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o trânsito de vénus

sempre gostei muito de vénus. do modo como se insinua no fim das tardes de verão. da sua mania de fingir que é meio estrela, meio satélite, deixando todos à nora quanto à sua real vida como planeta. é um planeta tão audaz que até tem coragem de passar entre a terra e o sol e deixar milhões parados a vê-lo passar, como se fosse uma espécie de visita papal sideral (não que eu me desvie do meu caminho para ir ver o papa, entenda-se).

olhar para meio mundo a, literalmente, "ver vénus passar", fez-me pensar como o ser humano continua magicamente centrado nos fenómenos que não compreende muito bem. por mais interpretação que a astronomia hoje ofereça, a noite em que há chuvas de estrelas, os famigerados eclipses ou estes pequenos brindes cosmico-planetários, são recebidos com a mesma admiração com que os aztecas, os egípcios ou os homens das cavernas olhavam para eles.

é também curioso que a atitude não se estenda a outros fenómenos cujo conteúdo as pessoas desconhecem. na ciência, por exemplo, há o potencial para um igual maravilhamento. o problema é que nos fenómenos não-cósmicos há mais a mania de toda a gente achar que percebe do assunto. e que tem uma opinião. e que pode e sabe e quer discutir o assunto. preferia que olhassem para certos resultados da ciência como se de um meteorito em iminente entrada na atmosfera se tratasse. não há problema em não se saber tudo. o problema só aparece quando se quer fingir que sim.

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