segunda-feira, maio 20, 2013

era uma vez

(homenagem ao la fontaine, adoro histórias com animais)

era uma vez, num reino muito muito distante, longe de todos os outros (pelo menos na maioria dos indíces económicos), um sistema em que meia dúzia de gordos mandavam sobre milhares de magros.

os gordos tiveram mais do que tempo para fazer dietas, mas nunca o fizeram. a vontade de comer gerava ainda mais vontade de comer e uma bola de neve fazia-os canibalizar mais magros, um a seguir ao outro. os magros, claro, passavam o dia a trabalhar para alimentar os gordos. por todo o reino gretavam as mãos na terra, suavam o sol na pele, trabalhavam, mais que de sol a sol, de lua a lua, e ainda assim tentavam manter o sorriso de quem está feliz. caíam no erro de acreditar nos gordos, que lhes prometiam mundos e fundos, quando, na verdade, para além de comer os magros, só se sabiam ajudar entre si.

como se isto não fosse suficiente os gordos ainda viviam sob o signo da conspiração. na plena noção do mal que faziam aos magros, no medo constante de perder o seu alimento e as bases que lhes promoviam os adipócitos, viviam na cobardia de não responder a algum magro que os desafiasse e a apagar a tentativa de qualquer magro de saltar fora do caminho que lhe estava estabelecido. em vez de responder à confrontação, escondiam-se por trás da sua própria incapacidade de justificar o que não tem justificação.

cometeram um grave erro, o de não se consciencializarem que os gordos, tal como os magros, não duram para sempre. e que a terra, onde tudo acaba, até agradece ter mais para comer.

quinta-feira, maio 16, 2013

sobre as várias paixões da vida

as primeiras imagens que escorrem nas paredes mais longínquas da minha memória são de fumo de bifanas, cheiro a cerveja entornada pelo chão, mão dada ao meu pai e olhos sempre para cima, curiosos como os meus não sabem deixar de ser, na busca de entender o porquê de tantos homens grandes vestidos de encarnado se dirigirem ao mesmo sítio da cidade ao domingo à tarde.

depois, lembro-me de atravessar a ponte de pedra, de aguardar com paciência na fila para ser revistado, de atravessar as portas de ferro e de me avisarem para ter cuidado com o degrau. de subir intermináveis escadas até finalmente chegar ao cimo daquele amontoado de betão, cimento e ferro. trepar os últimos quatro/cinco degraus e sentir o meu pequeno coração a bater mais forte por saber que se estava a aproximar aquela visão magnífica de todo o estádio que só o terceiro anel permitia.

o contraste de um relvado verde com bancadas impregnadas de vermelho. as torres de iluminação imponentes, a toda a volta. os bancos de pedra corridos. os vendedores de assentos almofadados. os adeptos do mesmo clube em enormes discussões antes, durante e após a partida. depois era procurar um lugar para sentar e absorver todos os detalhes. como em qualquer paixão, o segredo da sua existência está nos detalhes.

está no tipo que levava a águia no braço enquanto dava a volta ao estádio, pedindo aplausos dos vários sectores. está nos vendedores de queijadas e gelados, que os apregoavam como se disso dependesse a sua vida. está nos suspiros colectivos da bola que vai ao poste. está na alegria incontida com que desconhecidos festejam o momento em que um objecto esférico atravessa a linha marcada com cal, como se desde sempre se conhecessem, como se soubessem, de modo cúmplice, quanto custa sofrer por tamanha paixão.

para mim, no caso concreto desta paixão, para me fazer feliz bastam estes detalhes. quem se apaixona sabe viver com os prós e os contras, com as vitórias e com as derrotas, com os picos e com os vales. se não existissem vales, aliás, não seria tão fácil dar valor aos picos.

como em tudo aquilo pelo qual se pode nutrir paixão, há também quem prefira a via do ódio. é um sentimento válido, como outro qualquer, e acredito que uma excelente metodologia para aliviar os restantes problemas da vida ou para combater complexos de pequenez individual ou colectiva. mas o ódio é isso, um tosco quadrado sensaborão, desenhado à volta do que é a paixão de outros.

ao ódio faltam os detalhes, faltam os pequenos prazeres, mesmo até o prazer do sofrimento, porque é um prazer que se quer catapultar para a alegria em vez de um poço sem fundo recheado de desamor.

quem tenha paixões diferentes da minha não tem em mim um inimigo. quando muito tem um competidor. mas um competidor que respeita. não que os rebaixa para estar acima, mas sim que apoia toda a luta que signifique estar acima por mérito próprio.

acima de tudo, no futebol, como na vida, as vitórias e as derrotas dependem mais de cada um de nós e do que investimos no que fazemos, do que de estar à espera do sucesso ou insucesso alheios.

sábado, maio 11, 2013

born slippy

mergulhou em direcção ao desconhecido como quem prefere conhecer a temer o desconhecido. sentiu o corpo tremer por todos os lados, uma espécie de vibração ainda maior do que a que o corpo sente durante um sismo de grau 'muitos' na escala de 'bem pior que richter e mercalli' juntos. lembrou-se que richter lhe fazia lembrar ritter, nomeadamente ritter sport, o de maçapão, ou outro semelhante, do melhor que pode aparecer sob a forma de chocolate servido ao quadrado.

quando a vibração ganhou contornos de normalidade deixou-se finalmente levar pelas cores. só enquanto se mergulha no desconhecido se tem por instantes a percepção de que há mais cores do que oitenta e três arco-íris juntos e de que a vida é pintada como se de um caos de guaches se tratasse. conseguiu distinguir as cores pintadas a lápis, a tinta permanente, a tinta temporária e de todos os outros temperos.

sentiu-se a ver estrelas e teve a certeza de que falavam com ele. que lhe contavam tudo o que havia para saber, desde o início do mundo e da vida até ao fim dos palmieres cobertos numa qualquer pastelaria cinco minutos antes da sua hora de fecho. as estrelas nunca se inibem a responder a toda e qualquer pergunta, por isso mesmo quando questionadas sobre o sentido da vida, sorriram, perguntaram se ele tinha tempo, emitiram três ou quatro cadências universo fora e ficaram ali a explicar-lhe os yins e os yangs durante cerca de quatrocentas e oitenta e três horas, mais coisa menos coisa.

no fim sentiu-se uma espécie de sal mergulhado na água e saiu do desconhecido como quem acaba de acordar despenteado dentro da enciclopédia que é a vida.

quarta-feira, maio 08, 2013

o anti-nihilismo do nihilismo

por muito que haja quem não o entenda é grande a ansiedade de quem renuncia a certas correntes de pensamento e se digna a concordar com outras, naturalmente com as que acreditam mais em não acreditar.

o sofrimento do nihilismo, do ponto de vista do equilíbrio moral, é mais intenso do que a raiva de um diabo da tasmânia fechado num quarto sem carne para comer. as voltas na cama não são combatidas com conversas feitas de mãos unidas. os sofrimentos pelos que se ama não são combatidos com mais um furo de aperto no cilício. a expiação dos males não é feita sacrificando um aleatório indivíduo para dentro de um vulcão.

nos momentos em que é suposto fazer força por algo ou alguém, o nihilista vive o drama do astronauta em gravidade zero. tem a liberdade de escolher o que fazer da ausência mas a sensação de que pouco importa o que pode ou quer fazer do vazio. não regride e não desiste, mas não avança e não conclui.

resta a crença no ponto zero. ou a não crença. a lembrança do trivial, do aleatório, de moléculas em choque, do conhecimento, do não nihilismo temporário sarapintado sob a forma de ciência.

e esperar que o sono chegue, que os lençóis deixem de parecer ser de uma cama de faquir e que a manhã traga novas estrelas que dancem e nos mantenha as outras, que nos ajudam a manter o rumo, se é que ele existe. por definição.

quarta-feira, maio 01, 2013

meio limão meio homem

estive no outro dia à conversa com uma metade de limão e aprendi imenso sobre a vida.

estava sentado muito bem no jardim, perdido nas intermináveis cores do pôr-do-sol, quando vejo que, como quem não quer a coisa, meio limão se senta a dois metros de mim. estranho, o jardim estava vazio.

percebi logo que queria meter conversa. tinha aquele nervosismo típico de quem vira o olhar de repente para outro lado quando vocês olham naquela direcção, denotando a ausência de um plano de disfarce. sorri e acenei e vi logo que o meio limão interpretou o gesto como se eu fosse porteiro de discoteca e tivesse acabado de abençoar a sua ultrapassagem à longa fila de desesperados clientes.

titubeou na minha direcção, como se fosse meio ananás e não meio limão, que os limões rebolam, não têm dessas dificuldades técnicas.

"veja lá se não tenho aqui um caroço". fiquei estupefacto com o atrevimento do citrino mas lá abri uma excepção e fiz um biscate fora de horas. expliquei a naturalidade da coisa e comecei a descrever o ciclo reprodutivo do limão. ele pareceu extremamente interessado e ao fim de cinco de minutos interrompeu-me o discurso para perguntar quantas canas de açúcar seriam necessárias para fazer uma jangada e se passássemos a língua nessa jangada se seria doce. voltei a usar um tom professoral para lhe impingir a minha convicção de que os limões não têm sequer papilas gustativas e que no caso dele nem meias papilas eu avistava.

ficou fulo. espichou sumo por todos os lados e foi-se embora irritadíssimo. não irritem meios limões, são tipos estranhos.