quarta-feira, julho 16, 2014

meio vivo meio alive

quis a coincidência das datas da minha passagem anual por terras lusas que este ano eu conseguisse ir ao alive. é melhor chamar-lhe só "alive" que a confusão entre optimus e nos ainda gera alguma guerra civil.

tenho dificuldade em definir o meu festival favorito em portugal, porque todos têm coisas que me agradam. o sudoeste é imbatível na localização em plena costa vicentina, o super bock super rock costuma ter dos meus cartazes favoritos e também tem a praia do meco por perto, e o alive tem uma localização também ela fantástica, que permite fazer vida de lisboa durante o dia e no pos-festival, e assistir a uma data de concertos com vista para o tejo.

sendo que estes festivais são para todas as idades, uma boa forma de não irem para lá a sentir que são velhos é irem vestidos de uma forma que não vos faça parecer velhos. no primeiro dia, por circunstância de outras voltas, fui para algés de camisa branca, com ar de pai, e na fila de entrada para o festival perguntava-me se havia alguém que não achasse que estava a entrar ali apenas para ir vigiar os meus filhos. nada de grave, porque o barulho das luzes tudo disfarça.

antes de entrar consegui passar por turista tonto, já que passei meia hora numa fila para levantar o bilhete que não era a minha, para depois finalmente perceber que nem tinha de ficar em fila nenhuma, e que a pulseira só se trocava do lado de dentro. quase me senti impelido a dizer "ah, desculpe, vocês os jovens é que percebem destas coisas", mas acabei por apenas sorrir e me deslocar na direcção das massas, de orelhas baixas.

assim que entrei dei de caras com o melhor que os festivais têm, as pessoas. por muito que adore música, se não fosse pelos amigos os festivais não valiam nem 30% do que valem. estudos mostram. se não mostram, deviam mostrar.

os concertos variaram entre bons, muito bons e ligeiramente desapontantes. dos lumineers só conhecia a música de pôr os escravos a remar nos barcos, mas o concerto foi agradável, no registo fim de tarde em nashville. os imagine dragons deram um bom concerto, embora também só reconheça as músicas que são usadas em anúncios de televisão ou jogos de computador. finalmente chegaram os arctic monkeys, bons que dói, mas com um concerto curtinho, muito automatizado, e a deixar algo a desejar. ainda assim muito bons, don't get me wrong, a fasquia é que está sempre elevada para o alex e companhia. ah, e ninguém começa um concerto com a sua música mais conhecida. diz na bíblia e é verdade.

no segundo dia entrei no recinto a uma hora em que parecia estar a ser congeminada uma revolução política no palco principal. depois lá entraram os MGMT, com alguns problemas de som, mas quem tem o kids tem tudo. finalmente chegaram os meus vizinhos do ohio, os black keys, que, apesar do último album não ser grande espingarda, conseguiram dar um óptimo concerto, porque têm "homens de palco" escrito na testa. melhor do que o concerto só gente estranha a fazer mosh pits num concerto de black keys. eu sei que eles têm "black" no nome, mas é preciso beber uma quantidade considerável de álcool para confundir "keys" com "sabath". o mesmo grupo do mosh pit pôs-se a tentar criar pirâmides humanas com várias camadas, o que me faz pensar que deram com a data errada e acharam que estava ali instalado no passeio marítimo de algés o cirque du soleil. ainda fugi do circo para ir dizer um olá às minhas au revoir simone, mas logo me voltei a encontrar perdendo-me.

não me vou alongar muito mais, que já devem ter desistido de ler no segundo parágrafo, mas de resto o festival teve aquilo que sempre tem, entre cerveja, comida, ouvidos a zunir e coisas que tais. acima disso tudo, sempre as pessoas. os reencontros, os encontros, os bonecos insufláveis que distraem, as luas cheias que distraem, as cinturas que distraem, um festival tem tanto a acontecer que a atenção é fortemente testada. mas deixem-se ir na onda e o mais provável é conseguirem sair de lá mais felizes do que entraram.


1 comentário:

a ortónima disse...

Tento ir a, pelo menos, um festival por ano. Uma espécie de ritual higiénico. E, de ano para ano, sinto-me envelhecer não nas filas, nas roupas, nos rostos, mas nalguma intolerância ao meio em redor: as conversas das pessoas à minha volta, que me impedem de absorver as músicas por inteiro; os atropelos, ultrapassagens, acotevelamentos, nas filas de comida/bebida; demorar que tempos para sair do recinto, para voltar a casa; a publicidade imposta em brindes que dispersam a atenção dos presentes, tapam a vista a quem está atrás (chapéus e cilindros com luz foram a moda do SBSR 2014); a sobreposição de horários, que me impede de ver os concertos de que mais gosto por inteiro. E, depois, as dores nas costas, nos pés, nas pernas, nos ombros. Todos os anos acho que é a última vez que vou a um festival. Acabou-se!, já não há paciência!

Mas volto sempre. Porque há sempre música nova para descobrir e outras conhecidas para reencontrar; os amigos para nos acompanharem; os rostos novos, os estilos, as excentricidades, que funcionam como lufada de ar fresco.

Acho que estas coisas nos fazem crescer. Afinal, ainda estou longe de ser velha...