terça-feira, junho 19, 2012

a página em branco

a página em branco e o cursor a piscar são vendidos ao mundo como sinónimo da desgraça de quem escreve.

isso mostra bem como o mundo anda sempre tão dedicado na perseguição da quantidade e tão distraído na aplicação de crivos de qualidade. nas minhas visitas, muito selectivas, pela blogosfera, encontro tantas vezes tanto em tão pouco e outras vezes tão pouco em tanto.

com isto não sou apologista de que só os resumos sejam bons. há livros grandes que parecem pequenos e há livros pequenos que parecem enormes de tão chatos que são.

cada vez nos é oferecida mais informação, cada vez há mais vias de fazer chegar essa informação. a menos que batalhemos constantemente pela selectividade e pela criação de um limiar pessoal de qualidade na informação que queremos, vamos acabar vítimas desse paradoxo que é saber cada vez menos num mundo que permite saber cada vez mais.

sexta-feira, junho 15, 2012

na vida como nas ementas americanas

as ementas nesta terra que me acolheu têm um grave problema de complexidade. por mais agradável que seja a multiplicidade de oferta, almoçar ou jantar fora num restaurante americano é um desafio com laivos de hercúleo. escolher um entre milhares de pratos e quando acharem que a tarefa chegou ao fim ainda vem a altura de vos perguntarem como querem a carne, que molho querem, todos os acompanhamentos à disposição, e por aí fora, o que me faz sempre acreditar que para se ser empregado de mesa nos estados unidos é preciso um curso de decoranço. ou então são só actores sem sucesso em hollywood que vêm parar a esta profissão em segunda instância. há dias em que só nos apetece limitar as dúvidas a dois ou três pratos. e mesmo isso às vezes é demais.

a vida moderna sofre do mesmo trauma. vestidos do maravilhoso livre arbítrio que o tempo de agora nos trouxe, temos que, quase do berço, decidir tudo e um par de botas. o que vamos ser, o que queremos fazer, com queremos estar, o que isto, como aquilo. claro que na infância gozamos da inocência da liberdade. achamos as nossas escolhas mágicas e as nossas decisões inconsequentes. ao crescer as coisas mudam de tom. as nossas marcas deixam de ser feitas em areia e passam a ser como pegadas em cimento, muito mais difíceis de desfazer, muito mais delicadas de disfarçar.

não estou com isto a ser apologista de uma crítica a todas as oportunidades que o mundo moderno nos traz. mas há dias em que chego a pensar que um homem da idade média, condenado ao trabalho no campo toda a vida, a administrar propriedades toda a vida, a uma reclusão num mosteiro toda a vida, ou outras, sendo certo que não tinha o potencial de felicidade que nós temos, tinha na limitação das suas escolhas uma espécie de airbag contra o potencial de infelicidade que nos chega em igual (ou maior) dose.

terça-feira, junho 12, 2012

mesmo quem não acredita em santos vai lá pela parte do populares

todas as cidades são frequentemente acusadas de frias, impessoais, carreiros de formigas trabalhadoras, despidas de sentimentos, que trabalham durante o dia e fogem para os seus suburbanos refúgios quando o sol se despede. havendo alguma (muita, quiçá, em muitos dos dias) verdade nisto, há um dia especial em que um povoado como lisboa deita completamente abaixo esta estrutura.

apesar de o avançar dos tempos trazer algumas adaptações fatelas ao que é verdadeiramente a noite de doze de junho em lisboa (nunca percebi porque é que algumas casas acham excelente ideia pôr música electrónica na encosta do castelo ou porque é que algumas banquinhas vendem açaí com granola) ainda continua a ser a noite do ano em que a alma mais marialva do verdadeiro alfacinha se manifesta em todo o seu esplendor. recebendo bem quem é de fora, quem veio de fora, quem adoptou lisboa como sua, renegando ao preconceito fácil e à crítica pouco construtiva.

eu sempre me confessei um alfacinha a toda a linha. e gosto verdadeiramente de muitas outras zonas do país, pelas pessoas, pela gastronomia, pelas paisagens, pela monumentalidade. não tenho nada contra essas zonas e, aliás, só peço sempre que façam o mesmo em relação à minha cidade e às pessoas da minha cidade. 

consigo dizer ao pormenor onde estava em todos os dias doze de junho. até porque (ressalvadas excepções como o ano passado e este) o meu percurso dessa noite tem sempre um timbre parecido, os cheiros e os sabores também se repetem, e os abraços e os beijinhos sempre se multiplicam. nas noites de doze de junho não temos tempo para irritações. deixamo-nos levar pela viela, pelos degraus, pelos miradouros para onde a mole  humana nos empurra e respiramos a cidade como parte do nosso património. celebra-se uma data e um santo, mas celebra-se sobretudo a cidade. calcorreando as mesmas pedras que foram pisadas por assustados marinheiros a caminho dos barcos, por prisioneiros a caminho do cadafalso ou por eternos apaixonados a caminho de mais um encontro amoroso. 

hoje é o dia perfeito para lembrar que, em vez de julgar lisboa, é bem melhor abraçá-la e aproveitar tudo o que tem de bom.

segunda-feira, junho 11, 2012

o trânsito de vénus

sempre gostei muito de vénus. do modo como se insinua no fim das tardes de verão. da sua mania de fingir que é meio estrela, meio satélite, deixando todos à nora quanto à sua real vida como planeta. é um planeta tão audaz que até tem coragem de passar entre a terra e o sol e deixar milhões parados a vê-lo passar, como se fosse uma espécie de visita papal sideral (não que eu me desvie do meu caminho para ir ver o papa, entenda-se).

olhar para meio mundo a, literalmente, "ver vénus passar", fez-me pensar como o ser humano continua magicamente centrado nos fenómenos que não compreende muito bem. por mais interpretação que a astronomia hoje ofereça, a noite em que há chuvas de estrelas, os famigerados eclipses ou estes pequenos brindes cosmico-planetários, são recebidos com a mesma admiração com que os aztecas, os egípcios ou os homens das cavernas olhavam para eles.

é também curioso que a atitude não se estenda a outros fenómenos cujo conteúdo as pessoas desconhecem. na ciência, por exemplo, há o potencial para um igual maravilhamento. o problema é que nos fenómenos não-cósmicos há mais a mania de toda a gente achar que percebe do assunto. e que tem uma opinião. e que pode e sabe e quer discutir o assunto. preferia que olhassem para certos resultados da ciência como se de um meteorito em iminente entrada na atmosfera se tratasse. não há problema em não se saber tudo. o problema só aparece quando se quer fingir que sim.

sábado, junho 09, 2012

a paixão por futebol vai para lá de penteados e lamborghinis

quem nasça num país como portugal sabe bem que a paixão pelo futebol é algo que vem inscrito nos genes quase com um carimbo tão forte como o padrão de cabelo, a cor dos olhos ou o número de anos que em princípio vamos viver.

num rapaz os primeiros passos são quase invariavelmente acompanhados dos primeiros chutos na bola. os primeiros beijos andam de mão dada com as primeiras fintas. as etapas da vida vão sendo acompanhadas por aquele golo de um ângulo impossível, pelo outro frango que não deu nem para acreditar ou pela finta que é feita mais para impressionar as miúdas que olham da linha lateral do que propriamente para dar eficácia ao lance.

lembro-me como se fosse hoje do ritual que me perseguiu escola fora. no momento em que os cinquenta minutos de aula terminavam (já cinquenta pareciam tão complicados em termos de concentração, não sei mesmo como aguentam noventa, ó gaiatos de hoje!) corríamos que nem loucos para o recreio para começar uma partida de futebol com muita intensidade e uma duração de dez minutos. o intervalo grande do meio da manhã e do meio da tarde tinham um carácter sagrado porque permitiam jogos com bónus de 50% de tempo, nuns "longos" quinze minutos. a hora de almoço raramente era usada para esse efeito, deglutindo-se um qualquer alimento apressadamente para aproveitar todo e qualquer minuto entre aulas. quando havia um furo o nível de alegria roçava o épico e nós, crianças, ficávamos mais contentes do que se a selecção ganhasse um campeonato do mundo, com esse prémio de sessenta minutos de bola.

andei numa escola bastante conservadora, com tiques de não-democracia, em que os contínuos achavam que jogar à bola era um acto rebelde e violento, tendo por isso o agradável hábito de apanhar a bola e a confiscar. imagino que se ainda lá trabalharem hoje em dia chorem de saudades do tempo em que o acto mais rebelde das crianças era dar pontapés em objectos esféricos, mas isso seria temática para outra conversa.

dotados daquela criatividade tão própria que aguça o engenho nem isso nos impedia a prática da actividade. qualquer objecto servia para simular a bola. aqui se vê a paixão pelo futebol. nos esquemas que inventávamos para que o jogo continuasse. desde folhas de papel enroladas em forma de bola e completadas com quilómetros de fita-cola para o tornar um objecto "chutável" até latas que eram pisadas e tornadas planas, tornando-se automaticamente para nós numa bola de um nível quase oficial.

a paixão pelo futebol é isso. tal como é a paixão que temos pelo nosso clube, que nos faz adaptar a vida para ver um jogo. ou achar especial levar o nosso filho pela primeira vez a um estádio. vibrar com os golos. chorar com as derrotas. discutir de modo aceso as substituições, as escolhas do treinador, as mais recentes contratações. tudo isso envolve paixão, que é pura, que é visceral, que vem de dentro e que traz tradição e crescimento.

depois o futebol mudou. tornou-se noutra coisa completamente diferente. sim, claro que quero que a selecção ganhe logo. força nisso. usam o escudo da nossa bandeira na vossa camisola. quero o melhor para vocês, e vou ver o jogo vibrando com as jogadas, porque eu tenho paixão pelo futebol. mas hoje em dia desiludi-me. não confundo paixão com negócio. nunca dá bom resultado misturar os dois.