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Mensagens

o prom(etido) é devido

escorrem-lhe pingos de suor da amostra de barba, pelo pescoço, inundando de pequenas poças de nervosismo o colarinho da camisa. as borbulhas mal escondidas que brotam do rosto são como o sinal de proibição de entrada do lado de fora de uma base militar. sendo que o papel de prevaricador é aqui representado pela maturidade. as mangas do casaco descem por um corpo menos comprido do que elas, a gravata foi escolhida segundo critérios que apenas fazem sentido numa cultura que premeia a mistura selvagem de tons, a ombreira do lado esquerdo está suja de branco, de uma qualquer parede por onde se arrastou no processo.  ela tem a pose mais confiante de quem se acha princesa, nem que seja por uma noite, entalada num vestido feito para cinturas de abelha e não de zangão, ajeitando o seu cabelo arranjado horas a fio numa cabeleireira influenciada por anos e anos de visualização do dirty dancing e do grease. sorri para o seu príncipe. sabem ambos que são sapos, mas nesta noite são muito mais...

o dow jones e não sei quê

' compras-me um bilhete de autocarro? ' ' para onde vais? ' ' tanto me faz, só preciso de ir lá para dentro porque tem aquecimento. ' uma coisa terrível. este ano não podemos ir de férias para a riviera maya. isto da crise deixa-nos de rastos. é trabalhar, trabalhar, trabalhar e nem temos tempo para aproveitar esta vida tão curta. ainda no outro dia o meu mais novo me pediu este novo ipad mini e eu 'ó filho, ó filho', lá lhe tive de explicar que a altura não está fácil para ninguém e que tinha de continuar a brincar com o ipad antigo. claro que lhes custa. os colegas todos têm um novo e eles nada. os colegas continuam a ir de férias para as caraíbas, ilhas caimão ou que é, parece que o pai aproveita para ir lá ver de umas contas, e que anda muito ansioso com o destino que o dinheiro anda a levar. mas é uma maçada. ando sem cabeça para nada. tive de ir pôr o mercedes à revisão e fiquei três dias sem carro. andei de metro e vi que as pessoas andam mesm...

diz ' tração '

cansei-me dos textos direitinhos porque estava imenso vento e não tinha mais forças para lutar. o coelho gigante cor-de-rosa estava mais do que de acordo comigo. achei um bocado estranha aquela atitude dele de não parar de se rir a cada pessoa que passava junto de nós no banco de jardim. levantei uma das minhas sobrancelhas num gesto quase digno de ser premiado com um óscar e perguntei-lhe o que tinha assim tanta piada. justificou-se durante uns cinco minutos. dos primeiros quatro minutos não vos consigo dizer grande coisa porque estava a dar trincadelas em cenouras gigantes e a mastigá-las enquanto falava. além de ser um gesto de pouca educação, dificulta consideravelmente que quem está a ouvir um coelho gigante consiga entender patavina do que ele está para ali a dizer. no último minuto (entre o final do quarto e o final do quinto minuto, portanto) explicou-me que as pessoas eram todas muito parecidas e que isso lhe dava imensa vontade de rir. parece que na outra dimensão, onde...

ficamos à rasca sem metas

quem subiu à montanha mais alta? quem o conseguiu no menor tempo possível? quem o fez com as botas mais leves? qual o homem que foi até ao mais profundo que da terra se consegue alcançar? quem descobriu o caminho marítimo para a índia? temos um vício maior em estabelecer metas do que algumas estrelas do rock em pó de cores claras. a verdade é que dependemos do conforto de, pelo menos, saber para onde vamos. se o vasco da gama dissesse que ia só ao deus dará ninguém lhe financiava a viagem. se o joão garcia dissesse que queria subir até meio do evereste não havia cá bancos nem publicidades. o mesmo para tudo o resto. sem meta não há tanto lucro em fama. por isso subimos. por isso descemos. por isso tentamos ir mais alto do que já se foi e mais fundo do que alguém alguma vez possa ter imaginado. cilindramos o tempo na tentativa do mais, do maior, do que está para lá do que há e não paramos nem microsegundos para apreciar o que está entre o ponto de arranque e a meta. depo...

os corações também respiram

tem a ver com o jeito como o cabelo te cai sobre os ombros. com as ondas que a tua respiração dispara em direcção ao meu agitado coração e o faz tremer, com aquela força da terra que treme para fazer chocar placas com placas e tectonicamente dar novos pedaços de mundo ao mundo. tem a ver com o teu sorriso, com tudo o que tem o teu sorriso, com a capacidade que o teu sorriso tem de me desarmar. o teu sorriso é como um exército que caça um homem solitário. por mais que ele fuja, por mais que finja que há vales desconhecidos e montes mais altos do que a visão alcança, acaba por ser preso como peixe em rede e saltar como quem quer fugir. mas na verdade aceita a captura. não são dentes, não são lábios, não é língua, é uma orquestra, são todos juntos, afinados, perfeitos, imperfeitos de tão perfeitos, o teu toque como maestro. copia-se demasiado no mundo. ideias, conceitos, modos de ser, modos de reagir, sorrisos fingidos, fingimentos sorridos, mimo, negações do que já de si negado estava,...

nunca deixem de ler o livro só porque sabem que acaba mal

o senso comum (o bom senso, diriam até alguns) descreveria como natural que quando somos abordados na rua por um tipo, de ar mais ou menos suspeito, que começa na hora a declamar um texto treinado sobre todas as suas desgraças e como isso o faz precisar de um ou dois dólares (ou euros ou a unidade do sítio onde estejam a ler isto, sejam criativos, sim?) para voltar para casa/apanhar o autocarro/comprar uma sopa, a resposta imediata seja o habitual 'desculpe, não tenho dinheiro', seguido de um dramático virar de costas e ida à nossa vida. permitam-me discordar da atitude. permitam-me ainda tentar vender a ideia de que se aprende mais ficando do que partindo (desde que no limite do confortável, não me comecem já a chamar nomes com base em cenários que criam na vossa cabeça, estão muito reactivos hoje, vocês!). a cantiga do bandido raramente é acompanhada de violência. a cantiga do bandido é o método mais frequentemente usado pelo tipo que precisa de esquemas por algum motivo ...

o óptimo ser inimigo do bom

há um conforto quase uterino em se fazer aquilo que se é suposto fazer. seguir as linhas da vida como elas foram traçadas, tentar continuar gerações seguindo o que vem de cima, num ritmo igual ou melhor, e continuar gerações abaixo, trazendo ao mundo quem repita o quadro. com raras excepções é essa a vida que quase todos levamos, autómatos do carrossel em que nos puseram, com uma pseudovontade de mudar, escondida por trás do conforto de em vez disso simplesmente ficar. o risco é uma aversão aos nossos genes. fica bem assumir que se arrisca. é romântico afirmar que se mergulha de cabeça numa qualquer montanha russa ou que se muda a vida num segundo como se ela própria de uma montanha russa se tratasse. mas quase sempre esse é um risco calculado. o nosso calculismo não é diferente do do leopardo que persegue a sua presa ou do do elefante que se move em manada. a nossa tão brilhante (semi-ironia) razão até adensa a complexidade desse calculismo. depois há o salto no escuro. há a vonta...