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Mensagens

filetes de coerência com arroz de insight

embora não seja difícil parar para pensar, há muita gente que recusa parar. e ainda mais gente que recusa pensar. uma das principais especialidades desse ser cheio de funções superiores, que é o humano, é perder a coerência de opiniões e pensamentos ao sabor do vento (na verdade é ao sabor do que lhe dá jeito, mas o vento é uma metáfora metricamente muito mais lindinha).  custa pouco apontar erros nas atitudes dos outros, ridicularizar pessoas ou elaborar peças dramáticas sobre falhas alheias. o mal não é esse. a crítica faz parte da vida. a crítica faz parte da inteligência. o que é mau, e quem é mau ou faz mal, deve ser criticado até ao ponto em que se faça justiça (vamos fingir que isso é algo passível de acontecer. spoiler: não é).  o problema surge quando quem critica tem atitudes que são o perfeito espelho daquilo ou daqueles que critica. nem é a velha teoria do exemplo. é mesmo uma questão de coerência e de conforto com os padrões de ética e moral de cada um ...

somos como legos, mas não é suposto ser só do pescoço para baixo .

as pessoas acham sempre que vão chegar ao encaixe das almas só através do encaixe dos corpos. se é verdade que os instintos que nos movem são na sua base animalescos e primitivos, também é verdade que aprendemo, uns melhor que outros, ao longo do tempo, a controlar esses instintos e a canalizar toda a energia que daí provém para vários fins. quem pretende fazer casas com sólidas traves de aço e um telhado muito bonito mas se esquece, entretanto, que as paredes e a decoração também fazem parte do pacote completo, corre o risco de acabar como ermita solitário, sentado no perene cimento de uma casa desabitada, onde tudo podia morar mas nada mora. tanto o calor como o frio me trazem de volta a percepção da perda generalizada do momento, por estes dias que correm. a pressa de chegar não sabemos ainda bem onde tem tendência a roubar-nos a capacidade de criar polaroids com os olhos, e de manter preso no pensamento o momento em que lentamente removemos aquela migalha que ficou presa no can...

porque a vida também é parvoíce .

aqui vai uma dose consistente de parvoíce através das minhas criações para o Salão Neurótico . "ONU" "a amiga alga" "anjelica houston" "ases pelos ares" "atingir os nirvana" "o cacto das botas" "cair o carmo e a trindade" (ideia da Sara Bettencourt) "chet baker" "chuchar expresso" "dodge viper" "hashtag" "icy dead people" "justin beaver" "khalid bolo-de-arroz" "kim kong" "los angeles leicas" "luís filipe vieira" "olavo bivaque" "ovnibeja" "paco bandeira" "passas para mim no rossio" "pente house" (ideia da Sara Bettencourt) "roll...

nevoeiros feitos saunas

a nossa mania de olhar para as coisas sem ser do tamanho que são deixa-nos sempre no limiar do risco de não conseguir ver tudo o que elas comportam. aos nossos olhos o nevoeiro são apenas nuvens que decidiram ser um pouco mais pesadas e assentar sobre a terra como uma camada de chantilly se acomoda num bolo, toldando o caminho, dificultando a distância, humidificando o pensamento e as ideias. tenho para mim que o nevoeiro é um método de concentração. grita por todas as gotas "concentrem-se, vá, não olhem lá para o fundo que não dá para ver. hoje é para olhar para esse canteiro aí ao pé e dar atenção às joaninhas a trepar plantas". diz a tradição popular que se sonha mais quando há nevoeiro. diz a minha experiência que isso é bem capaz de ser verdade. diz a minha imaginação que isso faz todo o sentido, desde que se assuma que as moléculas de água são óptimos vagões de transporte de sonho e que, em dias de nevoeiro, a linha de caminhos de ferro dos sonhos se encontra em tod...

mil folhas

a leitura é um hábito que se cultiva desde quase tão cedo como aquele outro hábito que envolve o diafragma e os pulmões, o que serve para manter as funções vitais em forma. já se inventaram muitas formas de arte e expressão cultural, e várias dessas têm em mim um fã acérrimo e um eterno seguidor. mas nada ultrapassa o etéreo de paixão que de um livro pode brotar. um livro trata-se como se de uma relação apaixonada se tratasse. olha-se de longe, chama a atenção, aproximamo-nos pé ante pé, a primeira vista transforma-se no primeiro cheiro, no primeiro manusear. a tinta das letras olha para nós com olhos de piedade, emanando "compra-me" por todos os poros da folha de papel. olhos que são de treta, porque sabem bem que no que separa capa de contra-capa se encontra um turbilhão de vida, um vértice de histórias, uma lupa para vidas e mais vidas e tempos e mais tempos. ninguém é obrigado a ler. eu acredito no livre arbítrio. mas quem não se conseguir apaixonar por um livro não sabe ...

os tempos em que o efémero nasceu

eram os verões do início dos anos noventa. alguns de vocês que estão a ler ainda nem nascidos eram, não passavam de projectos de cruzamento de material genético nas cabeças e gónadas dos vossos pais. sesimbra era uma terra com menos casas, com menos gente, com mais barcos, com água mais limpa. os meus dias eram passados a descer e subir a colina. para a praça, para a praia, para o almoço, para a praia da tarde (ó se a água tinha sempre carneirinhos que se adivinhavam cá de cima), para o jantar, para o passeio da noite. entre postas de cherne grelhado no carvão, brisas do mar e barcos de doce de amêndoa, a vida era ela própria doce como as sobremesas e o grande objectivo de vida era um dia conseguir nadar até aos barcos. pelo meio de tudo isto uma certeza. o walkman da sony, recebido como presente no fim da quarta classe, era um dos meus melhores amigos. nele cabiam as várias colecções de música gravadas em cassete no espólio lá de casa. uma delas tinha como destino acabar de exaustão. ...

o amor anda de mãos dadas com a dedicação

a recomendação é para que se chegue cedo. a enchente diária de turistas é garantida. em qualquer altura do ano. a confusão de agra, uma cidade bem "agra-e-doce", é atravessada pelo rio yamuna, majestoso na altura em que ali chego, no fim da época das monções. inunda os campos de água, fecundando-os de vida. a vigiar de perto o curso do yamuna encontra-se aquele que é provavelmente o monumento mais famoso do subcontinente indiano, o taj mahal. se há locais do mundo que nos causam demasiada expectativa, desiludindo no momento da descoberta, este não é certamente um deles, sendo tão ou mais impressionante do que os nossos melhores sonhos imaginaram. para lá chegar fintam-se as ruas dos bairros envolventes. chovem convites para entrar em mais uma casa de tapetes. ou ali na outra que vende toscas miniaturas dos monumentos. de onde somos? israel? espanha? itália? entre, entre, não paga para ver, oferecemos-lhe chá, sem pedir nada em troca. chovem também algumas gotas de água do céu...