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Mensagens

estou farto de quem está farto dos dadores de lições

a esclerose lateral amiotrófica (ELA) é uma doença horrível. sem causa aparente, tirando meia dúzia de casos com base genética e uma ou outra suspeita pouco confirmada, aquilo que começa por uma fraqueza ou por uma atrofia muscular progride, a velocidades diferentes consoante os casos, para múltiplos defeitos neurológicos impossíveis de imaginar, culminando quase sempre numa paralisia completa, com incapacidade de andar, de mover pouco mais do que os olhos e de respirar. outro dos grandes problemas, o maior de todos eles, é que não tem cura. tirando um fármaco que prolonga a sobrevivência (muitas vezes prolonga nas condições  acima descritas), não há terapêutica capaz de inverter o curso da doença. como todas as doenças que não têm cura, a ELA requer, com a urgência possível, que mais investigação seja levada a cabo, que mais fundos sejam investidos, que mais gente se entregue de modo dedicado à causa, para que eventualmente um dia se consiga chegar ao tratamento da doença. ...

aventura

ela deixava-lhe mensagens escondidas em desenhos, rasgados nos cantos e reunidos nos meios. ele deixava-lhe mensagens à vista no lado dos planetas que dá para o sol. toda a gente conseguia em teoria ver o que lá estava escrito, mas, na verdade, só com uns óculos muito especiais é que dava para descodificar a mensagem. queriam dar as mãos mas era particularmente difícil porque ele vivia dentro de uma bolha e ela dentro de uma bolha vivia. a bolha era transparente, mas atravessá-la era de todas as cores. apareceu de repente o árbitro, abriu o livro das regras e queixou-se do uso abusivo dos advérbios de modo. aparentemente, digo, de modo aparente, a queixa era sobre a conversa, não sobre o que vinha escrito nos planetas. mais tarde explicaram ao árbitro que os planetas tinham por lá coisas escritas e ele ficou fora de si, achou tudo aquilo meio ilegal e quis fazer queixa às nações unidas ou a um representante de um qualquer governo civil. só se acalmou quando lhe trouxeram a...

meio vivo meio alive

quis a coincidência das datas da minha passagem anual por terras lusas que este ano eu conseguisse ir ao alive. é melhor chamar-lhe só "alive" que a confusão entre optimus e nos ainda gera alguma guerra civil. tenho dificuldade em definir o meu festival favorito em portugal, porque todos têm coisas que me agradam. o sudoeste é imbatível na localização em plena costa vicentina, o super bock super rock costuma ter dos meus cartazes favoritos e também tem a praia do meco por perto, e o alive tem uma localização também ela fantástica, que permite fazer vida de lisboa durante o dia e no pos-festival, e assistir a uma data de concertos com vista para o tejo. sendo que estes festivais são para todas as idades, uma boa forma de não irem para lá a sentir que são velhos é irem vestidos de uma forma que não vos faça parecer velhos. no primeiro dia, por circunstância de outras voltas, fui para algés de camisa branca, com ar de pai, e na fila de entrada para o festival perguntava...

régua de felicidade

" és feliz? " se vos fizerem esta pergunta, o mais provável é começarem a patinar e gaguejar enquanto tentam responder honestamente. acabam por dar uma resposta remendada, feita às três pancadas, e isso acontece, acima de tudo, pela falta de coragem que temos para parar de vez em quando e pensar na resposta a esta pergunta. uns imaginarão a felicidade brilhando como diamantes, com postais de ilhas paradisíacas, águas claras e lagostas crepitantes a sair da grelha, enquanto vão polindo o brilho ao seu carro de luxo. outros cairão no pseudo-romantismo de abraçar uma felicidade primitiva, o amor e uma cabana, as estrelas tão bonitas lá no céu e para que precisamos do mundo e para que precisa o mundo de nós (até serem mordidos por um animal venenoso e irem a correr aflitos para o hospital). a felicidade propriamente dita é impossível de definir. é ler e ver e ouvir, para entender que há milhares de anos que gente que sabe e gosta de pensar se questiona sobre isso, se...

as pessoas e a cómoda

a vida tem a mania de se compartimentalizar. são estados atrás de estados na infância, são fases atrás de fases na adolescência, são saltos de ponto para ponto na vida adulta. são muitos anos passados à face da terra (na verdade são sempre muito poucos) em que tanto pessoas como coisas fluem por nós. aparecem e desaparecem da nossa vida como incandescentes meteoritos quando invadem a atmosfera. para tudo isto, e sem ser por vontade própria, desenhamos dezenas ou centenas de gavetas, destinadas a cada um destes encontros vida fora. umas gavetas são abertas uma vez e logo fechadas para a eternidade. outras são abertas quando calha, e quando de lá salta a pessoa que ali esteve fechada anos a fio, é instantânea a corrente eléctrica que salta da gaveta para a nossa pele e acaba a aquecer o coração. outras gavetas há que trancamos a sete chaves e, ainda assim, vamos confirmar se não há hipótese de quem lá prendemos sair pela parte de trás do móvel.  penso muito na ironia das pal...

dar voltas à pista

hoje entrei no supermercado e um senhor de nobre idade fez-me sinal. precisava de ajuda para pôr o saco das compras ao ombro, porque problemas nas articulações o impediam de ter força e amplitude de movimento para conseguir completar uma tarefa tão simples. os dias passam no calendário como carros e pilotos a dar voltas à pista. as articulações gastam-se que nem pneus, a memória vai-se que nem combustível e as mudanças saltam freneticamente para cima e para baixo como se fossem estados de espírito. volta após volta vamos segurando a força dos Gs que nem uns corajosos, fingimos não notar o cheiro a queimado vindo das rodas e fintamos as poças de óleo que nem uns fitipaldis . esquecemo-nos com demasiada frequência de parar nas boxes . bem sei que a pista chama e promete glória, mas o reabastecimento é tão essencial como o músculo de feições estranhas que bate dentro do peito. sobre a pista que é a vida ninguém sabe bem o que é o pódio. mais uma razão para apreciar o caminho,...

lição de hoje

se há coisa que aprendi bastante nos domingos de manhã da minha infância foi como a natureza funciona. também aprendi que a feira do relógio tinha um rico pão com chouriço e que cair em cima da cal dos campos de futebol pelados queimava a pele, mas isso talvez não tenha tanta importância para o assunto de hoje. bebendo pelos olhos todos os programas que o ecrã teimava em expulsar, fosse a vida selvagem inglesa ou o outro a esconder-se atrás de arbustos, aprendi várias lições que ficaram para a vida. uma delas tinha a ver com o padrão de acasalamento das zebras. as zebras, sejam macho ou fêmea, têm uma característica engraçada, a de perderem a atracção por uma zebra do sexo oposto que faça a corte a todas as zebras que se mexem (e mesmo a uma ou outra mais estática do que uma múmia egípcia). quando isso acontece, não só perdem a atracção como a cor das suas listas até se pode inverter. as listas brancas passam a pretas e vice-versa, é a forma que a natureza tem de metaforicamente a...