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Mensagens

inversão

o sol entrava decidido pelas frestas das persianas, teimando em desenhar sombras chinesas, exércitos de luz, outrora de terracota, agora de claridade. enquanto os fotões traziam a imaginação à parede, a minha mente andava perdida por outros mundos, a anos-luz de distância. era como se fosse hoje. entrei pela porta verde, com as letras pintadas a branco, de fresco, fiquei até com um ou dois dedos sarapintados, e as teias de aranha faziam adivinhar que do lado de lá se encontrava um tesouro daqueles que demoram séculos a descobrir. o baú tinha um código, mas era fácil de descobrir, 083, era estranhamente evidente. enquanto rodei a combinação, senti um largo sorriso no escuro, atrás de mim. por segundos tive a certeza de ter por perto o gato da alice. só que este país tinha poucas maravilhas e a pressa era muita para chegar ao conteúdo do cofre. sacudido o pó, e ultrapassado o ataque de tosse da praxe, vi por fim a garrafa e o líquido túrbido no seu interior. tinha cor de ser vítima ...

a vida tem muito de tomb raider

a lebre saiu disparada de tal forma que era quase garantido que ia bater recordes. superou-se com os gritos vindos das bancadas, com o bruá de satisfação de todos os espectadores, com a espectacularidade do seu avanço. a lebre chegou primeiro a quase tudo. na vida, como nas corridas de animais em fábulas, há tendência a ligar o sucesso (pessoal, profissional, o que vocês quiserem-al) ao imediatismo com que a ele se chega. o ' depressa e bem há pouco quem ' passou de moda numa época em que o foco em qualquer assunto ou objecto dura segundos e a pressa se entrelaça com fios de stress ao longo de qualquer dia da semana. não vale a pena. somos crianças com pressa de chegar a adultos, para depois vir a pressa de ser adultos mais completos, de acelerar em direcção a um sucesso que muitas vezes não parámos sequer para definir ou entender. hipotecamos o presente em função de um futuro que será ele também um presente hipotecado. a menos que paremos a espaços, que nos sentemos n...

visto isto

estou maravilhado com a ideia de atribuir vistos gold para viver e trabalhar em portugal a tudo o que é talento e artista e investigador e não sei quê. os meus olhos ficam irrigados de lágrimas só de imaginar o influxo de actores birmaneses, cientistas norte-coreanos e anões polinésios, que de repente vão dar outros mundos ao mundo nesse rectângulo onde todos querem habitar. custa-me que os vistos gold fiquem por aqui. deviam ser estendidos a mais actividades e mesmo aos animais (os de quatro patas). é enternecedor imaginar a beleza de elefantes quenianos a andar livremente pelos arredores de arraiolos, anacondas felizes em alcochete e gorilas gaboneses em êxtase no vimioso. por outro lado, lembrei-me de repente de um livro muito jeitoso do tio patinhas, onde vinha a dizer que "nem tudo o que luz é ouro". espero que quem se vai atirar de cabeça aos vistos não fosse adepto na infância de ler bonecos da disney, ou ainda acabam a ter de fazer um downgrade dos vistos pa...

congelados

congelaram primeiro umas poças de água manhosas que estavam ali à saída do restaurante chinês. depois congelou a berma da estrada, catapultou-se o lago dos patos e logo se seguiu o lago que se vê do céu. dos satélites. da lua, com uns bons binóculos ou com um telescópio daqueles que eu queria sempre pelo natal. quando dei por mim estavam esculturas de gelo penduradas em ramos de árvore. o artista não recebeu comissão, trabalha barato e mais por vontade própria do que por necessidade de fama. dei a volta ao quarteirão para procurar a bilheteira, porque sou inimigo de entrar à socapa, mas não encontrei quem cobrasse a entrada. só um esquilo, pendurado num cabo da luz, a olhar para mim enquanto trincava uma bolota. fiquei um bocado a pensar no que é que ele estaria a pensar de toda esta cena, porque sei que os esquilos são animais bastante pensadores. mas os olhos dele estavam no horizonte e tinha um ar sonhador, o que me fez duvidar da legalidade daquela bolota. mergulhei os pés...

grande falha, mas vou a tempo de corrigir .

num escândalo dos mais graves que a humanidade jamais viu, esqueci-me de registar aqui a data exacta do aniversário dos dez anos deste vosso humilde blog que vos serve. eis o post original de 11 de janeiro de 2004 muita água passou debaixo da ponte desde então e ainda mais sangue passou pelo meu (e pelo vosso) coração. é incrível o quanto a minha vida mudou de 2004 para 2014 e as diferenças de rumo que entretanto se verificaram. não só na minha vida como no tom da escrita do próprio blog. essa incerteza da vida é provavelmente um dos seus mais belos motores. apesar de a regularidade andar mais baixa do que o fundo da fossa das marianas, vou continuar a exercer o meu direito de tentar continuar a ser "oranginal", now and then, e agradeço a todos os que por aqui têm passado e me têm lido ao longo destes dez anos. continuem a aparecer, são todos bem-vindos e não há consumo mínimo.

ondas

o som das frestas meio abertas nunca me impressionou grande coisa. cheirava a pôr-do-sol e às ondas dos teus cabelos, enquanto as outras ondas saíam da rádio e o maurice chevalier cantava sobre rouxinóis e o amor. depois continuava num tom mais lento a falar sobre o mesmo tema. os rouxinóis esvoaçavam pela luz ténue e ríamos de alegria ao lembrar o dia em que a televisão voou janela fora e o tempo entrou feito tornado janela dentro. baptizámos o barco com a garrafa de veuve, sem acelerar o passo, a ver as nuvens esperar pacientemente. lembras-te como as nuvens se vão juntando a pouco e pouco, fingindo que são formigas num carreiro, meio confusas sobre a altura certa para atirar baldes de água cá para baixo? já longe da costa, perto do nada, mas como quem vai a sair para o tudo, ficámos a ver chover e atirámos os remos na direcção da água. decidimos que o acaso ia decidir onde o barco ia parar, adorávamos fazer de conta que éramos uma gigante mensagem-numa-garrafa. que fazia se...

décadas

lembro-me bem que, por circunstâncias variadas da vida, aos dez anos tinha uma ideia clara (por mais estranho que possa parecer) do que queria ser e de onde queria estar aos vinte anos. com toda a dificuldade que uma previsão dessas implica, o engraçado é que aos vinte anos estava quase por completo nesse plano imaginado ou idealizado dez anos antes. chegado aos vinte (assim até parece que só penso o que quero fazer da vida de dez em dez anos, eu sei) voltei a fazer o exercício de tentar perceber onde queria estar dez anos depois. desta vez acho que falhei redondamente e a vida encarregou-se de me ensinar que quanto mais se cresce, pessoal e profissionalmente, mais difícil se torna tentar domar o nosso destino e muito mais factores entram em jogo do que no conforto e linearidade da infância e da adolescência. porque esses tempos são fundamentais na formação da personalidade, sem dúvida, e têm, como é amplamente descrito mundo fora, vários períodos de turbulência e de ultrapass...