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a alegoria da taberna

estávamos caídos num silêncio nu. perdidos entre o grau de um qualquer abafado que deslizou pelo tubo que serve para alimentar e o fumo intenso do tabaco perdido, antes fora mascado. nas paredes memórias antigas, esquissos de noites melhores, sinais de noites piores, palavras toscas riscadas toscamente, figuras de estilo que o eram sem o ser.

pedimos mais um. e mais outro. e depois ainda mais outro. ficámos sentados no êxtase de quem vê o mundo à sua frente. vimos romanos, fenícios, vândalos, lábios, olhos, outros lábios, promessas, desastres, confidências e pecados. éramos ali, todas as noites (e algumas noites ate' chegaram a ser dias) confidentes de um mundo que ali passava. com um gesto pacífico mandávamos seguir. ouvíamos outro. e mais outro. a confissão da vida sem um castigo no retorno. sem obrigações de penitência. pelo preço de um sorriso.

um dia um de nós decidiu levantar o seu corpo torpe e cambalear ate' à porta da rua. escalou os dois degraus, a porta de madeira gasta e arrastou-se pela calçada. voltou um dia depois. tinha visto um outro mundo. toda uma nova maravilha. falou-nos de malabaristas, de castelos, de monstros estranhos com trela e com guizo, de máquinas que transportavam pessoas e tinham uma espécie de rodas, de fumo, de nevoeiro, de tanta coisa... queria convencer-nos a acordar e de uma vez ir e conhecer.

rimo-nos quase em uníssono. que nevoeiro mais perfeito que aquele que os nossos olhos tinham permanentemente? para quê ver castelos, quando o baralho de cartas que ali tínhamos construía um em segundos? os malabarismos estavam por conta do empregado quando pedíamos mais um copo. e monstros estranhos éramos todos nós. uns com mais trela que os outros. felizes e inebriados na felicidade de quem vê o mundo la' de fora sem ter que escalar os dois degraus e atravessar a porta de madeira gasta.



(picture by me)

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