segunda-feira, abril 21, 2014

dar voltas à pista

hoje entrei no supermercado e um senhor de nobre idade fez-me sinal. precisava de ajuda para pôr o saco das compras ao ombro, porque problemas nas articulações o impediam de ter força e amplitude de movimento para conseguir completar uma tarefa tão simples.

os dias passam no calendário como carros e pilotos a dar voltas à pista. as articulações gastam-se que nem pneus, a memória vai-se que nem combustível e as mudanças saltam freneticamente para cima e para baixo como se fossem estados de espírito. volta após volta vamos segurando a força dos Gs que nem uns corajosos, fingimos não notar o cheiro a queimado vindo das rodas e fintamos as poças de óleo que nem uns fitipaldis.

esquecemo-nos com demasiada frequência de parar nas boxes. bem sei que a pista chama e promete glória, mas o reabastecimento é tão essencial como o músculo de feições estranhas que bate dentro do peito.

sobre a pista que é a vida ninguém sabe bem o que é o pódio. mais uma razão para apreciar o caminho, que o destino fica a cargo do cronómetro e tudo o que trabalha a pilhas é suspeito.

quinta-feira, abril 17, 2014

lição de hoje

se há coisa que aprendi bastante nos domingos de manhã da minha infância foi como a natureza funciona. também aprendi que a feira do relógio tinha um rico pão com chouriço e que cair em cima da cal dos campos de futebol pelados queimava a pele, mas isso talvez não tenha tanta importância para o assunto de hoje.

bebendo pelos olhos todos os programas que o ecrã teimava em expulsar, fosse a vida selvagem inglesa ou o outro a esconder-se atrás de arbustos, aprendi várias lições que ficaram para a vida. uma delas tinha a ver com o padrão de acasalamento das zebras. as zebras, sejam macho ou fêmea, têm uma característica engraçada, a de perderem a atracção por uma zebra do sexo oposto que faça a corte a todas as zebras que se mexem (e mesmo a uma ou outra mais estática do que uma múmia egípcia). quando isso acontece, não só perdem a atracção como a cor das suas listas até se pode inverter. as listas brancas passam a pretas e vice-versa, é a forma que a natureza tem de metaforicamente abanar a cabeça em sinal de desaprovação.

como é óbvio esta história não é mais do que uma invenção da minha cabeça. já a lição...

sábado, abril 12, 2014

take two

a música não era nada de especial. o vocalista parecia ter não álcool no sangue mas sim sangue no álcool e a voz tremia-lhe mais do que uma casa construída em cima do anel de fogo.

a luz era morna, sobretudo comparada com a tua pele. falámos horas a fio de quão tudo é relativo, da temperatura das peles ao movimento dos girassóis atrás da estrela todo o dia. discutimos alegremente a falsidade do céu azul, pintado às escondidas para nos dar uma sensação de conforto. que não existe. que é inventado em becos cósmicos, como quem rouba um beijo enquanto um candeeiro se acende e apaga, incerto sobre a energia que lhe corre nas veias. ou nos fusíveis. uma das duas.

fiz um esforço hercúleo para me concentrar nas palavras, enquanto a minha atenção se prendia nos teus cabelos, os meus olhos se enrolavam no teu pescoço e o coração dava pulos capazes de ir à medalha de ouro nos jogos olímpicos.

as noites frias. as noites quentes. depende. tudo. depende tudo de tanta coisa. e no fundo depende de tão pouca.

a música não era nada de especial. mas isso nunca importou.