-me bem dos vestidos delas, muito vaporosos, de se pentearem. A minha tia tinha raparigas que iam para lá aprender costura. Um gineceu fortíssimo, sempre a ser esmagado por abraços apertados.
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E gostava ou não?
- Às vezes apertavam-me demais, já fugia. Mas na verdade sentia-me um reizinho. São coisas que nunca mais se esquecem: a pressa para irem à missa, os dias de sol, a luz da Primavera.
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Num dia claro de Primavera, como é este, é isso que rememora?
- Lembro-me muito da minha infância. É uma espécie de película impressionável: o que fica ali registado, marca muito, muito mesmo. Tive a felicidade de ter uma infância completamente rural. O meu avô ia podar, levava-me com ele, deitava-me no casaco dele. Nessa altura, que é das primeiras ervinhas e flores, enquanto ele cantava aquelas canções, o Pinhão vinha com fragor por ali abaixo, e sentia os lampejos do sol nos açudes. Para um miúdo de sete anos, isto era uma coisa fabulosa. Acordar num casaco a cheirar a tabaco – o meu avô fumava onça – e ficar a olhar. Ficar com as florzinhas em primeiro plano, ver o mundo mais rasteirinho. Nunca mais esqueci. De tal maneira que ainda hoje a maior parte dos meus sonhos são: águas límpidas, rosas, pereiras floridas, o meu pai a mostrar-me sítios por onde passávamos quando íamos à feira.
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Respira, assim, um tempo que já não existe. Como é que sai da aldeia?
- Apareceu a hipótese de ir para um colégio de Salesianos, com as duas vertentes, para padre ou não. Ficava em Arouca, num antigo convento, sinistro. Fui logo a seguir à quarta classe, com dez anos. Nunca tinha saído lá de cima, nunca tinha visto o mar.
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O seu mundo era a aldeia, e os campos à volta.
- E as romarias, e as feiras: a Sra. da Pena, a Sra. da Saudade, a Sra. Da Piedade. Adorava, adorava aquilo. Conhecia outras aldeias. Mas, naquele tempo, íamos a outra aldeia sempre com o risco de levar uma pedrada. Para irmos a Justes – as terras ali mais perto eram Justes e Vilar de Maçada, que é a terra do [José] Sócrates – fazíamos uma aventura extraordinária, com um cuidado extremo.
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Onde lhe parece que radica essa incrível rivalidade?
- Talvez sejam reminiscências de castreja, não percebo de outra maneira. Agora está melhor, há mais circulação, carros vão e vêm.
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Há a televisão.
- E as comunidades dissolveram-se, com a emigração, por exemplo. Hoje, na minha aldeia, há uma geração jovem muito civilizada, educada, que estuda e circula. Organizam-se para o teatro, para o futebol, têm um grupo coral, até já gravaram um cd. Na altura, eram ódios terríveis. Isto é uma conversa de Antropologia que dava para irmos por aí fora.
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A aldeia era visitada por almocreves, ou havia uma venda onde coincidia o café, a mercearia, a farmácia, etc?
- Existia uma economia natural, de trocas directas. Nas feiras trocavam-se sacholas por feijão.
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Os seus pais trocavam o quê?
- O que tinham: milho. O meu pai tinha algum dinheiro, mas muito pouco, porque tinha explorações de resina. Está bem que o meu avô vendia aguardente e teve muito dinheiro no tempo do volfrâmio, tinha certa produção de vinhos, e o vinho sempre se vendia. Mas imperavam as trocas directas.
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A relação era muito mais desprendida com os objectos. Quer trocas eram as suas?
- Nós só jogávamos ao botão.
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A sua primeira namorada era da aldeia?
- Sim.
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Eu recordo os quilómetros que os namorados faziam para encontrar ao domingo a namorada, que vivia noutra aldeia, para, no fim, ficarem uma hora a falar na berma da estrada.
- Uma vez inventaram-me um namoro, que nem era verdade!, em Sanfins, os sacanas, já andava no colégio Almeida Garrett. Levaram-me à fonte e tive de pagar um garrafão de vinho ao pessoal! Mergulharam-me a cabeça para ser adoptado.
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Uma praxe. E nisto já estamos no Porto.
- Depois da Primária, estive dois anos nos Salesianos, em Arouca, e depois perto de três perto de Coimbra, onde completei o quinto ano.
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Quando foi para os Salesianos, era para ser padre?
- Digamos que tinha uma certa tendência. Por uma razão simples: numa aldeia, neste contexto de que lhe falo, o que produzia um fascínio, fascínio, fascínio, era a religiosidade.
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O que era tão fascinante?
- Para já, havia um delírio religioso, mesmo que não fosse ortodoxo. A presença da bruxaria, do sobrenatural, do Além. Antigamente vivia-se nesse mundo. E pessoas que não mentiam (homens de uma verticalidade, de uma palavra dada…) viam coisas.
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Também via coisas?
- Uma vez estendia a mão para tocar numa senhora que julgava que estava ao meu lado. Imagine o que eram aquelas eiras quando no Verão ficávamos a olhar para o céu, a imaginar o que era o mundo, a chegar lá apenas por intuição. Então, o mundo da igreja, os bastiadores dos altares…
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Chegou a ser acólito?
- Ajudar à missa? Montes de vezes.
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Não estou a vê-lo feito papinho de anjo…
- Nos Salesianos, onde cheguei todo sujo do carvão do comboio, nunca consegui ser dos bens comportados.
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Demorou quantas horas a chegar?
- A primeira vez que fui, ainda não tinha chegado à Régua, perguntei: «Ainda falta muito para chegar ao Porto?». Era preciso meter água, era preciso meter lenha, depois manobras à esoera do outro. Mas também eram uma animação, aqueles comboios. Concertinas, gaitas de beiços, comezainas, garrafões, tipos a contarem anedotas, tipos a venderem romances de cordel.
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Viu o «Rio do Ouro» do Paulo Rocha? É disso que está a falar?
- O ambiente era ainda mais denso. Entrava uma mulher com cerejas, ia de Godim à Régua: dava logo cerejas ao pessoal. Dava! Vender, vendiam bilhas de água, regueifas, todo um conjunto de coisas ao longo da linha. E um calor infernal.
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Como por lá se diz, «Nove meses de Inverno e três meses de Inferno». Para não perdermos o fio à meada, aterra no colégio sozinho. O normal era que os miúdos fizessem a quarta classe e ficassem por ali. Como é que se decidiu que continuaria os seus estudos?
- Conheciam um padre salesiano ali perto, o padre Álvaro, que perguntou ao meu pai, «Porque é que ele não vai?, tal tal tal..» Já estava decidido que ia estudar, tinha um jeitinho, portava-me bem nas aulas. Eu queria ir, e gostava, embora sofresse como um cão. Com saudades, chorava que era uma coisa doida.
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Cortou com o universo encantatório da infância.
- Diziam-me «Mas vai-te embora»; mas por outro lado cria-se uma relação com os amigos e há o orgulho, não se quer ir para trás. É um desafio. O meu avô dizia «Como é que o rapaz está lá naquela coisa dos padres?, sem lareira e sem vinho!» (sorriso).
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Davam-lhe sopas de vinho?
- Não, mas às escondidas o meu avô dava-me às vezes um bocadinho de aguardente, tinha a mania que já era um homenzinho.
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O que é que mais gostava no contacto com as palavras, de ler, de escrever?
- Ah, o que eu mais gostava era de contemplar. E ouvir os velhos.
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Pela sua professora, tinha uma paixão?
- Tem-se sempre. Ainda me lembro das saias dela!
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A sua memória é prodigiosa.
- Dessa coisas da infância, lembro-me bem, mais do que das coisas de agora. As saias, os gestos, o ir buscar as cartas do namorado ao correio.
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Os seus pais ajudavam-no nos trabalhos de casa?
- Sabiam ler e escrever, mas não me ajudavam. O meu pai adorava ensinar-me como cantavam os pássaros, a imitá-los a todos. Chegava a casa, saltava para cima dele com ramos de cerejas. A minha mãe é muito mais enérgica, ágil, nervosa, como as mulheres lá de cima.
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Há um momento, já em Lisboa, em que pensa voltar para casa, para os seus pais, depois de passar pela prisão de Caxias.
- Olhe que há muitas coisas para trás. Ainda nem passámos pelo Porto.
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Então vamos ao Porto.
- O Porto foi uma descoberta, o primeiro contacto com a cidade. Tinha muita malta cujos pais estavam em Hong Kong e que tinham motorista fardado, grandes carrões à porta.
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Impressionava-o de que maneira?
- Pela bizarria. Fascínio?, nenhum. Ao mesmo tempo era injusto: metia-me no Cabanelas e via aquela gente toda, pobre, a subir a Serra do Marão. Pobres mas muito alegres, diga-se de passagem. Não sei o que aconteceu ao povo português. Acho que foram os primeiros rádios, sabe? Até para trabalharem nas vinhas levam rádio, em vez de cantarem. Agora já nem usam rádio. No princípio a música era fundamental. Sempre fui sensível às injustiças. O Porto, o Porto ajudou-me a abrir. Era o período da Guerra Colonial, quase não havia homens nem rapazes. Os bailes eram só com raparigas.
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Como é que entra nessa roda dos bailes?
- Bailes que havia em qualquer associação, e também bailes privados. Arranjavam-se namoradas muito facilmente – estava tudo lá fora. Na minha aldeia, havia o sol de Inverno, os cães, um e outro sentados, não se via mais ninguém. A partir dos 18 anos, iam para a Guerra. Mas devo ao Porto ter-me desmamado em relação a uma série de coisas. Fiz também um esforço para sair de um certo maniqueísmo religioso em que tinha sido formado. Comecei a frequentar igrejas protestantes para ver como é que os outros pensavam.
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Era profundamente crente?
- Sim, sim. Já não muito de missas. Isso ajudou a libertar-me do que era o bem e o Mal. É um percurso que tem de se fazer sozinho. Os amigos estavam noutra. Provavelmente não tinham as mesmas inquietações que eu tinha. Reflectia muito sobre mim próprio, escrevia já bastante, e tentava perceber o que se estava a passar. E havia outra coisa: para aquela malta do Porto, não ir às putas era o mesmo que ser maricas. Fazia-lhes uma confusão do caraças. E era uma coisa que também não percebia: como é que com tanta rapariga lindíssima… Tinha essa estranha relação homem-mulher facilitada, apesar de ter passado por um colégio interno, pelo facto de ter tido uma infância de gineceu. A malta nova ia toda para a Rua do Bonjardim, para as Candeias.
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Frequentavam bordéis ou putas de rua?
- Casas, o Porto estava cheio disso. Bastava descer a Rua dos Caldeireiros a passear… O meu avô, no tempo do volfrâmio, às vezes até trazia os trabalhadores para os Caldeireiros.
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Escrevia para as raparigas?
- Ah sim, escrevia. Aconteciam-me coisas extraordinárias: entrava num comboio e apaixonava-me, entrava numa camioneta e apaixonava-me.
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Pela beleza, por aquilo que a pessoa emanava?
- Não sei. Uma vez estava a contar ao José Agostinho Baptista e ele dizia-me «Tens uma imaginação maluca». As coisas estavam num estado de pureza… Eu tinha uma felicidade interior, uma tal transparência, que isso contagiava a outra pessoa.
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Essa «imaginação» deixou de o acompanhar no amadurecimento dos anos?
- Com o passar do tempo as pessoas deixam de ter disponibilidade para viver em estado de paixão. A minha mola foi sempre o afecto. Nunca pensei ser rico, ter poder…; outra coisa era o amor, isso sim, movia-me para o cu do mundo. O resto? Brrr…
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Fala de uma relação de afecto que me parece tremendamente panteísta.
- Tinha sempre a casa com flores, mesmo quando estava a estudar e tinha pouquíssimo dinheiro: 18 escudos iam para as sécias, comprava meia-dúzia todas as semanas. Já trabalhava na Assírio, metia-me sozinho, com o saco a tira-colo e um caderninho para escrever, primeiro no barco, depois na camioneta: Costa da Caparica, quilómetros por ali fora, ficava a olhar para o mar. Fazia isto com uma regularidade extrema. A partir de determinada altura, o tempo não chegava para nada, nada!
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Responsabiliza sobretudo o tempo? Estava a pensar que naturalmente há uma inocência que se perde. As pessoas deixam de ser puras.
- Chega a uma altura em que nem damos conta de como tudo se passa. Ficamos absorvidos, e depois queremos mais, cada vez mais, e já não conseguimos parar, a não ser que aconteça qualquer coisa de muito…
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Esteve ainda um ano em Direito.
- Quando vim para Lisboa foi para fazer Direito, mas praticamente não fiz nada. Direito estava ocupado, era o tempo do Martinez.
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Porque é que vai para Direito? Ainda por cima já escrevia, já sabia que lhe interessavam as palavras.
- O que queria era ser poeta. Os poetas que lia mais, o Pascoaes, o António Patrício, alguns simbolistas, eram todos licenciados em Direito. Julgava que o Direito… Uma ingenuidade!, como aliás tinha muitas. O mundo era assim, não precisava que fosse mais complexo. Fica-me mal dizer o eu, mas há uma água límpida que ainda mantenho.
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É o seu lado aldeão.
- Não tenho ninguém a quem desejo mal, acredita? Posso não simpatizar, mas não consigo atirar uma pedra a ninguém. Nem aos de Justes! (riso)
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Os seus pais acompanhavam o seu projecto?
- Cresci sozinho, praticamente sobrevivi sozinho. No Porto, tinha muito pouco dinheiro, os meus pais também tinham muito pouco dinheiro. Tive a minha fase freak, como todos. Quer ver como é que eu era?
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Quero.
- [Mostra uma fotografia com a mulher, Manuela, em Marrocos]. Isto é nos anos imediatamente anteriores à Revolução. Tínhamos a sensação de que o mundo ia mudar e que estava ali, ao alcance da nossa mão. Estamos a dispersar-nos muito, não?
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Vamos recentrar em Lisboa, no primeiro ano de Direito.
- Não, Direito é de ignorar, é só matrícula e mais nada.
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Lisboa, depois do Porto, é um novo mundo. Ainda se identificava como um rapaz da aldeia? Pelo facto de ter estudado, a sua vida passou a ser completamente diferente da vida dos rapazes da terra.
- Na aldeia só estive dez anos, nesta altura já tinha outro tanto fora. Mas mantive uma relação muito forte com aquilo. Em Lisboa, numa primeira fase, toda a malta de Trás-os-Montes se encontrava. Desde cirurgiões a tipos do PC, a tipos da PIDE. Desde malta de Montalegre a malta de Vila Real. Juntava-se o pessoal todo ao pé do [café] Gelo.
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Discutindo a situação do país?
- Não. Era talvez puro instinto, pura defesa. Dos que não conheciam isto, dos que conheciam bem. E depois rapidamente se passou a uma fase, por que passei também, de repulsa por tudo o que era rural. Aquilo parecia-me uma piroseira do caraças, as músicas e tudo. Estive muito tempo sem lá ir.
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Porque se fascinou com uma Lisboa sofisticada?
- Julgo que foi um processo mais cultural, que começa nos livros e no que se aprende. Há coisas que irritam!, que, aliás, ainda hoje me irritam: um atavismo, um não querer saber, uma preguiça natural.
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Foi tudo hiperbolizado.
- Parecia-me atávico, justamente. E ridículo: os rapazes chegavam de bicicleta aos bailes, com óculos espelhados comprados na feira! Vinham juntos, mas depois, à frente das raparigas, atravessavam o baile para se cumprimentar. Hoje tudo isso me encanta, mas na altura achava hipócrita.
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Tinha algum amigo da escola primária?
- Sim. Que estudassem só uma rapariga e um rapaz; ela é hoje professora, e foi o único caso de chegar ao fim do curso como eu.
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Estava a tentar perceber se ter tido acesso a outros universos o demarcou das pessoas que conhecia.
- Não muito. Nunca julguei as pessoas pelo que sabiam. Nunca fiz qualquer discriminação pela pessoa ter o curso ou não ter, ser assim ou assado, ser pobre ou rico. Quer dizer, é uma coisa tão natural que o simples facto de falar nisso mete-me impressão. E nunca tive mitos, nem Marilyn Monroe, nem Jim Morrison; a única coisinha que talvez tenha tido foi pelo Che Guevara. As pessoas fascinam-me sempre muito mais. Na hora da sesta, enquanto os outros iam dormir, passava o tempo a ouvir os velhotes. Horas e horas e horas. E depois continuou, com o agostinho da Silva, que ia ouvir de vez em quando.
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Quando é que encontra o Agostinho da Silva?
- Anos 70, pouco depois de vir para cá. Um amigo disse-me «Tens de conhecer o Agostinho». Só não ia mais vezes visitá-lo por causa do cheiro dos gatos (com o cio, o cheiro é insuportável).
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A sua gata, Gueixa, cheira?
- Não, os machos é que é uma coisa terrível. Ele vivia no terceiro andar e sentia-se no fundo das escadas.
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Então, é um rapaz universitário que vai parar a Caxias. Conte lá a história, antes de aprofundarmos a relação com as letras e com a Assírio.
- No Porto já participava numas coisas pró-social. Com o Bispo do Porto e uma certa igreja mais prá-frentex, com um grupo de jovens. Havia uma espécie de reflexão, um centro na Rua do Rosário, com a Irmã Humberta; cantava umas baladas do Fanhais e do Zeca Afonso.
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Estavam ligadas para si essas duas componentes, a religiosa e a política?
- Por acaso nunca tive grande sentido político. Na faculdade deixei-me motivar pela luta anti-Guerra Colonial, mandei umas bocas e pronto. Mais nada. Fui parar a Caxias basicamente porque estava a ouvir o Zeca Afonso no Centro Nacional de Cultura. Deram-me enxertos de porrada inacreditável. Com a minha ingenuidade perguntava: «Por que é que me está a bater?»
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A sensação mais forte é o medo?
- É a de que se está nas mãos da mais completa arbitrariedade; podem-nos dar um tiro, podem fazer o que quiserem. Mas agora, estar a contar isto tudo…
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Custa-lhe?
- Não. Mas foi a primeira machadada na minha vida. Até essa altura tinha sido como um pássaro, à solta. Cortaram-me o cabelo todo, que era enorme, implicaram com as coisinhas que trazia no saco: um caderninho, umas almofadinhas bordadas que as minhas amigas me davam. Meteram-me numa cela sem um papel, sem um livro, nada nada. Um dia parecia uma eternidade. Sabe o que me fez cair na situação? Perceber que já não mandava em mim: «Tens a mania que andas aí como um pássaro?».
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Quanto tempo esteve?
- Para aí uma semana. Lá dentro apercebi-me que havia luta; nos pratos, no alumínio, escreviam coisas como «Coragem, estamos contigo», «Resiste»; na enfermaria havia coisas escritas com sangue; e havia gajos que cantavam, cantigas alentejanas.
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Quando sai quer voltar à terra. Formulou seriamente o desejo de voltar para a aldeia? Ainda se reconhecia nessa vida?
- Estava farto. Essa coisa da Aura Mediócritas, como dizia o Sá de Miranda, é uma coisa que existe muito dentro de nós. Às vezes vejo colegas meus lá em cima, a tranquilidade com que estão com os seus filhos. A felicidade é aquela coisa projectada nos outros, felizmente estamos já avisados, sabemos que não existe. Mas nos poetas acontece muito, o Pessoa então, «Ai se eu pudesse casar com a filha da minha mulher a dias». Sempre o outro como representação, encenação da felicidade. Essa busca de uma vida calma, contemplativa, às vezes assalta-me. Na altura era insólito, por ser muito novo e ter o mundo à minha disposição.
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Aos 22/23 anos vai para a Assírio como vendedor.
- É preciso dizer que a Assírio estava de pantanas. A Assírio foi fundada em 72, depois esteve uns anos sem publicar, mais tarde o Homero, produtor do Página Um, tinha lá um escritório e deu uma mão, mais duas pessoas que lá trabalhavam. Aquilo estava num regime de sobrevivência. Quando fui para lá, os livros editados não chegavam a dez. A Assírio vivia mais da distribuição do que da edição. É nesse contexto que entro, um pouco desinteressadamente.
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Já tinha acabado o curso?
- Já me tinha matriculado em Sociologia em Évora!, para ver as voltas da minha vida. Fui para a Assírio para a parte de vendas, mas ali todos faziam tudo. Sabe como é que se sobrevivia? Quantas vezes fazendo bancas, para sacar algum dinheiro. Estava mesmo na penúria, penúria. Fui-me mantendo por lá, acabei o curso de História.
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Vivia desse pequeno trabalho?
- Já tinha um outro numa agência que contratava artistas: os Genesis, os Procul Harum.
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Conheceu essa malta?
- Alguma, e outra que vinha para o Casino do Estoril, de românticos a stripers. Foi o meu primeiro trabalho, quem mo arranjou foi a Maria Leonor, da rádio.
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Na Assírio assume, em 78, a coordenação editorial. Imagino que tenha correspondido a um desejo de estabilidade que grassou por todo o país, passada a agitação política.
- E a tropa. Fui para a tropa depois de completar o curso. Tinha sido já refractário, devia ter ido para os Fuzileiros antes do 25 de Abril. Não fui e andei a monte.
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Em 78 assentou arraiais na Assírio. Deixou de ser o rapaz à descoberta do mundo?
- Continuei à descoberta. Ainda fui fazer vindimas a França. Andei sempre muito à solta, parecia que o mundo todo me sorria. Nestas viagens, sozinho, amadurecia muito, fermentava.
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Na base da mochila às costas?
- Era assim mesmo, sem saber onde ia ficar. Nunca fiquei na rua.
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O que é que queria da vida? Ou tratava-se de a ir descobrindo?
- Descobrindo. Mas sempre à espera, com a sensação de que a seguir é que era. A seguir, a seguir.
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Tinha desistido do sonho de ser poeta?
- Fartei-me de escrever. Tenho ali cadernos que nunca mais acabam. Depois começa-se a publicar tanta poesia tão boa… Não sei se é muito importante.
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Realmente?
- Ah, a vaidadezinha, não tenho muito essa vaidadezinha. A vaidadezinha que tenho é colectiva, por amigos. Às vezes apetece-me escrever, é uma necessidade interior, um imperativo. Na verdade, posso não escrever poesia, mas vivência poética acho que a tenho. Escrevo coisas incríveis. Só que não as escrevo. É como se as escrevesse, andam assim por dentro. Poemas feitos. Metê-los no papel? Brrr…
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O seu olhar é eminentemente poético, marcado pela vivência rural.
- E a visão desde a infância. Ver tudo, com muita atenção. Podia escrever um livro de memórias, relatando a vivência com uma gente de que pouco se sabe, das histórias que lhes ouvi.
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Portugal não tem tradição de livros de memórias. As biografias, noutros países, vendem-se como pão quente.
- Em Portugal as biografias não pegam, não sei dizer porquê. Eu gostava de fazer, sobretudo pela vivência forte que aí tive, humanamente. É quase uma dívida que queria saldar. Podia juntar a minha experiência no Alentejo. E a minha experiência enquanto editor; podia fazer um livro extraordinário sobre os poetas que conheci, não só os poetas que publiquei, mas todos os outros: o Manuel da Fonseca que ia tanta vez à Assírio, o Rui Cinati que ia diariamente à Assírio…
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As relações que a editora mantém com alguns poetas é mítica. É verdade que vão levar o almoço diariamente a casa do Cesariny?
- É. Mas não é preciso contar isso.
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O que me interessa é perceber a relação familiar que se estabelece entre si e alguns destes autores.
- Sim, são a minha família, não há nenhuma dúvida. Mas há outros, que nem sequer são da Assírio, com os quais tenho uma relação igualmente profunda. Caso do Eugénio de Andrade: falamos dia sim, dia não.
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Pensou muito neste projecto no último ano, desde que sabe da sua doença? Mesmo que trabalhe a partir de casa e vá à Assírio ocasionalmente, imagino que esteja mais recolhido em si e nas suas memórias.
- É verdade. Mas tanto penso em fazer isso, como logo a seguir penso em não fazer. Sou muito assim. Na minha vida as coisas quando têm de acontecer, acontecem. Não falo de um deixar-se reger, de um determinismo exterior à minha vontade; mas fui ganhando alguma sabedoria, percebendo que as coisas impõem-se.
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Prefere que as coisas lhe aconteçam?
- Sim. A minha vida é feita de acasos, de circunstâncias. Nunca forcei muito as coisas, nem as relações amorosas. Suponhamos que as coisas andam num caos e que tendem para uma harmonia. Se não as precipitarmos, elas tendem para uma pacificação. Tudo, tudo o que está no universo é assim. Se calhar é a lógica da vida toda.
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Poucas foram, então, as opções de vida tomadas de forma categórica.
- Sim. No trabalho, claro, é diferente.
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A propósito dessa vida que lhe acontece, como ficou, a páginas tantas, a relação com o divino?
- É uma relação harmoniosa, sempre foi. Tenho fé, tenho. Há a perplexidade que algumas coisas inevitavelmente nos suscitam; por outro lado, há ainda tanta coisa por conhecer que é uma arrogância julgar que já estamos no fim do processo. Só posso falar da experiência própria. Não posso falar a alguém do encantamento que me dá ver um melro ali à frente no ramo, ou de uma pequena flor que me enche completamente de vida. Então neste momento actual enche a sério. Como não podia, quando era mais novo, ler um poema às pessoas que me respondiam «Lá vem este com o poema, agora com esta merda».
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Harmoniosamente foi fazendo a síntese entre a sabedoria das pessoas e da terra.
- É a mais importante.
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E o saber livresco e o que deriva do contacto com outras pessoas. Foi este o seu labor.
- Aprendi muito vendo, vendo a natureza. Isto é uma escola permanente, é uma escola permanente. O grande problema é que está a morrer a nossa sensibilidade, a nossa disponibilidade. A relação com os outros está terrível. Esta coisa do novo-riquismo, esta ansiedade desenfreada que não leva absolutamente a nada. Um punhetaço, como dizem os espanhóis. Há uma coisa infernal que retira às pessoas a sua tranquilidade, a sua liberdade. E estamos a matar aquilo que, em putos, no tempo da festividade, do amor e tal, tínhamos como capital incrível, e que era o afecto.
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Na altura já sabia disso?
- «O nosso grande capital é o amor». Era a nossa grande riqueza, o que queríamos. Depois logo nos safávamos, íamos a França, enfim. Agora precisam de não sei quantos contos para ir para a estância de neve, mais não sei quê que só vai com determinadas condições. Estamos a perder a liberdade. Mais: a perdê-la sem ter consciência disso.
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Esse conforto material em que vive agora, esta sua casa tão simpática, a casa da aldeia…
- Mas eu posso viver em qualquer sítio. Se não fosse a Manuela a arranjar a casa, algum dia tinha isto? Não, não me mexe muito. Seria uma estupidez dizer que não gosto de ter um bom carro, em vez de ter um carro a abanar por todos os lados. Agora, que não signifique hipotecar a liberdade da pessoa. Se não puder ter, não há problema, até não há problema absolutamente nenhum.
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Estas coisas ficaram mais flagrantes para si porque as pessoas ficam sacudidas quando estão doentes?
- Não, absolutamente nada. Tinha consciência delas, mas andava tão alienado que me apetecia chegar aí, ligar a televisão e ver a bonecada porque me dava o sono. Neste momento sinto-me melhor fisicamente, por incrível que pareça. A minha cabeça parece que estourava, com milhões de preocupações, permanentemente tau-tau-tau. Não tinha paz. E sinto-me tranquilo.
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Sente? Não o invade uma angústia quanto ao futuro?
- Se morrer quero ir para a minha terra.
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Foi nisso que imediatamente pensou?
- Foi. Logo. E disse-o à Manuela. Às vezes, depois das quimios, vou-me um bocadinho mais abaixo, fico mais mole e psicologicamente fico mais afectado. Agora, como hoje me sinto… Fico aqui sentado a ver os melros, de que gosto muito, os pequenos rebentos das folhas.
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Porquê os melros?
- É um pássaro muito bonito, canta extraordinariamente bem. Quando tinha seis anos, havia uma japoneira ao pé da casa dos meus avós e cantava lá um melro ao amanhecer; contam que dizia: «Ó Vó, olha o que o melro está a dizer!, o que é que está a dizer?, queres comer, queres comida?». Era eu que estava com fome.
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Teve um encontro, com um livro ou poema, que tivesse sido determinante na sua relação com a literatura?
- Quando comecei a sentir a poesia a sério, assim poesia de estremeção, foi nos Simbolistas, Gomes Leal e Camilo Pessanha. Sobretudo Pessanha, a gente dizia: «O que é isto?»
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Que verso ou poema traduziria a essência de si e que escolheria para seu epitáfio?
- Ah, não sei. Tenho muitas dúvidas sobre mim, não pense que não. Muitas convulsões, muitas dúvidas. Sou um toiro. Agora estou partido. Quem é que me domava? Nem eu. Energia. Alegria. Era capaz de levar uma multidão. Era uma coisa genésica e telúrica. Ao mesmo tempo, tenho uma dose de feminilidade forte, que não enjeito. A mulher herdou uma sabedoria de muitos séculos, de velha aranha que sabe esperar, perceber o silêncio. Os homens são tipos de uma ingenuidade total, de uma generosidade inexcedível, só qualidades; e depois há qualquer coisa de bruto, de guerreiro, de incapacidade de crescimento.
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Que conversas tem com o seu pai e com a sua mãe?
- Ao meu pai gosto muito de o abraçar, estamos sempre agarrados um ao outro, «Então a poda já está feita?», «Está quase», e tal. Com a minha mãe falo das coisas da casa, das minhas irmãs, deito água na fervura. E é assim.
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As partes mais íntimas de si ficam para quem?
- São coisas que a gente digere em nós, não é? Nunca matei ninguém, não tenho nada que me atormente. (pausa) Precisávamos de ter várias vidas, não é?, para acertar com uma. Esta é muito pequena. Mesmo que a tenha vivido intensamente. Morrendo brevemente, já ganhei muita coisa. Claro que gostava de mais, de fazer isto e aquilo; mas por outro lado, mesmo 100 anos não é nada, 200 também não. Estou habituado a ver a biografia de escritores… Isso passa tudo. É uma lucidez que convém ter afinada. Sempre a tive, não é de agora. Pelo contrário, agora tenho mais ganas de viver. Mas sempre percebi o quão relativo isto era: 90 anos, 100 anos, 200 anos. Não se dá conta; julga-se que quando se for mais velho se vai saber mais e também não se sabe nada.
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Que idade tem?
- 48. "