terça-feira, fevereiro 05, 2013

ficamos à rasca sem metas

quem subiu à montanha mais alta? quem o conseguiu no menor tempo possível? quem o fez com as botas mais leves? qual o homem que foi até ao mais profundo que da terra se consegue alcançar? quem descobriu o caminho marítimo para a índia?

temos um vício maior em estabelecer metas do que algumas estrelas do rock em pó de cores claras.

a verdade é que dependemos do conforto de, pelo menos, saber para onde vamos. se o vasco da gama dissesse que ia só ao deus dará ninguém lhe financiava a viagem. se o joão garcia dissesse que queria subir até meio do evereste não havia cá bancos nem publicidades. o mesmo para tudo o resto. sem meta não há tanto lucro em fama.

por isso subimos. por isso descemos. por isso tentamos ir mais alto do que já se foi e mais fundo do que alguém alguma vez possa ter imaginado. cilindramos o tempo na tentativa do mais, do maior, do que está para lá do que há e não paramos nem microsegundos para apreciar o que está entre o ponto de arranque e a meta.

depois, por momentos, sentamo-nos à beira de um rio. impregnamo-nos do barulho do silêncio. olhamos os peixes, tentamos perceber quão caótico é o seu ordenado circuito ou quão ordenado é o seu caótico circuito. vimos os pássaros saltitar entre pedras, deitar a cabeça de lado e olhar para nós com o habitual olhar inquisitivo com que quem voa olha para quem não o sabe fazer. o pássaro provavelmente pergunta-se como é que um tipo com ar de quem tudo acha que sabe não consegue sequer descolar os pés do chão mais do que uns segundos. ri-se ironicamente do mesmo tipo por nem sequer se maravilhar a cada momento com o que o avanço do seu pensamento permitiu, já que voa naqueles pássaros de ferro com a naturalidade com que bebe água ou se alimenta, e jamais vangloria a liberdade de o conseguir fazer. no meio deste riso irónico, flecte as pernas, contrai todas as fibras musculares do seu corpo de ave e levanta vôo, lançando-se em Zs que se cruzam com Ss e que parecem tudo menos preocupados com a meta.

os corações também respiram

tem a ver com o jeito como o cabelo te cai sobre os ombros. com as ondas que a tua respiração dispara em direcção ao meu agitado coração e o faz tremer, com aquela força da terra que treme para fazer chocar placas com placas e tectonicamente dar novos pedaços de mundo ao mundo. tem a ver com o teu sorriso, com tudo o que tem o teu sorriso, com a capacidade que o teu sorriso tem de me desarmar. o teu sorriso é como um exército que caça um homem solitário. por mais que ele fuja, por mais que finja que há vales desconhecidos e montes mais altos do que a visão alcança, acaba por ser preso como peixe em rede e saltar como quem quer fugir. mas na verdade aceita a captura. não são dentes, não são lábios, não é língua, é uma orquestra, são todos juntos, afinados, perfeitos, imperfeitos de tão perfeitos, o teu toque como maestro.

copia-se demasiado no mundo. ideias, conceitos, modos de ser, modos de reagir, sorrisos fingidos, fingimentos sorridos, mimo, negações do que já de si negado estava, luas, sóis, luas de sóis, sóis de luas, milagres, folhas caducas, folhas persistentes. palavras, plagiam-se demasiado palavras. porque são quase todas escritas com a ponta dos dedos que vem da cabeça e raramente com os dedos que vêm do coração. quase tudo se plagia. o mais difícil é fazer isso só com o amor. por isso te digo, entre o vermelho do lusco-fusco e o amarelo torrado da manhã, ' plagia o meu amor por ti '.

sexta-feira, fevereiro 01, 2013

nunca deixem de ler o livro só porque sabem que acaba mal

o senso comum (o bom senso, diriam até alguns) descreveria como natural que quando somos abordados na rua por um tipo, de ar mais ou menos suspeito, que começa na hora a declamar um texto treinado sobre todas as suas desgraças e como isso o faz precisar de um ou dois dólares (ou euros ou a unidade do sítio onde estejam a ler isto, sejam criativos, sim?) para voltar para casa/apanhar o autocarro/comprar uma sopa, a resposta imediata seja o habitual 'desculpe, não tenho dinheiro', seguido de um dramático virar de costas e ida à nossa vida.

permitam-me discordar da atitude. permitam-me ainda tentar vender a ideia de que se aprende mais ficando do que partindo (desde que no limite do confortável, não me comecem já a chamar nomes com base em cenários que criam na vossa cabeça, estão muito reactivos hoje, vocês!).

a cantiga do bandido raramente é acompanhada de violência. a cantiga do bandido é o método mais frequentemente usado pelo tipo que precisa de esquemas por algum motivo (e não tendam a achar que é maldade ou ganância, porque às vezes é mesmo fome ou algum tipo de vício dos que moem), mas que não tem em si a maldade inerente para o roubo de esticão ou com armas, a perícia para o carteirismo ou o sangue frio para crimes de maior monta. assim, pelo menos os que são impregnados de alguma dose de criatividade, criam um cenário ou história e tentam dessa forma sensibilizar/enganar quem encontram rua fora.

as taxas de sucesso são variáveis mas cativa-me não só a criatividade como a maior ou menor qualidade de representação do burlão. como sempre tive uma espécie de íman para este tipo de situações não me é assim tão raro passar por uma destas. e durante todo o tempo em que a história se vai desbobinando dou por mim não só a gravar mentalmente todos os detalhes da história como a pensar que o mundo é um lugar terrivelmente injusto, já que há tanto tipo com tão pouca criatividade a ter tempo de antena e espaço mediático e alguns destes pobres diabos (que, sim, o poderão ser por culpa própria, mas na maior parte dos casos o são por culpa da situação em que vivem) andam a desperdiçar os seus talentos entre luvas de dedos rotos, por ruas frias de cidades cinzentas em que os corações são mais difíceis de abrir que uma lata de conserva sem abertura fácil.