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44 Moscavide

Mulheres gordas de ancas opulentas; o Casanova de óculos escuros e blusão de cabedal que sussurra obscenidades por cima do ombro da rapariguinha ossuda; o tipo que aproveita o tédio da viagem para pôr em dia a higiene nasal; a dona-de-casa que escolheu a hora de ponta para regressar a casa com embrulhos onde se adivinham vassouras ou varões de cortinado; o casal de namorados a trocar beijos ensalinguados – ele de boné encardido com pala de lado e ela de top justo que deixa o umbigo inflamado do piercing à vista; o indiano de rosto marcado por doenças tropicais, de que nem sei o nome, e que esfrega a barriga farta nas mulheres que passam; o senhor Barbosa que encontrou o Jerónimo do talho e discute a qualidade de alfaces que se dá melhor no quintal da casa “lá da terra”…
Tudo isto nos escassos lugares sentados mais quantos-caibam em pé de um autocarro da Carris. E eu neste microambiente fechado, a suar, a evitar desmaiar, a imaginar planos de fuga e a tentar (ainda) ser simpática e ceder o lugar que fica vago ao meu lado, e que eu tanto ansiava, à velhinha que arrastou as pernas coxas para dentro deste prodigioso transporte. E, quando chego à minha paragem, o perfume fresco que trouxe de casa foi substituído pela água-de-colónia do Casanova, pelo frango frito da dona de casa, pela noz-moscada do indiano e pelos odores de todas as pessoas que me tocaram…
E passo o resto do dia a ansiar por um banho, a jurar que, da próxima vez que o metro se avariar, perco o amor a 10 euros e vou de táxi até à Gare do Oriente. Tinha mais para fazer àqueles 45 minutos que passá-los no 44!

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