Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

arrefecimento global

Primeiro era o verbo, mas o  verbo insistiu vezes demasiadas, martelando tanto o complemento directo, que o sujeito não se quis mais sujeitar ao que quer que fosse. As veias secaram, sobretudo as pequenas, mas depois as médias e, por fim, as grandes, e todo o coração ficou chupado, parecia uma espécie de figo deixado ao sol durante oitenta e três anos e meio.  As raízes ainda se aguentaram uns tempos. Eram regadas todos os dias com uma mistela de amor e carinho que, nos casos certos, chega para suportar uma árvore, mesmo podre, durante anos a fio. No entanto, nem sequer no escuro do chão se aguenta tudo. Uma a uma, saíram e rastejaram em direcção a um ribeiro que passava ali perto, mas não se enraizaram o suficiente e um sapo que ia a passar de bicicleta acabou com o seu sofrimento de vez. Era um império falso, por isso pouca diferença fazia quem atropelava quem. O sapo seguiu os outros sapos, era um sapal que fazia jus ao nome. Deram todos as mãos, ...

vocês sabem lá

pena que o netflix tenha uma escolha tão vasta mas não haja por lá um filme, série ou documentário que nos encaminhe para a essência da vida.  sim, há quem possa argumentar que está por lá a marie kondo a ensinar a arrumar gavetas como deve ser e mais uma série de gatos pingados a ensinar a descobrir uma casa ou um destino de férias de sonho, tudo por uma bagatela, basta oferecer de volta a dignidade.  no passado, os vendedores de sonhos andavam de terra em terra, paravam nas feiras, tinham pequenas garrafas cheias de elixir da eterna juventude, dentes de dragão, vesículas de gambozino, tudo e um par de botas para melhorar a vida. a alguém com inteligência acima da média disparava logo o alarme da charlatanice e os vendedores de ilusões eram corridos a pontapé ou encaminhados para fora dali por uma matilha de pouco amigáveis canídeos.  agora vender sonhos é chique e fácil. basta fazer upload de pratos com saturação acima da média, de imagens em espelho de ...

papel, pedra e tesoura

há meses que ando a tentar jogar ao papel, pedra e tesoura  no central park e o meu sucesso tem sido perto de zero. só tenho sido feliz na parte da pedra, já as encontrei de v ariados tamanhos e feitios, guardei-as todas para um dia fazer um castelo e  destruí um dedo mindinho entre dois seixos mais atrevidos, mas valeu a pena. o papel tem muito que se lhe diga. acho que de início entendi mal,  andei à procura do papel junto de qualquer pessoa que tivesse ar de  vir a sair da broadway. um actor muito simpático recomendou-me um  psiquiatra seu amigo e duas actrizes pouco sorridentes fugiram de mim c omo se tivesem visto a peste negra. de todos os três, a tesoura é o maior desafio. já encontrei uma de  podar, caída no relvado, mas um dobermann com ar ameaçador ladrou  mais alto que a minha vontade de aventuras.  ainda pensei trocar o jogo pelo xadrez, mas rapidamente desisti,  eram ainda mais peças para encontrar. resolvi apostar em act...

parece que foi ontem

parece que foi ontem, que os dedos abriam as páginas do atlas ao acaso e decidiam os adversários do próximo jogo, sim, desta vez pode ser um escaldante bahamas contra gronelândia, ficando tudo a jeito para essas partidas em que um só jogador fazia de vinte e dois e criava a complexa dinâmica de rematar à baliza e defender o remate ao mesmo tempo. parece que foi ontem, que adormecer era complicado, o calor, que nem a brisa do rio acalmava, entrava pela alma, e para dissuadi-lo brincavam os pés pelo enrugado das paredes, ó deus, quem se lembraria de inventar paredes rugosas e achar que isso tinha tudo para correr bem. parece que foi ontem, a vida era muito só isso, o intervalo entre campainhas, o duelo entre livros devorados e roupas suadas com tanto futebol de intervalo, as aventuras em autocarros apinhados de gente, os desafios de fazer uma chave de casa rodar, porque isso é tão difícil e pertence ao mundo dos grandes. parece que foi ontem e de repente é hoje. de repente os atlas...

uma ou outra vez

uma vez escrevi um livro. outra vez também. mas cansei-me das duas vezes ao fim de dez páginas e eles morreram tragicamente antes da idade. pensar dá muito trabalho e consome demasiada energia. fazer de deus, criar personagens do nada, espirrar mapas com linhas que não existem, adormecer a delinear horizontes e perder o autocarro por causa da árvore que tinha de ficar mesmo no meio do vale e se perdeu no caminho até lá e agora estão os corvos todos a reclamar e toda a gente sabe que os corvos quando reclamam fazem um chinfrim e que as vírgulas caíram todas na descida da montanha e agora para as encontrar é um castigo que nem vos digo. é mais fácil não pensar. molhar só as mãos em tinta, abrir cem a duzentas páginas e molhar as filhas da celulose com uma coisa qualquer. não são palavras a dançar o tango umas com as outras. não são letras a saltar do céu num pára-quedas cor de arco-íris. mas isso não importa ou pouco importa. dá na mesma para pôr uma capa, esconder debaixo do braço e des...

fora da bolha

fechou a porta da bolha com uma mão, enquanto a outra mão apertava o nariz para tentar não desmaiar com o cheiro nauseabundo . as paredes da bolha tinham rachas de cima a baixo, o tecto da bolha, todo de vidro, parecia ser feito de chapa de zinco, tamanha a sujidade que o inundava . fora da bolha tudo era melhor, sentia-se uma rainha . depois de passar pelo banho dado na lavagem automática, explorada por um grupo de gambozinos obsessivo-compulsivos, chegava ao mundo lá fora pronta a reinar . cumprimentava reis à esquerda, príncipes à direita, toda a gente lhe perguntava a sua opinião, queria ver a sua aprovação, procurar o calor das suas palavras, almejar a, sei lá, quem sabe, até, talvez um dia, poder fazer parte do seu círculo fechado de amizades . corria as várias capelinhas, tinha opinião sobre tudo e todos e tudo e todos tinham ouvidos para a sua opinião . desinformada, cheia de musgo, superficial, mas na sua parca inteligência tinha percebido há bastante tempo que no mundo de h...

quando me falta o ar

sei que ainda não sabes, porque ainda não tens idade para saber, mas há mais de trinta anos que me questiono sobre o que é a felicidade e como encontrar o mapa para lá chegar . procurei nos bancos de jardim, nos bancos da faculdade, desde casa até ao outro lado do mundo, de polo a polo, e nunca encontrei quem a conseguisse definir para mim nem quem soubesse que travessas tens de cruzar para dar de caras com o tal mapa .  sempre me pareceu que provavelmente a vais encontrar nas pequenas coisas, mais do que nas grandes . vais deparar com um mundo em que cada vez menos se liga ao que quer que seja e que se acha que ter é ser, que ter é saber, ignorando que um sorriso vale mais que estofos de pele e mãos entrelaçadas ao pôr-do-sol batem um relógio que reage ao toque e fala contigo .  soube finalmente há vinte e seis dias o que é a verdadeira felicidade e sei desde há vinte seis dias o que é verdadeiramente o medo . nunca pensei ir descobrir o que eram ambos quase ao mesmo te...