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mesmo quem não acredita em santos vai lá pela parte do populares

todas as cidades são frequentemente acusadas de frias, impessoais, carreiros de formigas trabalhadoras, despidas de sentimentos, que trabalham durante o dia e fogem para os seus suburbanos refúgios quando o sol se despede. havendo alguma (muita, quiçá, em muitos dos dias) verdade nisto, há um dia especial em que um povoado como lisboa deita completamente abaixo esta estrutura.

apesar de o avançar dos tempos trazer algumas adaptações fatelas ao que é verdadeiramente a noite de doze de junho em lisboa (nunca percebi porque é que algumas casas acham excelente ideia pôr música electrónica na encosta do castelo ou porque é que algumas banquinhas vendem açaí com granola) ainda continua a ser a noite do ano em que a alma mais marialva do verdadeiro alfacinha se manifesta em todo o seu esplendor. recebendo bem quem é de fora, quem veio de fora, quem adoptou lisboa como sua, renegando ao preconceito fácil e à crítica pouco construtiva.

eu sempre me confessei um alfacinha a toda a linha. e gosto verdadeiramente de muitas outras zonas do país, pelas pessoas, pela gastronomia, pelas paisagens, pela monumentalidade. não tenho nada contra essas zonas e, aliás, só peço sempre que façam o mesmo em relação à minha cidade e às pessoas da minha cidade. 

consigo dizer ao pormenor onde estava em todos os dias doze de junho. até porque (ressalvadas excepções como o ano passado e este) o meu percurso dessa noite tem sempre um timbre parecido, os cheiros e os sabores também se repetem, e os abraços e os beijinhos sempre se multiplicam. nas noites de doze de junho não temos tempo para irritações. deixamo-nos levar pela viela, pelos degraus, pelos miradouros para onde a mole  humana nos empurra e respiramos a cidade como parte do nosso património. celebra-se uma data e um santo, mas celebra-se sobretudo a cidade. calcorreando as mesmas pedras que foram pisadas por assustados marinheiros a caminho dos barcos, por prisioneiros a caminho do cadafalso ou por eternos apaixonados a caminho de mais um encontro amoroso. 

hoje é o dia perfeito para lembrar que, em vez de julgar lisboa, é bem melhor abraçá-la e aproveitar tudo o que tem de bom.

Comentários

Serendipity disse…
"calcorreando as mesmas pedras que foram pisadas por assustados marinheiros a caminho dos barcos, por prisioneiros a caminho do cadafalso ou por eternos apaixonados a caminho de mais um encontro amoroso."

Que bonito! Estas palavras dão ainda mais encanto às ruas desta cidade que não sendo minha, adoptei-a para viver.

Hoje li-te pela primeira vez e soube bem. Obrigada por isso.

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