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o anti-nihilismo do nihilismo

por muito que haja quem não o entenda é grande a ansiedade de quem renuncia a certas correntes de pensamento e se digna a concordar com outras, naturalmente com as que acreditam mais em não acreditar.

o sofrimento do nihilismo, do ponto de vista do equilíbrio moral, é mais intenso do que a raiva de um diabo da tasmânia fechado num quarto sem carne para comer. as voltas na cama não são combatidas com conversas feitas de mãos unidas. os sofrimentos pelos que se ama não são combatidos com mais um furo de aperto no cilício. a expiação dos males não é feita sacrificando um aleatório indivíduo para dentro de um vulcão.

nos momentos em que é suposto fazer força por algo ou alguém, o nihilista vive o drama do astronauta em gravidade zero. tem a liberdade de escolher o que fazer da ausência mas a sensação de que pouco importa o que pode ou quer fazer do vazio. não regride e não desiste, mas não avança e não conclui.

resta a crença no ponto zero. ou a não crença. a lembrança do trivial, do aleatório, de moléculas em choque, do conhecimento, do não nihilismo temporário sarapintado sob a forma de ciência.

e esperar que o sono chegue, que os lençóis deixem de parecer ser de uma cama de faquir e que a manhã traga novas estrelas que dancem e nos mantenha as outras, que nos ajudam a manter o rumo, se é que ele existe. por definição.

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