sábado, janeiro 20, 2018

fora da bolha

fechou a porta da bolha com uma mão, enquanto a outra mão apertava o nariz para tentar não desmaiar com o cheiro nauseabundo . as paredes da bolha tinham rachas de cima a baixo, o tecto da bolha, todo de vidro, parecia ser feito de chapa de zinco, tamanha a sujidade que o inundava .

fora da bolha tudo era melhor, sentia-se uma rainha . depois de passar pelo banho dado na lavagem automática, explorada por um grupo de gambozinos obsessivo-compulsivos, chegava ao mundo lá fora pronta a reinar . cumprimentava reis à esquerda, príncipes à direita, toda a gente lhe perguntava a sua opinião, queria ver a sua aprovação, procurar o calor das suas palavras, almejar a, sei lá, quem sabe, até, talvez um dia, poder fazer parte do seu círculo fechado de amizades . corria as várias capelinhas, tinha opinião sobre tudo e todos e tudo e todos tinham ouvidos para a sua opinião . desinformada, cheia de musgo, superficial, mas na sua parca inteligência tinha percebido há bastante tempo que no mundo de hoje não é preciso saber, basta parecer que se sabe . 

depois sentava-se a ver o pôr-do-sol, de quando em vez até a fotografá-lo, e as lágrimas apressavam-se a saltar dos seus olhos . não por nenhum impulso stendhaliano, mas porque se lembrava que eram horas de voltar para a bolha . e dentro da bolha tudo voltava a ser imundo, a sua vida valia abaixo de zero, o seu valor era abaixo do que a sua vida valia, e as paredes rachadas da bolha nunca pareciam querer saber a sua opinião .